Backrooms Temas Simbologia Final Explicado

‘Backrooms: Um Não Lugar’ — Temas, Simbologia e Final Explicado

​Backrooms: Um Não-Lugar marca a estreia na direção de Kane Parsons, que expande seu fenômeno viral do YouTube para a tela grande.

Backrooms: Um Não-Lugar começa com um trecho de “found footage” mostrando um pesquisador dentro de um labirinto amarelo que parece não ter fim. Vemos a logo de um Instituto, equipamentos de gravação, objetos atravessando paredes. E entendemos que o pesquisador está fugindo de algo.

Mas a primeira fala articulada do filme vem apenas alguns minutos depois e já entrega a chave que vamos usar para decifrar esse universo. Enquanto observa a demolição de sua casa de infância, a terapeuta Mary, vivida pela atriz norueguesa Renate Reinsve, diz em OFF:

“Todos temos nossos loops, nossos hábitos, comportamentos que nos mantém andando em círculos, buscando a mesma solução repetidas vezes, pensando que a cada vez eles nos levariam para um lugar novo. Mas não levam. E mesmo assim, é o caminho neural de menor resistência. Um caminho que você trilhou, que te manteve seguro quando criança. Você aprendeu a afastar as pessoas, antes que elas pudessem te machucar. E agora, como adulto, você continua preso exatamente onde começou…”

Essa ideia de estar preso em velhos hábitos, antigas memórias, como cômodos claustrofóbicos do nosso próprio inconsciente, é a ideia central do filme e vai permear toda a nossa análise. A partir dela, vamos entender porque “Backrooms: Um Não-Lugar” é muito mais do que “um pesadelo selvagem”, como disseram alguns críticos.

De onde surgiu essa ideia?

Se você viu o filme e não entendeu muito, vamos partir do início, com um pouco de contexto. Os tais Backrooms, que significam, em tradução livre, salas do fundo, ou bastidores, nasceram como um fenômeno da internet em 2019, num post anônimo no fórum 4-chan. Uma imagem anexada nesse post retratava uma loja de móveis abandonada em Wisconsin, com carpete e paredes amareladas que pareciam se estender para sempre.

Post original no fórum 4chan em 2019

Foi então que um adolescente chamado Kane Parsons, agora um cineasta em ascensão em Hollywood, decidiu transformar aquela única imagem num universo inteiro, o que alguns chamam até de mitologia.

O que, sem dúvida, contribuiu muito para isso foi a websérie que ele começou a postar no YouTube a partir de 2022.

Na série de vídeos misteriosos, Parsons nos mostra um instituto de pesquisa fictício chamado Async Research, que já explorava essa dimensão desde os anos 1980, e uma sequência de situações inusitadas em torno das tais salas misteriosas.

O filme seria um pequeno recorte dessa história muito maior, começando apenas em 1990 e incluindo o prólogo de um pesquisador da Async que morre tentando registrar a amplitude do ambiente.

Mais tarde, com a chegada de um homem chamado Clark (vivido por Chiwetel Ejiofor) a esse mesmo labirinto temos a chance de entender melhor o que é e para que serve aquele lugar.
Bom, mas antes de falar do lugar, vamos falar do homem.

Quem são os protagonistas desta história?

Renate Reinsve em ‘Backrooms: Um Não Lugar’ (2026)

Clark é um arquiteto divorciado que não conseguiu emplacar na carreira e acabou à frente de um showroom de móveis baratos, se vestindo de pirata para atrair clientes.

Essa imagem de Clark vestido de pirata é importante e nós vamos voltar a ela em breve.
Mas, antes, vamos falar da imagem mais forte do filme, que é outra: um estranho conjunto de salas e corredores vazios cobertos de papel de parede amarelo.

E quem é Mary? Bom, a mulher que abre o filme com um monólogo sobre loops é Mary Kline, uma terapeuta e autora de livros e fitas de autoajuda que atende pacientes em seu escritório modesto. Clark é apenas um deles. Mary também carrega, desde a infância, um pedaço de cimento com a marca da própria mão, salvo da casa que acabou de ver ser demolida, e um trauma envolvendo sua mãe, que sofria de problemas mentais e a trancava em uma casa cheia de lixo.

Mas para começarmos a entender o filme, é importante que você repare numa coisa: antes de qualquer porta se abrir para os Backrooms, Clark já vivia dentro de cômodos falsos.

Ele dorme numa cama de mostruário de sua loja vazia, que finge vender uma vida que ele não tem, com uma camiseta desbotada de um fórum de design de 1970 pra dormir, prova silenciosa de que já se passaram duas décadas desde que ele abandonou a arquitetura, mas que ele ainda finge para si mesmo que não.

O labirinto que ele encontra através da parede não é exatamente uma prisão nova. Só uma maior.

Repare também que nas sessões de terapia com Mary, os dois fazem um exercício de role-play, reencenando a noite em que a esposa o pôs para fora de casa.

