Capa Paris, Texas

8 filmes emocionantes sobre a dificuldade de recomeçar

De Wim Wenders a Chloé Zhao, dramas comoventes sobre luto, mudança forçada e a longa reconstrução depois que a vida racha ao meio.

A palavra recomeço soa como decisão. Uma manhã a pessoa acorda, decide virar a página e recomeça. A cultura pop aprendeu a vender essa ideia com muita eficácia, inclusive.

Mas para alguns cineastas, recomeçar não começa com decisão, mas com colapso. O processo costuma ser feio: atravessado por dúvidas, dores, retrocessos, escolhas ruins. Mostrar essa parte exige coragem e os oito filmes reunidos nesta lista fazem isso. Alguns partem do luto, outros da falência ou do trauma da guerra.

O que a lista propõe é, no fundo, um exercício de paciência: assistir pessoas tendo de recomeçar e ver quanto tempo e energia esse recomeço exige.

8.

Paris, Texas (1984)

Paris Texas
Harry Dean Stanton em ‘Paris,Texas’

O drama alemão-francês Paris, Texas (1984) abre com um homem magro, de terno amassado e boné vermelho, atravessando o deserto entre os Estados Unidos e o México. Ele anda em silêncio, como quem esgotou a energia para falar.

Travis (Harry Dean Stanton) desapareceu quatro anos antes e seu irmão Walt (Dean Stockwell) vai buscá-lo em uma clínica de fronteira para levá-lo até Los Angeles, onde o filho de sete anos, Hunter, cresceu chamando Walt e a esposa Anne de pai e mãe.

Aos poucos, Travis tenta reconstruir a relação com o menino e, depois, ir atrás de Jane (Nastassja Kinski), a mãe do garoto.

Wim Wenders conduz essa história sem pressa nenhuma. A câmera de Robby Müller demora nas rodovias, nas paisagens rachadas do sudoeste, como quem está dizendo que reconstruir um vínculos é trabalho de horas. A trilha de Ry Cooder sublinha o luto em poucas notas doloridas. O roteiro de Sam Shepard constrói no famoso monólogo final, na cabine de peep-show, uma cena longa em que Travis conta a Jane a sua versão do que aconteceu. aqui não é começar do zero, é aprender a olhar de novo para o que se destruiu.

O filme está disponível na MUBI.

7.

Manchester à Beira-Mar (2016)

Manchester à Beira-Mar
Casey Affleck e Lucas Hedges em ‘Manchester à Beira-Mar’

O drama Manchester à Beira-Mar (2016) começa com Lee Chandler (Casey Affleck) exercendo a rotina de zelador em Boston, atendendo pequenas emergências de encanamento e evitando conversas. Mas um telefonema o chama de volta ao vilarejo litorâneo onde nasceu: o irmão Joe (Kyle Chandler) morreu, e Lee descobre no cartório que passou a ser tutor do sobrinho adolescente, Patrick (Lucas Hedges).

Kenneth Lonergan escreve e dirige. Não há discurso sobre luto. Há Lee tentando cozinhar, negociar com o adolescente sobre o carro, discutir sobre o barco do pai, esbarrar com a ex-mulher (Michelle Williams) numa esquina. A cena entre Affleck e Williams no meio da rua, curta e devastadora, é o centro emocional do filme.

O que Lonergan faz bem é resistir à ideia de que retornar significa curar. Ele levou o Oscar de Melhor Roteiro Original em 2017, e Casey Affleck o de Melhor Ator no mesmo ano.

O filme está disponível na HBO Max.

6.

A Liberdade É Azul (1993)

A Liberdade É Azul
Juliette Binoche em ‘A Liberdade é Azul’

O drama europeu A Liberdade É Azul (1993) parte de um acidente de carro que mata o marido e a filha de Julie (Juliette Binoche). Após tentar se matar, ela decide construir uma vida sem laços: vende a casa, dispensa objetos, corta contato com quem a conhece, muda-se para um apartamento anônimo em Paris. A liberdade que dá título ao filme é essa, a de quem tenta apagar a própria biografia para não precisar sentir mais nada.

