Terror de Curry Barker avisa desde a primeira cena que o perigo mora em casa, expondo o não-consentimento como o verdadeiro motor do mal.
Obsessão
Direção: Curry Barker
Ano: 2025
Avaliação: ★ ★ ★ ★ ☆ (4/5)
A primeira morte de Obsessão acontece antes de qualquer desejo, antes de qualquer coisa sobrenatural. E quase ninguém repara no jeito como ela acontece: a gata de Bear, Sandy, ingeriu um analgésico fortíssimo por acidente.
Segura essa informação. Um remédio feito para aliviar a dor, esquecido ali num canto, mata o primeiro ser vivo do filme.
O remédio é retomado no desfecho do filme: Bear, trancado no banheiro, cercado de horror por todos os lados, engole o que sobrou do mesmo frasco. A mesma droga. O veneno dos primeiros minutos reaparece no final, e eu vou te ajudar a entender por que Curry Barker, que escreveu, dirigiu e montou o filme, fechou esse círculo.
A resposta muda a leitura de Obsessão inteiro. Mas pra chegar nela, preciso te mostrar antes algumas pistas que foram plantadas no filme, detalhes que a maior parte do público deixou passar mas que abrem uma nova camada de sentido na história.

O terror psicológico de Curry Barker, produção de orçamento modesto que virou fenômeno de bilheteria, se apresenta, à primeira vista, como uma história clássica de objeto amaldiçoado, dessas em que um artefato inocente cobra caro por cada desejo.
O protagonista é Bear, vivido por Michael Johnston: um rapaz tímido, apaixonado desde sempre pela amiga de infância Nikki, interpretada por Inde Navarrette. Ele quebra um brinquedo que encontrou numa loja de artigos esotéricos, um graveto chamado One Wish Willow (o Salgueiro do Desejo) que promete realizar um único desejo, e pede que ela o ame mais do que qualquer pessoa no mundo. O desejo se realiza, e vira pesadelo.
Só que o remédio, a oxicodona, planta outra ideia, bem antes do brinquedo místico entrar em cena. E aqui tem um detalhe que quase ninguém nota, mas que está na tela: quando Bear guarda o frasco de volta no armário, dá pra ver que os comprimidos são receitados para Barbara Bailey. Mais adiante o filme revela que Bear mora na casa que herdou da avó, morta há pouco tempo. O perigo não veio de fora, nem de nenhuma loja de ocultismo. Já estava ali, no descuido do próprio Bear.
A morte de Sandy estabelece que aquela casa já continha algo capaz de matar, sem nada de esotérico. E a leitura que proponho a partir disso é que o filme está avisando desde o início:
O PERIGO MORA NO PRÓPRIO PERSONAGEM, NA PRÓPRIA CASA, NO QUE O PERSONAGEM JÁ CARREGA.
O Salgueiro do Desejo só entra na história como uma ferramenta do perigo que já existe dentro dele.

A segunda pista está numa das cenas mais desconfortáveis do filme, a festa na casa de Ian. Durante um jogo de torre de blocos, Nikki recita uma versão violenta e incestuosa de João e Maria, olhando fixamente para Bear.
Por que João e Maria? Por que uma história de irmãos, contada desse jeito deturpado?
A resposta está numa informação que o próprio filme entrega pela boca de Ian: antes do desejo, Nikki tinha dito para Sarah que via Bear como um irmãozinho. Era esse o amor real que existia ali. Fraternal. E o desejo de Bear pegou esse afeto e o torceu para o registro romântico à força.
Barker explicou à Polygon que quis mesmo o conto de João e Maria por isso: irmão e irmã juntos, uma coisa que não é certa e não deveria acontecer, mas acontece, e que, nas palavras dele, é meio que o filme. Ou seja, o monólogo é a tese do próprio Barker dita em voz alta por Nikki: um amor de irmã que o desejo empurrou para um lugar diferente. O texto desse monólogo, aliás, foi escrito pelo pai de Barker, que é dramaturgo, para dar mais ênfase dramática para a cena.
A terceira pista é de atuação. Repare como Inde Navarrette interpreta Nikki depois do desejo. Ela não berra, não fica com voz grave, não faz nada do repertório clássico de possessão demoníaca. Ela chora, implora, ameaça se machucar, faz chantagem. Ela age, nas palavras do próprio diretor, como uma namorada ciumenta.
Em entrevista à Collider, Barker contou que pediu à atriz o oposto de uma vilã ameaçadora: nada de raiva, de voz ameaçadora, apenas a manha e o desespero de quem aprende a manipular para não ser abandonada. As referências que ele assistiu com o elenco confirmam esse caminho: Pearl (2022), de Ti West, e Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (2019), de Ari Aster. Dois filmes sobre mulheres em colapso emocional e nenhum demônio.
Uma cena prova esse ponto. Em determinado momento do filme, já com o pesadelo instalado, Nikki desperta lúcida, falando baixo para não acordar a personalidade possessora de seu corpo, e implora que Bear a mate. É uma pessoa presa dentro do próprio corpo, pedindo a única coisa que ainda lhe restou. O filme inteiro alterna esses dois registros, a mulher fabricada pelo desejo e a mulher real aparecendo pelas frestas, e é nessas frestas que Obsessão mostra o tamanho do estrago.

