Será que somos mesmo capazes de perdoar alguém que esteve à beira de fazer algo terrível e deixou isso para trás?
O drama (2026)
Direção: Kristoffer Borgli
Duração: 105 minutos
Avaliação: ★ ★ ★ ★ ☆ (4/5)
O drama abre num close-up do ouvido da Emma, e o desenho de som nos conta que esse ouvido não funciona. E nesse momento que o filme começa a avisar que não é uma comédia romântica. No primeiro segundo.
A câmera mostra, em seguida, Charlie, interpretado por Robert Pattinson, observando Emma, vivida por Zendaya, num café aconchegante. Quando ela levanta pra pegar sua xícara, ele tira uma foto do livro que ela está lendo. Depois ele se aproxima dizendo que adora o livro. Mas Emma o ignora completamente e ele, então, volta para a sua mesa, totalmente sem graça.
Depois de alguns segundos, ele decide então voltar para pedir desculpas. Só então Emma explica que é surda de um ouvido, e por isso não escutou a primeira aproximação dele. Eles sorriem e ela pede a ele que comece tudo de novo. Nasce ali uma história de amor que vai levar os dois ao altar.
Essa sequência inicial mostra um primeiro encontro fofo, do tipo que abre qualquer comédia romântica da A24. Mas tem mais coisa plantada nessa cena, que muda o filme todo: o motivo por trás da surdez de Emma.
Eu assisti a O drama recentemente e fiquei pensando no filme depois. Tentando entender de onde vinha a inquietação que o filme me causou, e ela vem de um lugar só: a dificuldade em aceitar que uma pessoa pode ter estado à beira de fazer algo terrível e, tempos depois, conseguiu deixar aquilo pra trás de verdade. Duas posturas aparentemente inconciliáveis.
No vídeo abaixo, eu analiso O drama a partir de algumas pistas que me ajudaram a entender os temas do filme e as intenções do diretor.
Confira a análise completa abaixo:
O que significa o final de O Drama?
Emma e Charlie não se casam. A cerimônia acontece, mas tudo desaba: Rachel faz um discurso destruidor, Charlie revela sua escapada com Misha no dia anterior e Blake, namorado dela, dá uma cabeçada nele. E Emma foge sozinha da festa.
Ensanguentado, ainda de smoking, Charlie a procura no apartamento, não a encontra, e vai parar na lanchonete favorita dos dois. Emma chega logo depois, ainda de vestido de noiva. Ela senta à frente dele e se apresenta como se nunca o tivesse visto: “Oi, eu sou a Emma.”
E aqui está uma coisa importante. Esse é um jogo que Emma já tinha tentado antes na relação, pra tirar Charlie da própria cabeça. Na primeira vez, ele não conseguiu entrar, o que ele sabia sobre ela pesava demais. Agora ele joga junto. Os dois voltam a flertar, de mãos dadas, como não ficavam desde a confissão.
Como classificar esse final? Esperançoso? Triste? Aberto? Eu leio como rendição. Se Charlie não conseguiu segurar as duas verdades, a Emma que planejou e a Emma que se reconstruiu, a única forma de continuar é abrir mão de uma delas, apagar o passado e recomeçar como estranhos, porque estranho não tem passado obscuro pra carregar.
Eles não se separam, mas o casal que entrou naquela lanchonete não é mais o que se conheceu no café. É uma saída. Talvez a única possível.


Formado em Cinema pela FAAP, Herbert Bianchi é um fervoroso defensor de filmes lentos. Sua experiência morando em Budapeste — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — o levou a fundar o Cinema Guiado em 2023, plataforma onde exerce a nobre função de tradutor do que os filmes comunicam sem dizer.
