Com direito a uma comédia romântica sombria com Zendaya e Robert Pattinson, esses cinco filmes retratam o amor em seu momento mais doloroso: quando ele racha.
Em casos de amores desfeitos, a fratura pode vir de uma revelação, de um silêncio acumulado por anos, de um dinheiro inesperado que muda tudo, de uma noite em que verdades dolorosas finalmente vem à tona. Qualquer que seja o caso, o racha deixa marcas e retraça rotas. Nesta lista, selecionamos cinco filmes recentes que tratam desse momento com coragem e ousadia.
5.
O Drama (2026)

A comédia romântica sombria estadunidense de Kristoffer Borgli tem um dos elencos mais falados do ano. Zendaya vive Emma e Robert Pattinson, Charlie, um casal de Boston, Estados Unidos, aparentemente perfeito nos dias que antecedem o casamento. A festa de ensaio já está marcada quando uma revelação inesperada de Emma coloca em xeque tudo o que Charlie achava saber sobre a mulher com quem IA se casar.
A partir daí, o filme deixa de ser sobre a preparação de um evento e vira uma investigação sobre o quanto uma pessoa pode conhecer a outra depois de anos juntos. Borgli é o mesmo diretor de O Homem dos Sonhos (2023) e tem o humor ácido de quem não permite conforto: os enquadramentos que se fecham de repente colocam quem assiste dentro da cabeça dos personagens no pior momento possível, quando a dúvida chega e não sai mais.
Produzido por Ari Aster pela A24, o longa foi um dos grandes sucessos comerciais da temporada, com bilheteria que passou dos US$ 130 milhões. David Sims, no The Atlantic, elogiou o modo como Borgli constrói o desconforto sem ceder à moralização fácil. Zendaya carrega a segunda metade quase com o olhar. É um filme feito para deixar quem assiste desconfortável, e é justamente o que ele faz bem.
Disponível no Prime Video.
4.
Amores Materialistas (2025)

O segundo longa de Celine Song, indicada ao Oscar de Melhor Roteiro Original por Vidas Passadas (2023), foi vendido como comédia romântica leve e chegou às telas fazendo o contrário. Em Amores Materialistas, Dakota Johnson vive Lucy, casamenteira profissional em Nova York, Estados Unidos, que se divide entre Harry (Pedro Pascal), um homem rico e disponível, e John (Chris Evans), o ex-namorado ator falido que continua trabalhando de garçom para pagar as contas.
Song não escreveu um triângulo amoroso. Escreveu uma auditoria dos afetos contemporâneos, em que amor é planilha e desejo é orçamento. Lucy fala com clientes sobre altura, salário e ambição do mesmo jeito que fala com si mesma. Ao encontrar John de novo, algo racha nessa contabilidade. A fratura aqui é entre o que a gente diz querer e o que a gente sente antes de conseguir explicar.
Com US$ 101 milhões de bilheteria global e um marketing que gerou reclamação pública nas redes de espectadores que esperavam uma comédia romântica convencional, o filme divide opiniões e tem gosto pela divisão. A própria Song já afirmou que a obra funciona como crítica ao capitalismo aplicado ao afeto. Vale para quem topa uma comédia romântica que só é romântica se o espectador olhar de perto.
Disponível na HBO Max.
3.
Papai (2024)

