Inspirada em crimes reais de 1843, a minissérie explora as diferentes violências sofridas pelas mulheres na era vitoriana. escrita por Sarah Polley disseca a trajetória de Grace Marks em uma trama de opressão e mistério no Canadá.
A inclusão de novas obras de Margaret Atwood no catálogo da Netflix oferece a oportunidade ideal para redescobrir Alias Grace. Enquanto produções como O Conto da Aia focam em distopias futuras, esta minissérie de seis episódios ancora-se no suspense psicológico fundamentado em um dos crimes mais célebres da história do Canadá. A narrativa evita o espetáculo gratuito da violência para focar na mecânica da sobrevivência feminina em um século de privações.
A trama reconstrói os assassinatos de Thomas Kinnear e de sua governanta, Nancy Montgomery, ocorridos em 1843. A protagonista, Grace Marks, interpretada por Sarah Gadon, foi condenada à prisão perpétua pelo duplo homicídio ao lado do cavalariço James McDermott. O roteiro se desenvolve através das conversas entre Grace e o psiquiatra Simon Jordan, que tenta determinar se a imigrante irlandesa é uma assassina calculista ou uma vítima de amnésia e histeria.
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A produção carrega o prestígio de Sarah Polley, vencedora do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por Entre Mulheres. Polley, que levou duas décadas para realizar a adaptação, divide o comando com a diretora Mary Harron, conhecida pela crueza estética de Psicopata Americano. Harron utiliza planos fechados e uma montagem rítmica para transpor a prosa densa de Atwood em uma experiência visual que privilegia o silêncio e o detalhe técnico.
Sarah Gadon entrega uma atuação física e contida, alternando entre a docilidade exigida pelo serviço doméstico e uma percepção aguçada das engrenagens sociais. A série explora como a era vitoriana punia mulheres pobres por qualquer desvio de conduta.
Grace não é tratada apenas como prisioneira, mas como um objeto de curiosidade científica e moral por parte da elite que a cerca, revelando a precariedade da autonomia feminina no século XIX.

Diferente de suspenses convencionais, Alias Grace não depende de reviravoltas gráficas. O impacto reside na exposição da violência cotidiana — desde o trabalho exaustivo nas lavanderias até os abusos em manicômios. A obra demonstra por que Atwood permanece uma das vozes mais diretas ao tratar de poder e gênero, transformando um caso de tribunal em um estudo sobre quem detém o direito de narrar a história de uma mulher.
Onde assistir: A minissérie completa de Alias Grace está disponível para assinantes na Netflix.
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Formada em Sociologia, Maisa Gebara exerce a função de redatora no site do Cinema Guiado desde 2026.




