Em ‘Estranhos Prazeres’ (1995), Ralph Fiennes é um vendedor de memórias que recebe um disco com o registro de um crime e passa a ser caçado por causa dele.
Lenny Nero (Ralph Fiennes) vende experiências. Ex-policial de Los Angeles, ele virou contrabandista de CDs com memórias extraídas diretamente do córtex de outras pessoas: você injeta o aparelho na cabeça e vive alguns minutos de vida alheia como se fossem seus. A maior parte do que Lenny oferece é banal e um pouco triste, o tipo de fantasia que as pessoas compram escondido. Numa das últimas noites de 1999, no entanto, alguém deixa com ele um disco que não é entretenimento, mas o registro de um assassinato.
Dois anos depois de A Lista de Schindler (1993), Fiennes faz aqui o contrário: um homem pequeno, encantador e meio patético, apaixonado por uma ex-namorada que não quer saber dele. A direção é de Kathryn Bigelow, que quinze anos mais tarde se tornaria a primeira mulher a vencer o Oscar de direção, por Guerra ao terror (2008). Estranhos Prazeres (1995) está no Disney+ e você pode ter deixado passar.
A cidade um minuto antes da virada
A Los Angeles do filme está a dois dias do ano 2000 e parece prestes a explodir. Há polícia demais na rua, festa demais, medo demais. A tecnologia que move a trama se chama SQUID, um aparelho que grava memórias e sensações físicas de quem o usa e permite que outra pessoa reviva tudo depois. O comércio é proibido, e é dele que Lenny tira o sustento.
O disco que chega às mãos dele foi gravado por Iris, uma garota de programa que Lenny conhecia e que viu algo que não devia. A partir daí ele tenta entender o que está naquela gravação antes que as pessoas interessadas em enterrá-la cheguem primeiro. Mace entra na história porque Lenny não tem a menor condição de se defender sozinho, e porque ela o conhece bem o bastante para saber disso.
O roteiro é de James Cameron e Jay Cocks, a partir de uma ideia que Cameron carregava desde os anos 1980. A tensão racial da cidade e o abuso policial não são pano de fundo: são o assunto. O filme foi escrito e rodado poucos anos depois dos protestos de 1992 em Los Angeles, e Bigelow nunca escondeu que era daquilo que estava falando.
O que Kathryn Bigelow fez com a câmera
A grande invenção formal do filme é o ponto de vista. Quando um personagem coloca o aparelho e revive uma gravação, a imagem passa a ser literalmente o olhar de outra pessoa, num plano contínuo, sem corte. Nenhum equipamento existente na época dava conta do que Bigelow queria, e a divisão de pesquisa da Lightstorm Entertainment passou um ano projetando uma câmera 35mm de pouco mais de três quilos, feita para caber na mão e operar sem visor. O filme abre com uma dessas sequências, um assalto vivido de dentro dos olhos de quem o comete, e ela ainda hoje impressiona.
Isso tem um preço. Duas dessas sequências são muito duras de assistir, e a mais discutida delas foi motivo de crítica pesada na época, inclusive de quem acusou o filme de reproduzir a violência que dizia condenar. Vale entrar sabendo disso. Bigelow sempre defendeu o filme como uma obra contra a violência e o racismo, e o chamou de o seu trabalho mais pessoal.
Confira o trailer:
Um fracasso de bilheteria que virou cult
Na estreia, foi um desastre comercial. Custou 42 milhões de dólares e arrecadou pouco mais de 17 milhões, e o tombo praticamente parou a carreira de Bigelow por alguns anos. A crítica se dividiu: houve quem elogiasse a atmosfera e as atuações de Fiennes e Bassett, houve quem achasse o resultado vistoso e vazio. No Rotten Tomatoes o filme marca 71% de aprovação com 58 críticas contabilizadas, um número que mostra opiniões majoritariamente positivas.
Com o tempo, o filme foi ganhando fãs. São 85 mil votos no IMDb e nota 7,2, números de um título que as pessoas continuaram procurando por conta própria, sem nenhum empurrão de relançamento por aqui. Juliette Lewis, que faz Faith, a cantora por quem Lenny é obcecado, canta ela mesma duas músicas de PJ Harvey nas cenas de palco, e a trilha inteira funciona como um retrato bastante exato do que tocava em 1995 imaginando o que tocaria em 1999.
Por que assistir agora
O que envelheceu bem em Estranhos Prazeres (1995) não é a tecnologia, é a intuição por trás dela. Um filme de 1995 que trata a gravação de uma violência policial como a coisa mais explosiva que pode existir dentro de uma cidade tensionada acertou alguma coisa sobre as três décadas seguintes. E sem parecer profético, apenas atento.
O filme é longo, sujo, às vezes desequilibrado, e sustentado por dois atores em ótima forma. Se você gosta de ficção científica que prefere as ruas aos laboratórios, este filme é uma das melhores companhias para passar uma noite.
Estranhos Prazeres (1995) está disponível na Disney+ e também no Looke e Filmicca.

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