O drama estadunidense marca a estreia na direção da roteirista Christy Hall, criadora de Não Estou Bem Comigo (2020) para a Netflix. Papai é praticamente uma peça de dois atores dentro de um táxi amarelo. Girlie (Dakota Johnson) acaba de desembarcar no aeroporto JFK e pega o carro de Clark (Sean Penn), motorista experiente, para atravessar Manhattan até em casa.
A conversa começa banal. Trânsito, tempo, essas coisas. Aos poucos, Clark provoca, Girlie responde, e o que era pequena troca vira uma escavação sobre o caso amoroso complicado que ela vive com um homem casado, sobre o passado dele, sobre desejo, sobre dinâmicas de poder entre mulheres novas e homens mais velhos. A fratura do amor aqui é diagonal: o que rompe não é o casamento dela, é o casamento do outro, e é a vida dela que carrega o peso.
Hall confia na direção e no elenco para segurar 100 minutos quase inteiros em um só espaço. Penn faz um dos trabalhos mais contidos da carreira, e Johnson responde com uma escuta atenta que rouba o filme. É pequeno, minimalista, e cabe naquele fim de semana em que o corpo não quer nada de grande.
Disponível na HBO Max.
2.
Malcolm & Marie (2021)

O drama romântico estadunidense em preto e branco de Sam Levinson, criador de Euphoria, foi o primeiro longa de Hollywood escrito, financiado e rodado inteiramente durante os lockdowns da pandemia. Levinson chamou Zendaya e John David Washington para viver Marie e Malcolm, um casal que volta para a casa alugada depois da estreia triunfal do primeiro filme dirigido por ele. Malcolm está eufórico. Marie, silenciosa.
O motivo do silêncio: no palco, no discurso de agradecimento, Malcolm esqueceu de mencionar a namorada. E o filme que ele acabou de estrear é claramente inspirado na vida dela, uma atriz em recuperação de dependência química. O que começa como uma alfinetada vira uma briga que dura a noite inteira, com pausas para dança, sexo, mais alfinetadas, mais brigas. Uma coreografia de rancor acumulado.
A recepção foi das mais divididas do ano. O crítico do Time, Stephanie Zacharek, elogiou o cuidado visual mas achou o roteiro pretensioso. Ben Sachs, no Chicago Reader, viu ali um retrato honesto da assimetria entre um artista e a musa que ele diz amar. Assistir é aceitar entrar na briga junto. O trabalho de câmera de Marcell Rév, com a fotografia em preto e branco. É o tipo de filme que rende debate: o convite é assistir e escolher de que lado ficar.”
Disponível na Netflix.

1.
Os Amantes (2017)

O drama romântico estadunidense de Azazel Jacobs, produzido pela A24, é o mais discreto e o mais afiado da lista. Mary (Debra Winger) e Michael (Tracy Letts) são casados há muitos anos, moram juntos e mal se olham. Cada um vive um caso paralelo há tempo, com pessoas que já não aceitam mais o arranjo e cobram uma decisão. Os dois combinaram, cada um com o respectivo amante, que vão terminar o casamento em breve.
Só que numa manhã qualquer, ao acordar, um beija o outro. E o beijo funciona. A partir daí Mary e Michael começam a se encontrar às escondidas dentro da própria casa, traindo os amantes com o cônjuge, redescobrindo um desejo que já tinham enterrado. O filme constrói uma comédia dramática de humor seco. É melancólico e engraçado no mesmo movimento, num balanço quase de valsa que Mandy Hoffman sublinha na trilha.
Stephanie Zacharek, no Time, chamou a obra de terna sem ser sentimentalista. Rafer Guzman, no Newsday, ancorou o elogio em Winger e Letts, que dão à cena a exaustão de quem discute a mesma coisa há anos. É um filme sobre um amor que retoma o ritmo carregando a marca do que rompeu.
Disponível para alugar no Prime Video.
Os cinco filmes ocupam o mesmo instante em ângulos diferentes. Em O drama, a rachadura é uma descoberta; em Amores Materialistas, é uma equação que não fecha; em Papai, uma conversa que abre o que estava trancado; em Malcolm & Marie, uma noite que despeja anos; em Os Amantes, um beijo fora do combinado. Nenhum deles promete resolução. Todos escutam o amor com atenção especial no momento em que ele deixa de funcionar sozinho, e é aí que a maioria dos filmes desvia o olhar.
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Formada em Sociologia, Maisa Gebara exerce a função de redatora no site do Cinema Guiado desde 2025.