Clark grita, xinga e culpa todo mundo, menos ele mesmo. É terapia, mas funciona como um corredor em que ele entra e sai sempre do mesmo jeito e pelo mesmo lugar.

A ironia mais fina do roteiro é que a fala que abre o filme, sobre loops e caminhos neurais de menor resistência, não é só a filosofia de vida de Mary.

A fala surge novamente no filme, mais adiante, mas na boca de Clark, quando ele finalmente confessa para Mary o que aprendeu quando criança: afastar as pessoas antes que elas o machucassem, o que o manteve preso exatamente no mesmo lugar.

O filme usa praticamente as mesmas palavras nos dois personagens de propósito. A receita que Mary vende em fitas de auto-ajuda é a receita que ela, e o Clark, não conseguem aplicar na própria vida.

O conceito da repetição compulsiva

Isso tem nome em psicanálise: repetição compulsiva, o conceito de Freud para descrever a tentativa de repetir uma situação de dor ou abandono na esperança de finalmente dominá-la, mesmo sabendo, no fundo, que o resultado pode ser o mesmo de sempre.

Um terapeuta licenciado escreveu, na revista Psychology Today, que o filme funciona como uma espécie de renderização espacial de traumas. 

E um flashback mostra por quê. Ainda menina, Mary fez uma marca de mão no cimento da entrada de casa, ao lado da mãe, pouco antes da casa ser demolida. Ela guarda esse pedaço de cimento até os dias atuais. A mãe tinha um transtorno mental grave e mantinha Mary fechada dentro de casa. Cada corredor sem saída dos Backrooms vira, para ela, uma versão ampliada daquele ambiente de infância.

E lembra da imagem do Clark vestido de pirata que eu mencionei na abertura? Ela já é a primeira pista de que ele usa uma máscara performática de si mesmo bem antes de qualquer contato com outra dimensão.

Um homem que finge ser outra coisa em frente às câmeras, vendendo móveis que ele mesmo não compraria, muito antes de o Complexo Amarelado aparecer para devolver essa mesma mentira ampliada.

As naturezas mortas

Os dois cuidam, cada um do seu jeito, de um pedaço de um lugar que não existe mais. E é aí que entra o conceito mais perturbador do filme: os Still Life, ou Naturezas Mortas, cópias imperfeitas que os Backrooms produzem das pessoas que se perdem ali, vazias, sem memória de quem realmente foram.

Clark encontra uma dessas cópias de si mesmo antes do fim do filme. Uma versão gigante e monstruosa contendo tudo o que ele guardou na sombra por anos.

A grande sacada do filme é esta: o labirinto devolve, de uma forma deformada, apenas o que os dois já carregavam dentro de si.

As Naturezas Mortas não são monstros perdidos no meio do caminho. São o próprio labirinto tentando reconstruir pessoas a partir de memórias, do mesmo jeito que reconstrói cômodos inteiros.

E da mesma forma que os cômodos saem levemente errados, com móveis atravessando paredes, portas encolhidas, placas de trânsito em lugares sem sentido, as pessoas também saem deformadas.

O Complexo acerta a superfície: o cabelo, a roupa, a postura. E erra todo o resto que sustenta uma pessoa por dentro. Não é acaso que o próprio Kane Parsons batizou essas cópias de Still Life, o nome do gênero de pintura que retrata objetos parados, sem vida. É exatamente isso que elas são: um retrato de alguém que já não está mais ali.

No próprio prólogo de 1990, antes de Clark sequer imaginar que aquele lugar existia, já aparece uma placa da loja dele, a Império Otomano do Capitão Clark, fundida e distorcida numa parede do Complexo, com o texto invertido. E mais adiante, quando Mary entra lá dentro, encontra uma versão do próprio consultório dela, com móveis fundidos ao chão, e uma biblioteca vendendo os livros que ela mesma escreveu, com exemplares igualmente fundidos ao piso.

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O labirinto como trauma

Tudo isso está nos dizendo que o Complexo não reproduz só o inconsciente de Clark. Ele já continha, de alguma forma, o consultório e os livros de Mary, muito antes de qualquer um dos dois pôr os pés ali.

Ou seja, os móveis fundidos são a marca visível desse processo: o espaço tentando copiar um lugar real sem entender para que ele serve, empilhando objetos como quem reproduz uma cena sem entender o que ela significa.

E essas cópias carregam a psicologia de quem inspiraram. A Natureza Morta ruiva que persegue Clark em determinado momento do filme é lida pela maioria da crítica como uma versão distorcida da própria ex-mulher dele, Barbara.

E a Natureza Morta mais violenta do filme, o Pirata gigante, herda literalmente a raiva que Clark nunca soube processar. Por isso, eu repito, o Complexo não produz monstros do nada, ele amplifica as dores que a pessoa já carregava.

A análise continua no vídeo abaixo:

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