Hamnet Prime Video

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet: filme que consagrou Jessie Buckley chega de surpresa ao Prime Video

Em ‘Hamnet: A Vida Antes de Hamlet’ (2025), Agnes segura sozinha uma casa em Stratford enquanto o marido persegue a carreira no teatro em Londres.

O surpreendente drama Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025) entrou no catálogo do Prime Video, sem custo adicional para quem assina. O drama histórico britânico e estadunidense dirigido por Chloé Zhao já tinha passado pelos cinemas brasileiros em janeiro e pela loja digital em março, mas só agora fica incluído na assinatura. No meio desse caminho, o filme rendeu a Jessie Buckley o Oscar de Melhor Atriz, somou oito indicações na 98ª cerimônia da Academia e ultrapassou 108 milhões de dólares de bilheteria mundial, superando seu orçamento estimado entre 30 e 35 milhões.

Inglaterra, fim do século XVI. Agnes (Jessie Buckley) vive na zona rural de Stratford, conhece plantas, cura gente com ervas e mantém um falcão. Ela se casa com um tutor de latim sem dinheiro e com ambições de teatro, William (Paul Mescal), e os dois têm três filhos: Susanna, Judith e Hamnet. A vida em Stratford aperta o marido, que parte para Londres atrás das companhias de teatro e volta cada vez menos. Agnes fica com a casa, com a lavoura e com as crianças.

Em 1596, aos 11 anos, Hamnet (Jacobi Jupe) morre durante uma das ondas de peste que atravessaram o século. O pai está longe quando isso acontece, e o filme acompanha o que sobra do casamento depois disso, até a primeira montagem de Hamlet no Globe.

O roteiro é de Chloé Zhao com Maggie O’Farrell, autora do romance de 2020 que deu origem ao filme. A parte histórica documentada é pequena: Shakespeare teve mesmo um filho chamado Hamnet, que morreu mesmo aos 11 anos, e a peça veio poucos anos depois. Tudo o que liga uma coisa à outra é invenção do livro e do filme, e vale entrar na sessão sabendo disso.

Chloé Zhao chegou a Hamnet carregando o peso de Nomadland — Oscar de Melhor Filme e Melhor Direção em 2021 — e a expectativa de que, mais cedo ou mais tarde, ela voltaria a fazer algo intenso.

Sua marca é conhecida: paisagens que parecem respirar, tempo não linear que se assemelha à memória, câmera posicionada não como observadora neutra, mas como testemunha. Em Nomadland, os grandes espaços americanos eram personagens. Em Hamnet, é a floresta inglesa do século XVI que carrega essa função — um lugar de magia prática e de fronteiras porosas entre o visível e o oculto.

Os irmãos Jacobi e Noah Jupe atuam juntos em Hamnet, de Chloe Zhao.

Chloé Zhao venceu o Oscar de Melhor Direção e o de Melhor Filme por Nomadland (2020), foi contratada pela Marvel logo depois e dirigiu Eternos (2021). Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025) é o retorno dela a uma escala menor, ainda que com produção robusta atrás: Steven Spielberg e Sam Mendes assinam entre os produtores, e a equipe ergueu uma réplica em escala do Globe Theatre para as sequências finais.

A fotografia é de Łukasz Żal, o mesmo de Guerra Fria (2018) e A Zona de Interesse (2023), e a trilha é de Max Richter. Zhao também dividiu a montagem com Affonso Gonçalves. É um filme de artesanato visível, o tipo de produção que a temporada de prêmios costuma reconhecer nas categorias técnicas, e ele apareceu em figurino, design de produção e trilha sonora sem levar nenhuma delas.

O filme tem 87% no Rotten Tomatoes com mais de 340 críticas contabilizadas, venceu o prêmio do público no Festival de Toronto e levou o Globo de Ouro de Melhor Filme de drama, categoria em que superou O Agente Secreto (2025). No Oscar, das oito indicações, converteu uma: a de Jessie Buckley. Paul Mescal não chegou a ser indicado.

Pare de perder 90% do que os filmes estão comunicando. No curso Uma Luz no Fim do Filme eu te ensino a enxergar as pistas, símbolos e intenções por trás das cenas.

A crítica, porém, não foi unânime, e a divisão tem um nome: manipulação emocional. Patrick Sproull, no The Independent, tratou o filme como uma versão artificial e apelativa do livro, argumentando que O’Farrell abriu mão da discrição do romance original, que sequer nomeia Shakespeare, em troca de legibilidade e prestígio. A resenha do The Guardian elogia as atuações, mas registra que o filme carrega um zumbido de produção feita para prêmios. Do outro lado, Clarisse Loughrey, também no The Independent, defendeu que a acusação não se sustenta e apontou a sequência final como o ponto mais alto do ano.

A minha impressão fica entre as duas: o filme sabe exatamente onde apertar, e aperta com força, principalmente quando Richter entra na trilha. Se você tem pouca paciência com melodrama declarado, o incômodo vai aparecer. Se tem, Buckley segura tudo de pé com uma atuação de rosto e de silêncio, e o Oscar dela é bem menos discutível que o resto do pacote.

Repare nos dois irmãos. Jacobi Jupe, de 12 anos, interpreta Hamnet. Noah Jupe, de 20, irmão mais velho dele na vida real, interpreta o ator que encarna Hamlet no palco do Globe na sequência de encerramento. A semelhança entre os dois rostos é deliberada, e a escalação aconteceu depois: Jacobi já tinha terminado as cenas dele quando Zhao percebeu que ainda faltava o intérprete da peça e chamou Noah, que embarcou para o set em uma semana. Segundo os dois contaram à TIME e ao The Hollywood Reporter, Zhao encurtou de propósito o tempo de ensaio.

O que essa decisão faz na tela aparece no fecho. Agnes assiste à montagem da plateia, e Zhao filma a cena em campo e contracampo, alternando o palco e o rosto dela. O espectador vê Hamlet pela reação de uma mãe que reconhece o próprio filho no ator. É a melhor ideia de direção do filme, e ela só funciona por causa da escalação.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025) está disponível no Prime Video sem custo adicional.

Como Ler Filmes Cinema Guiado

Dica de Leitura: O livro ‘Hamnet: O livro que deu origem ao filme’, de autoria de Maggie O’Farrell, conta como a morte de seu filho teria inspirado Shakespeare a escrever sua peça mais famosa. Ao comprar o livro através deste link, você apoia o Cinema Guiado sem pagar nada a mais por isso. Isso não muda em nada nossa independência editorial.

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