O Alfaiate do Panamá Netflix

Suspense de John le Carré sobre como mentiras viram guerra está na Netflix

Em O Alfaiate do Panamá, um alfaiate da elite panamenha é chantageado por um agente secreto para inventar segredos de Estado.

Um alfaiate inglês veste os homens mais poderosos do Panamá, escuta o que se fala em salas fechadas e vive, aparentemente, a vida de quem enfim deu certo. Aparentemente. Quando Andrew Osnard, um agente do MI6 recém-exilado no país por um escândalo em Madri, descobre o passado real de Harry Pendel, o chantageia por informação privilegiada sobre o governo panamenho. Pendel faz o que sempre soube fazer para sobreviver: inventar. E o que ele inventa por dinheiro os serviços de inteligência começam a tratar como verdade.

O Alfaiate do Panamá (2001) é a adaptação que John Boorman fez do romance homônimo de John le Carré, com Pierce Brosnan e Geoffrey Rush, e está disponível na Netflix.

A história se passa nos anos 1990, no Panamá recém-devolvido pelos Estados Unidos, num momento em que o controle do canal está passando às mãos panamenhas e as potências ocidentais tentam entender quem manda no país agora. Pendel, casado com Louisa (Jamie Lee Curtis), engenheira que trabalha na autoridade do canal, tem acesso, pela mulher e pela clientela, ao que se discute entre políticos, militares e empresários. Osnard descobre isso e não quer só informação. Quer uma narrativa que renda missão, dinheiro e prestígio para uma carreira que naufragou.

Pendel entrega o que lhe pedem. Cria de nada uma oposição secreta clandestina, com nomes, financiadores e plano para retomar o canal. Quanto mais Osnard aprova, mais o alfaiate enfeita. A mentira se sustenta porque envolve pessoas reais. Mickie Abraxas (Brendan Gleeson), amigo de longa data e ex-preso político do regime Noriega, vira, no relatório do alfaiate, o líder da tal oposição. Louisa vira, sem saber, a fonte interna. O que começa como fábula para tirar dinheiro de Londres cresce até virar dossiê urgente, tratado com prioridade nos gabinetes britânicos e norte-americanos. E os gabinetes reagem. A guerra que só existia na cabeça de Pendel começa a existir também no mundo.

O filme se apoia numa comédia ácida sobre a vaidade de espião. Pierce Brosnan brinca com o papel que o consagrou: filma O Alfaiate do Panamá (2001) entre dois filmes de James Bond. Geoffrey Rush faz Pendel com a segurança de quem quer ser amado pelos amigos e a angústia de quem sabe que a fantasia toda pode ruir. E o dramaturgo Harold Pinter aparece em cenas curtas como Tio Benny, parente morto que Pendel escuta em momentos de aperto moral. Pinter recebe crédito de participação especial e está lá para dizer a Pendel as verdades que o alfaiate não quer ouvir.

John Boorman chega ao projeto com quatro décadas de trabalho e um lugar próprio no cinema britânico. Dirigiu Amargo Pesadelo (1972), Excalibur (1981) e Esperança e Glória (1987), este último com cinco indicações ao Oscar, incluindo direção e roteiro original. Aqui coassina o roteiro com o próprio John le Carré, autor do romance, e com Andrew Davies, roteirista veterano da televisão britânica.

É uma configuração incomum, o escritor do livro coescrevendo a adaptação do próprio livro. Le Carré publicou o romance em 1996 como resposta à sua desilusão com a comunidade de inteligência ocidental depois da Guerra Fria, e o filme estreou em março de 2001 com um enredo em que uma intervenção militar acontece por causa de informações fabricadas por espiões.

O elenco reserva ainda uma curiosidade cultural que hoje pesa mais do que na estreia. Daniel Radcliffe, então com onze anos, aparece em cenas curtas como o filho de Pendel. Era sua estreia no cinema. Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001) chegaria aos cinemas oito meses depois e mudaria sua vida.

O Alfaiate do Panamá (2001) estreou no Festival de Berlim de 2001 na seção Panorama. No Rotten Tomatoes tem 75% de aprovação em 119 críticas, com Metacritic em 66. A recepção crítica foi mista, com elogios ao elenco e à sátira, e ressalvas ao ritmo do suspense na segunda metade. Passou batido no Brasil, o que hoje é o que faz dele um achado do catálogo.

O filme trata da vaidade dos espiões e do preço que pessoas comuns pagam pelas invenções que outros vendem por elas. Pendel mente para não perder o que construiu na vida. Osnard registra a mentira e assina como fonte segura para Londres. O que acontece depois disso já não pertence a nenhum dos dois.

O Alfaiate do Panamá está disponível na Netflix.

Confira o trailer:

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