Krzysztof Kieslowski filma esse projeto de esvaziamento com sua sensibilidade rara. Uma cena simples em uma piscina se transforma no eixo emocional de todo um ato. A câmera segue objetos azuis pela casa, pela cidade, pelo apartamento novo, e a trilha de Zbigniew Preisner cita a sinfonia inacabada que o marido de Julie estava compondo, e que, aos poucos, ela vai retomar. A estrutura do luto vira a estrutura do filme.

Primeiro capítulo da trilogia das cores, o drama levou o Leão de Ouro em Veneza 1993. Recomeçar, sugere Kieslowski, exige reconhecer que os laços quebrados sempre vão existir.

O filme está disponível no Globoplay (via Telecine).

Pare de perder 90% do que os filmes estão comunicando. No curso Uma Luz no Fim do Filme eu te ensino a enxergar as pistas, símbolos e intenções por trás das cenas.

5.

Nomadland (2020)

Nomadland
Frances McDormand em ‘Nomadland’

O drama Nomadland (2020) acompanha Fern (Frances McDormand), viúva de 60 anos que perdeu a cidade em que morava quando a fábrica local fechou e o CEP da cidade foi literalmente desativado. Ela sobe numa van adaptada e vira parte da comunidade itinerante que atravessa os Estados Unidos aceitando trabalhos temporários nos galpões da Amazon.

Chloé Zhao filma essa vida como se fosse documentário, escalando nômades reais para viverem versões de si mesmos ao lado de McDormand e David Strathairn. A câmera de Joshua James Richards captura o amanhecer na estrada com um respeito quase religioso, e ainda assim Zhao não deixa o filme cair no romantismo: aparecem as filas para o banheiro portátil, a noite gelada dentro da van, o corpo sofrendo.

Nomadland levou o Oscar de Melhor Filme, Melhor Direção (Zhao virou a segunda mulher a ganhar) e Melhor Atriz em 2021, além do Leão de Ouro em Veneza 2020.

O filme está disponível no Disney+.

4.

O Mestre (2012)

O Mestre
Joaquin Phoenix em ‘O Mestre”

O drama estadunidense O Mestre (2012) começa em 1945, no fim da Segunda Guerra. Freddie (Joaquin Phoenix) é um marinheiro recém-desembarcado, com o rosto marcado por tiques e uma incapacidade quase animal de estar entre outros. Volta ao continente e falha em todos os empregos que tenta, até topar por acaso com o barco em que Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman) navega com a família e um grupo de seguidores. Dodd lidera A Causa, movimento espiritual com paralelos reconhecidos com a Cientologia, e vê em Freddie um projeto.

Paul Thomas Anderson filma esse encontro entre o veterano quebrado e o líder carismático com uma textura de imagem que parece pertencer a um cinema antigo. A química entre Phoenix e Hoffman eleva o filme, e Amy Adams, como a esposa de Dodd, opera como a força vigilante e ambígua nos bastidores. O que o diretor investiga não é a seita em si, é o tipo de dor que faz uma pessoa quebrada aceitar qualquer estrutura, por mais absurda, que devolva a sensação de pertencimento.

Disponível na plataforma da Diamond Films+ (via Prime Video).

Como Ler Filmes Cinema Guiado

3.

Ela (2013)

⁠Ela
Joaquin Phoenix em ‘Ela’

O drama melancólico Ela (2013) apresenta Theodore (Joaquin Phoenix) em uma Los Angeles futura levemente pastel, na etapa mais dolorosa de um divórcio ainda não assinado. Theodore trabalha escrevendo cartas de amor por encomenda para outras pessoas, e volta para casa vazio, joga videogames, dorme escutando notícias no fone.

Um dia, ele instala um sistema operacional novo, movido por inteligência artificial, que se apresenta como Samantha (voz de Scarlett Johansson). Os dois começam a conversar, e a partir daí o filme investiga o que acontece quando alguém se apaixona por uma voz.