Numa dessas aparições, Nikki consegue deixar um recado. Ela esconde uma polaroide na marmita de Bear, que foi preparada com um ingrediente macabro pela personalidade possessora. Sobre a foto está escrito “não sou eu”. Ou seja, é a mulher presa lá dentro usando o pouco que ainda controla para avisar que aquilo que anda pela casa com o rosto dela é outra pessoa. Bear lê o recado, não entende na hora e morde o sanduiche. Para seu desespero logo em seguida.
O enquadramento de Obsessão reforça essa ideia. Barker pediu ao diretor de fotografia Taylor Clemons que enquadrasse os personagens sempre centralizados, com espaço sobrando acima da cabeça, porque queria que o filme parecesse desconfortável na própria solidão. O quadro isola cada personagem no centro de um vazio, deixando cada personagem sozinho com o que deseja.
A luz completa o serviço. Clemons sub-expôs a imagem de propósito, escurecendo o filme muito além do confortável para que o mundo parecesse o mais sombrio possível. Ele conta que chegava a ir dormir achando que tinha passado do ponto, checava o material bruto na manhã seguinte e voltava a escurecer ainda mais. As poucas cenas claras acabaram funcionando como um ciclo de tensão e alívio, efeito que ele não planejou e que nasceu da resposta ao próprio material.
E repara como a linguagem do filme reforça tudo isso. Obsessão foi rodado numa proporção de tela incomum, 3:2, bem mais estreita que o padrão de cinema, com barras verticais dos dois lados apertando o quadro. Barker explicou a escolha dizendo que ele queria que a plateia sentisse que estava olhando para quadros da vida de uma pessoa. Somada à câmera parada e à composição centralizada, a proporção produz o efeito de olhar para dentro de um porta-retrato. É a linguagem fazendo o que Bear faz. Ele queria guardar uma imagem dela que fosse dele, mesmo que fosse à força.
Um outro detalhe importante. Presta atenção no som do Salgueiro do Desejo. Na primeira vez que Bear encontra o brinquedo, ele toca uma musiquinha alegre, com cara de comercial dos anos 80.
Barker contou numa entrevista que cada Salgueiro seguinte toca uma versão diferente, mais sombria, da mesma melodia. E ele foi específico sobre a função disso: os jingles mais obscuros funcionam como um aviso a Bear para não usar o brinquedo de novo, pois não adianta tentar reverter o que fez. O filme alerta o personagem de forma sutil, pela própria trilha, e ele, claro, não escuta.
E tem o detalhe que fecha tudo. No clímax, quando é Nikki quem quebra o último Salgueiro, a musiquinha que toca é a original, a alegre. Para Barker, isso indica que o brinquedo estava pronto, disposto a realizar o desejo dela, o primeiro e único. Ou seja, o objeto em si nunca prejudicou ninguém. O problema nunca foi o brinquedo.
Obsessão está disponível para aluguel nas plataformas de streaming.
Veja a análise completa no vídeo abaixo:


Formado em Cinema pela FAAP, Herbert Bianchi é um fervoroso defensor de filmes lentos. Sua experiência morando em Budapeste — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — o levou a fundar o Cinema Guiado em 2023, plataforma onde exerce a nobre função de tradutor do que os filmes comunicam sem dizer.
