Como ‘Euphoria’ transformou Sydney Sweeney em um Godzilla moderno

O diretor Sam Levinson abandonou o digital e abraçou miniaturas clássicas para traduzir o delírio de grandeza de Cassie na nova fase da série da HBO Max.

A fama na era dos algoritmos não é medida apenas em curtidas, mas em volume físico. No episódio mais recente de Euphoria, o criador Sam Levinson materializa o ego inflado de Cassie através de uma metáfora visual bruta: uma Sydney Sweeney de 15 metros de altura que esmaga as ruas de Los Angeles como um monstro de um filme japonês dos anos 50. A sequência, que poderia ser resolvida com telas verdes genéricas, optou pelo caminho inverso, resgatando o artesanato dos efeitos práticos para capturar a histeria de sua protagonista.

O delírio de grandeza de Cassie encontra raízes no cinema de gênero. Levinson, cuja carreira é marcada por um maximalismo estético divisivo em obras como País da Violência (2018) e a controversa The Idol (2023), buscou inspiração no clássico cult A Mulher de 15 Metros (1958) e no marco kaiju Mothra (1961). A intenção não era apenas homenagear, mas utilizar a “física do peso” que apenas objetos reais possuem, conferindo à jornada de Cassie uma textura de pesadelo tátil.

Para o desenhista de produção François Audouy, veterano de produções como Logan (2017) e Ford vs Ferrari (2019), o desafio foi traduzir a tradição japonesa do Tokusatsu para o universo neon da série. Em vez de pixels, a equipe construiu uma Los Angeles em miniatura no fundo de um estúdio. Um painel Translight de 27 metros foi instalado para garantir que a iluminação de pré-crepúsculo fosse constante, evitando a artificialidade comum em composições digitais de grande escala.

A construção do cenário exigiu um rigor matemático que beira a obsessão. Audouy e o supervisor de efeitos visuais David Van Dyke trabalharam com perspectivas forçadas em múltiplas escalas: o primeiro plano foi construído na escala 1/24, enquanto os prédios ao fundo recuavam para 1/48. Para closes específicos, a escala subia para 1/12. Essa mistura de proporções exige que a câmera se mova em ângulos precisos para que a ilusão de profundidade não se quebre diante do espectador.

A concretude da cena atingiu seu ápice técnico na interação entre a gigante e um escritório real. Para simular Cassie pressionando o corpo contra um prédio, a KNB EFX Group construiu uma prótese física do busto da atriz em escala monumental. O mecanismo foi montado sobre um trilho e cronometrado para colidir com o vidro no exato momento em que detonadores (squibs) estilhaçavam a janela. É o tipo de impacto que o CGI moderno raramente consegue emular com a mesma agressividade orgânica.



No campo da imagem, o diretor de fotografia Marcell Rév optou pelo uso de película 65mm para rodar a sequência. A escolha do formato, conhecido por sua definição extrema e grão cinematográfico, serve para ancorar o absurdo da cena em uma realidade visual luxuosa. Para dar à Sydney Sweeney a sensação de massa e lentidão de um gigante, a atriz foi filmada com uma taxa de quadros superior (high frame rate), enquanto os figurantes no escritório eram captados na velocidade normal de 24 fps.

A montagem da cena foi um balé logístico. Em vez de deslocar a pesada aparelhagem de câmera de Rév, a equipe montou os cenários sobre rodas. Para trocar de ângulo, os técnicos giravam a cidade inteira, mantendo a iluminação e a câmera estáticas. Esse método, herdado da era de ouro de Hollywood, permitiu que uma sequência de complexidade absurda fosse finalizada em poucos dias de gravação, priorizando a performance física da atriz sobre o processamento de dados.

O uso de miniaturas não é um capricho nostálgico, mas uma escolha narrativa. David Van Dyke defende que o volume e a textura de fumaça, explosões e helicópteros de brinquedo reais preenchem a tela de uma forma que o digital ainda não alcança plenamente. Para Cassie, cuja vida interna é um turbilhão de emoções hiperbolizadas, nada menos que uma destruição física de prédios feitos de gesso e madeira seria capaz de ilustrar sua necessidade de ser notada.

Ao final, a incursão de Euphoria pelo cinema de monstros reafirma a identidade da série como um laboratório visual. Ao colocar uma das maiores estrelas da atualidade para derrubar o letreiro do Orpheum Theatre — composto por milhares de lâmpadas incandescentes reais — Levinson entrega mais do que um espetáculo. Ele entrega uma análise ácida sobre como a busca pela validação digital pode transformar qualquer indivíduo em uma força da natureza, capaz de devastar tudo ao redor para garantir o melhor ângulo.

Fonte: IndieWire

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