Recomeçar depois do divórcio, aqui, começa com um atalho: preencher o vazio com algo que responde sempre. E o filme mostra como esse atalho tem prazo de validade. Jonze levou o Oscar de Melhor Roteiro Original em 2014.

O filme está disponível na HBO Max.

2.

O Lutador (2008)

O Lutador
Mickey Rourke em ‘O Lutador’

O drama O Lutador (2008) apresenta Randy “The Ram” Robinson (Mickey Rourke) vinte anos depois do auge. Nos anos 1980, foi estrela do wrestling profissional. Agora vive em um trailer no interior de New Jersey, trabalha em um supermercado, e nos fins de semana ainda sobe em ringues de eventos regionais para apanhar em nome de um público que lembra vagamente de quem ele foi. Após um infarto, o médico proíbe qualquer nova luta. Randy tenta então construir uma vida fora do ringue, reaproximar-se da filha Stephanie (Evan Rachel Wood), e começar algo com Pam (Marisa Tomei), stripper mais ou menos da mesma idade que se equilibra em decisões parecidas.

Recomeçar exige aceitar que o corpo não aguenta mais as porradas que aguentava. O drama levou o Leão de Ouro em Veneza 2008, com duas indicações ao Oscar (Melhor Ator para Rourke e Melhor Atriz Coadjuvante para Tomei).

Disponível na plataforma da Diamond Films+ (via Prime Video).

1.

Livre (2014)

 Livre
Reese Witherspoon em ‘Livre’

O drama estadunidense Livre (2014) parte da história real de Cheryl Strayed (Reese Witherspoon), escritora estadunidense que aos vinte e poucos anos, após a morte da mãe (Laura Dern) e o fim do casamento em meio a anos de uso pesado de heroína e sexo compulsivo, decide caminhar sozinha os cerca de 1.700 quilômetros do deserto de Mojave até quase a fronteira com o Canadá.

Jean-Marc Vallée filma a trilha sem estilizá-la. Cheryl aparece exausta, com os pés em carne viva, sem saber montar barraca. Os fantasmas do passado aparecem em flashes curtos, quase involuntários. Witherspoon, longe de qualquer glamour, sustenta o filme sozinha em quase todas as cenas.

O que interessa a Vallée e ao roteirista Nick Hornby, adaptando a autobiografia de Strayed, não é a metáfora da montanha como purgação. É o esforço mecânico do dia a dia de andar, beber água, encontrar comida, dormir, andar de novo, como forma de reorganizar quem é essa mulher depois de perder a mãe. Recomeçar aqui é um trabalho de músculo. Livre recebeu duas indicações ao Oscar em 2015, de Melhor Atriz para Witherspoon e Melhor Atriz Coadjuvante para Dern.

O filme está disponível no Disney+.

Os oito filmes acima não vendem a ideia de que recomeço é uma decisão. Em Kieslowski, é um projeto de amputação que falha. Em Zhao, uma reorganização longa entre estradas e trabalhos temporários. Em Aronofsky, uma escolha impossível entre corpo e sentido. Em Lonergan, uma tentativa que o próprio filme não deixa completar. Em Vallée, um esforço físico, dia após dia. Em Wenders, o trabalho lento de olhar de novo para o que se destruiu.

Assistir a oito filmes sobre a dificuldade de recomeçar oferece, no melhor caso, companhia. A companhia de reconhecer que outras pessoas também precisaram de tempo para voltar aos trilhos, e que isso é normal.

Como Ler Filmes Cinema Guiado

Que tal ver o próximo filme com som de verdade? Dê um upgrade na sua experiência com a Soundbar JBL Cinema SB180, a melhor opção de som com o menor preço. Compre com desconto clicando aqui.

Quando você compra usando nossos links, você apoia o Cinema Guiado e isso não afeta a nossa independência editorial.

Rolar para cima