Livre Filme

5 filmes sobre Crise Existencial para os dias em que nada faz sentido

De uma caminhada solitária de centenas de quilômetros a um funcionário público que descobre, tarde demais, que nunca viveu de verdade: cinco histórias que fazem perguntas difíceis.

A crise existencial não é exclusividade do cinema autoral europeu. Ela aparece também numa comédia de estúdio de Hollywood e num remake britânico de um clássico japonês de 1952. O curioso é que boa parte desses filmes parte de histórias reais: Livre (Wild) nasce das memórias de Cheryl Strayed, e Viver adapta Viver (Ikiru), de Akira Kurosawa, inspirado na novela russa A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói. Até Últimos Dias, o mais ficcional da lista, ecoa à distância os momentos finais de Kurt Cobain. A ficção, aqui, funciona menos como invenção e mais como lupa.

Selecionamos cinco filmes que colocam seus protagonistas diante da mesma pergunta incômoda,“Isso é tudo o que a minha vida vai ser?” — a pergunta que os cinco protagonistas encaram, cada um à sua maneira.

5.

A Vida Secreta de Walter Mitty (2013)

A Vida Secreta de Walter Mitty


Comédia de aventura estadunidense dirigida e estrelada por Ben Stiller, o filme de 2013 acompanha Walter Mitty, funcionário que cuida do arquivo de negativos da revista Life e vive mais dentro da própria cabeça do que no mundo real, perdido em devaneios grandiosos que substituem qualquer decisão de verdade. Quando um negativo do fotógrafo Sean O’Connell (Sean Penn) desaparece, Walter precisa sair do apartamento e ir atrás dele, o que o empurra para fora da fantasia.

A crítica dividiu opiniões, com 52% de aprovação no Rotten Tomatoes, mas o público reagiu com mais carinho, com nota B+ no CinemaScore. É a crise existencial mais leve da lista, mas o incômodo de base é sério: o que sobra de uma pessoa que só existiu nos próprios sonhos?

Está disponível no Disney+.

4.

Últimos Dias (2005)

Últimos Dias


drama estadunidense dirigido por Gus Van Sant, Últimos Dias fecha a trilogia da morte do diretor, iniciada com Gerry (2002) e Elefante (2003), com o retrato fictício dos últimos dias de um músico de rock isolado, cada vez mais distante das pessoas ao seu redor. O personagem Blake, vivido por Michael Pitt, é inspirado à distância em Kurt Cobain, mas Van Sant mantém o material como ficção livre.

O filme concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2005 e levou o Grande Prêmio Técnico do festival. A recepção da crítica foi dividida, com 58% de aprovação no Rotten Tomatoes, o tipo de nota que separa quem se rende ao ritmo hipnótico do filme de quem só vê tédio mesmo.

Está disponível na HBO Max.

Pare de perder 90% do que os filmes estão comunicando. No curso Uma Luz no Fim do Filme eu te ensino a enxergar as pistas, símbolos e intenções por trás das cenas.

3.

Livre (2014)

Livre


drama de aventura estadunidense dirigido por Jean-Marc Vallée em 2014 e baseado nas memórias reais de Cheryl Strayed, Livre acompanha a protagonista (Reese Witherspoon) depois de perder a mãe e viver um divórcio marcado por autodestruição, decidindo caminhar sozinha, sem experiência alguma, os 1.770 quilômetros da trilha Pacific Crest. O filme rendeu duas indicações ao Oscar 2015: Melhor Atriz para Witherspoon e Melhor Atriz Coadjuvante para Laura Dern, que interpreta a mãe em flashbacks. A crise aqui não é filosófica, é física: cada quilômetro vencido é também uma negociação com o luto.

O filme tem 88% de aprovação no Rotten Tomatoes e segue sendo redescoberto mais de dez anos depois do lançamento.

Está disponível no Disney+.

2.

Viver (2022)


drama britânico dirigido por Oliver Hermanus, Viver leva Bill Nighy a interpretar Mr. Williams, burocrata da Londres do pós-guerra que recebe um diagnóstico terminal e, pela primeira vez, decide fazer alguma coisa da própria vida. O filme é uma refilmagem de Ikiru, de Akira Kurosawa (1952), com roteiro do Nobel de Literatura Kazuo Ishiguro, ambientada em 1953. O roteiro rendeu a Ishiguro uma indicação ao Oscar 2023 de Melhor Roteiro Adaptado, e Nighy concorreu a Melhor Ator.

Com 96% de aprovação no Rotten Tomatoes, o filme enfrenta sem atalhos a pergunta que carrega: como transformar em sentido aquilo que sobrou de uma vida de rotina? A resposta de Williams é pequena, quase modesta, um parquinho infantil, e é por isso que funciona.

Está disponível na Netflix.

1.

A Pior Pessoa do Mundo (2021)

A Pior Pessoa do Mundo


Comédia dramática norueguesa dirigida por Joachim Trier, A Pior Pessoa do Mundo é o terceiro capítulo da trilogia de Oslo, ao lado de Reprise (2006) e Oslo, 31 de Agosto (2011). Lançado em 2021, o filme acompanha Julie (Renate Reinsve), que se aproxima dos 30 anos mudando de curso e de relacionamento sem nunca se decidir de vez, narrada em doze capítulos com prólogo e epílogo. Reinsve levou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes por esse papel, e o filme chegou a duas indicações ao Oscar 2022, de Melhor Filme Internacional e Melhor Roteiro Original.

Com 96% de aprovação no Rotten Tomatoes em 221 críticas, é o filme mais premiado da lista, e também o que menos entrega respostas prontas: Julie termina sabendo tanto quanto sabia no início, só que mais em paz com isso.

Está disponível no Prime Video.

Nenhum desses cinco filmes resolve a crise do jeito que se resolve um problema de matemática. Walter Mitty sai da fantasia, Cheryl Strayed termina a trilha, Mr. Williams constrói o parquinho, mas mesmo essas conquistas concretas não fecham a pergunta que abriu cada história. Elas só mudam quem está fazendo a pergunta.

A mais premiada da lista é também a que menos entrega: Julie, de A Pior Pessoa do Mundo, chega ao fim tão indecisa quanto começou, e é exatamente essa recusa em amarrar tudo com um laço que levou Joachim Trier e Renate Reinsve a Cannes. Talvez a crise existencial funcione melhor assim no cinema: sem solução fechada, só com companhia.

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