Em ‘O Abrigo’ (2011), um pai de família começa a ter visões de uma tempestade apocalíptica e se convence de que precisa construir um abrigo no quintal.
O Abrigo (2011) voltou hoje ao catálogo da Netflix, com história sobre catástrofe climática que dialoga perfeitamente com o momento atual. Um pai de família vivido por Michael Shannon trabalha em perfurações numa cidade pequena dos Estados Unidos e vive com a mulher, Samantha, e a filha Hannah, uma menina surda de seis anos. A vida é modesta e estável até Curtis começar a ter pesadelos com uma tempestade que ele descreve como diferente de tudo que ele já viu. No sonho, a chuva cai grossa como óleo, os pássaros voam em formações erradas, pessoas próximas o atacam. Ele acorda confuso, com o corpo doendo, sem conseguir explicar o que sente.
Por um tempo, Curtis guarda tudo para si. Procura ajuda meio escondido, pega um livro sobre transtornos mentais na biblioteca da cidade, marca consulta sem contar em casa. O medo tem uma raiz real: a mãe dele foi diagnosticada com esquizofrenia mais ou menos na idade que ele tem agora. Ao mesmo tempo, começa a gastar dinheiro que a família não tem para ampliar o velho abrigo de tempestade no quintal.
Jessica Chastain faz Samantha como alguém que enxerga o marido se afastar sem entender por quê, e decide ficar. A pergunta que o filme faz é difícil de responder: Curtis está enlouquecendo, ou está mesmo prevendo uma catástrofe?
O Abrigo é o segundo longa de Jeff Nichols com Michael Shannon e o primeiro com Jessica Chastain. Rever o filme agora é encontrar dois atores num ponto de virada, antes de virarem os nomes conhecidos que se tornaram.
A recepção crítica foi sólida e continua sólida. No Rotten Tomatoes o filme tem 92% de aprovação, com Metascore 85, e a atuação de Michael Shannon aparece em quase toda resenha como o centro de gravidade da coisa. Ele levou o prêmio de Melhor Ator no Saturn de 2012, e o filme venceu o Grande Prêmio da Semana da Crítica em Cannes 2011, além do prêmio da FIPRESCI, a federação internacional de críticos.
O crítico A. O. Scott, no New York Times, leu o filme como um retrato dos medos difusos da vida contemporânea.
Se você for assistir, repare em como Michael Shannon segura tudo por dentro. Curtis quase não grita, ele contém, e o efeito é mais perturbador do que qualquer surto escancarado. A tensão vai crescendo em silêncio até uma cena de jantar comunitário em que a contenção finalmente cede, num dos momentos mais lembrados da carreira do ator.
Repare também no som e nos efeitos das tempestades, feitos com um orçamento pequeno e usados com parcimônia, o que os torna mais assustadores quando aparecem. É um filme de ritmo lento, de queima demorada, e essa lentidão é deliberada: ela deixa o medo se acumular no espectador junto com Curtis.
O Abrigo pede paciência e retribui quem tem. É sobre uma pessoa tentando proteger a família de um perigo que talvez só exista na cabeça dela, e sobre o custo que essa dúvida cobra de todo mundo em volta. Voltou ao catálogo da Netflix, incluído na assinatura.
Confira o trailer de O Abrigo:

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