Em ‘O Poder da Justiça’, Matt Damon vive um advogado inexperiente que aceita o caso de um casal cujo filho morre esperando um transplante que a seguradora negou.
Um recém-formado em direito trabalha como bartender em Memphis enquanto espera a chance de exercer a profissão em um tribunal. O primeiro cliente que cai no seu colo é um casal falido cujo filho está morrendo de leucemia, à espera de um transplante de medula que a companhia de seguros nega repetidas vezes por escrito, com resposta padrão.
Matt Damon vive esse advogado novato, e quem dirige é Francis Ford Coppola. O filme é O Poder da Justiça (1997), um drama de tribunal com Jon Voight indicado ao Globo de Ouro pelo papel do advogado tubarão da defesa. O filme está na Netflix, e pode ter passado batido por aí.
A trama é adaptada de um romance de John Grisham, autor que Hollywood filmou várias vezes ao longo dos anos 90. Rudy Baylor, o protagonista, mal conseguiu se sustentar durante a faculdade e agora se vê representando os Black, uma família modesta, contra a Great Benefit, uma seguradora que transformou negar pedidos em política interna. Donny Ray, o filho, está morrendo.
Enquanto Rudy ainda tenta entender como se protocola uma petição, ele conhece Kelly Riker, vivida por Claire Danes, uma jovem casada que aparece no pronto-socorro machucada de novo, apanhou do marido com um taco de baseball. As duas histórias caminham em paralelo, uma no tribunal, outra dentro de um casamento violento.
O aliado de Rudy é Deck Shifflet, o corredor de acidentes vivido por Danny DeVito, sem diploma da OAB porque reprovou seis vezes na prova, e ainda assim mais afiado do que qualquer bacharel do escritório em que trabalha. É Deck quem ensina Rudy a entrar num hospital e fisgar um cliente antes da concorrência.
O advogado do outro lado é Leo F. Drummond, o papel que rendeu a Jon Voight a indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante. Drummond passa boa parte do julgamento sorrindo para o júri como quem já ganhou, e é essa serenidade calculada que torna a interpretação memorável.
Danny Glover faz o juiz. Mickey Rourke aparece como o chefe encrenqueiro do escritório de fachada onde Rudy começa. Virginia Madsen vive a testemunha-chave, uma ex-funcionária da seguradora que sabe onde os documentos estão enterrados, e volta ao depoimento com a coragem de quem tem mais medo do próprio silêncio.
Como foi a recepção do filme
O elenco reunido daria capa de revista em qualquer época, e ainda assim o filme circulou de forma discreta desde então. No Rotten Tomatoes, O Poder da Justiça tem nada menos que 82% de aprovação. Janet Maslin, no New York Times, escreveu que era o filme mais afiado de Coppola em anos. O National Board of Review incluiu a obra na lista dos dez melhores de 1997.
Mas parte da crítica discordou: Lisa Schwarzbaum, na Entertainment Weekly, achou tudo moralista demais. Mas o consenso, mesmo entre os mais reservados, respeita o cuidado de Coppola em manter o filme longe do panfleto anti-seguradora. O diretor conduz a história com humor onde ela pede humor e com paciência onde a paciência sustenta a acusação. Segura o passo antes do julgamento espetacular que o gênero costuma cobrar, e é isso que dá corpo à vitória quando ela chega.
Rudy chega à primeira audiência sem experiência real de tribunal, e Coppola não esconde: o personagem gagueja, esquece o nome de uma testemunha, fica de pé quando deveria sentar, olha em volta para saber se acertou. Damon carrega essa insegurança com o cuidado de mantê-la humana, e o filme cresce à medida que o personagem cresce. Kelly Riker volta ao meio disso tudo, e o que começa como distração vira o outro caso que Rudy vai ter que resolver, esse na base do improviso, longe do juiz, com um risco mal calculado.
Confira o trailer do filme:

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