‘O Agente Secreto’ entra em lista de títulos mais ‘enganosos’ do cinema

‘O Agente Secreto’ entra em lista de títulos mais ‘enganosos’ do cinema

Revista britânica afirma que o título de um filme faz mais do que apenas identificá-lo, funciona como um contrato tácito com o espectador — uma promessa, ainda que vaga, do que esperar na sala escura.

Indicado em quatro categorias no Oscar, o filme O Agente Secreto, do cineasta Kleber Mendonça Filho, entrou para uma lista, digamos assim, não tão desejada da prestigiada revista britânica Far Out — a de filmes cujos títulos não entregam o que prometem. Mas a publicação tem um tom leve.

Considerado o caso mais recente — e talvez mais irônico — da lista. A revista aponta que o título de O Agente Secreto sugere uma aventura de espionagem à la James Bond, mas o que o filme de Kleber Mendonça Filho entrega, na prática, é uma experiência bem diferente: quase três horas ambientadas no Recife de 1977, durante a ditadura militar brasileira, acompanhando um ex-professor em fuga que tenta sobreviver sob uma identidade falsa.

O Agente Secreto, com Wagner Moura, foi listado como título enganador pela Revista Far Out

Wagner Moura, premiado em Cannes como Melhor Ator pelo papel, constrói um personagem que está tão distante de um agente secreto convencional quanto Recife está de Langley, na Inglaterra. Há política densa, gatos de duas cabeças, uma perna cabeluda ambulante e uns quinze minutos de ação propriamente dita — espalhados ao longo de uma narrativa que privilegia a tensão lenta, o detalhe de época e a atmosfera sufocante do período. O “agente secreto” do título, na verdade, é mais uma condição imposta pela sobrevivência do que uma profissão escolhida.

Sinopse: Brasil, 1977. Marcelo, um especialista em tecnologia na casa dos 40, está em fuga. Na esperança de se reunir com seu filho, ele viaja para o Recife durante o carnaval, mas logo percebe que a cidade não é o refúgio seguro que ele esperava.

A matéria da Revista Time Out continua questionando: o que acontece quando o título promete uma coisa e o filme entrega outra? Radicalmente diferente?

A verdade é que Hollywood tem um longo histórico de batizar seus filmes com nomes que, no mínimo, geram confusão — e, no máximo, frustram quem comprou o ingresso esperando ver algo completamente diferente. Outros exemplos que a revista reuniu você confere abaixo:

Trainspotting, com Ewan McGregor, foi listado como título enganador pela Revista Far Out

Trainspotting – Sem Limites (1996)

O caso de Trainspotting tem até uma história famosa de confusão. Quando Danny Boyle convidou Noel Gallagher para contribuir com a trilha sonora — no auge do Oasis —, o músico recusou porque pensou que o filme era, literalmente, sobre entusiastas de trens, uma vez que  “observação de trens” é um conhecido hobby britânico.

Gallagher disse que se arrependeu depois. O que o filme entrega, na verdade, é o retrato sombriamente cômico de um grupo de jovens navegando o vício em heroína nos cantos mais escuros de Edimburgo. Ewan McGregor virou estrela mundial no papel de Renton.

Sinopse: O viciado em heroína Mark Renton tropeça entre péssimas ideias e tentativas de sobriedade com seus amigos nada confiáveis — Sick Boy, Begbie, Spud e Tommy. Ele também tem uma namorada menor de idade, Diane, ao longo da jornada. Após se recuperar e se mudar de Edimburgo para Londres, Mark descobre que não consegue escapar da vida que deixou para trás quando Begbie e Sick Boy batem à sua porta.

Brazil, com Robert DeNiro, foi listado como título enganador pela Revista Far Out

Brazil – O Filme (1985)

O nome do filme vem da canção “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso — um detalhe que desafia qualquer expectativa natural criada pelo título.

Você poderia esperar carnaval, vôlei na praia e churrasco. Terry Gilliam, ex-Monty Python, não entrega nada disso. Brazil não é sobre nosso querido país tropical. Nem um pouco. É uma distopia surreal, profundamente estranha, em que Jonathan Pryce interpreta um burocrata que sonha com uma mulher enquanto enfrenta um sistema kafkiano.

Sinopse (TMDB): O burocrata de baixo escalão Sam Lowry escapa da monotonia do dia a dia por meio de um sonho recorrente em que se vê como um herói virtuoso salvando uma bela donzela. Ao investigar um caso que levou à prisão injusta e à eventual morte de um inocente em vez do terrorista procurado Harry Tuttle, ele conhece a mulher dos seus sonhos e, ao tentar ajudá-la, se vê preso em uma teia de identidades trocadas, burocracia sem sentido e mentiras.

O Comboio do Medo, com Roy Scheider, foi listado como título enganador pela Revista Far Out

O Comboio do Medo (1977)

E por fim, o caso que talvez melhor ilustre como um título pode sabotar um filme. Sorcerer, no original, promete um feiticeiro. O público em 1977 entrou nas salas esperando algo com magia, talvez na esteira do sucesso de ficção científica e fantasia que dominava a época. O que William Friedkin — o homem por trás de O Exorcista e Operação França — entregou foi Roy Scheider tentando dirigir um caminhão carregado de dinamite pelas selvas da América do Sul. Sem feiticeiros. Sem magia. Nem nada perto disso.

O título, como o próprio Friedkin explicou depois, se refere ao nome de um dos caminhões — e à ideia de que o destino é o verdadeiro feiticeiro do mal que controla a vida dos personagens. Uma explicação elegante, mas que chegou tarde demais para o público. Lançado um mês depois de Guerra nas Estrelas, o filme fracassou nas bilheterias e levou anos para ser reconhecido.

Sinopse: Quatro homens de diferentes partes do mundo, todos se escondendo de seus passados na mesma remota cidade sul-americana, concordam em arriscar suas vidas transportando várias caixas de dinamite (tão velha que está gotejando nitroglicerina instável) através de terreno perigoso na selva.

Esses filmes provam que um título enganoso pode ter consequências reais. O Comboio do Medo fracassou em parte porque o público esperava outra coisa. O Agente Secreto gera expectativas de ação que o filme claramente recusa. Trainspotting – Sem Limites perdeu a contribuição de Noel Gallagher. Em cada caso, o nome criou uma distância entre o que o espectador imaginava e o que a tela oferecia.

Agora, isso é necessariamente ruim?

Nem sempre. Muitas vezes, a surpresa é parte do prazer.

O problema aparece quando a distância entre promessa e entrega gera frustração em vez de descoberta.

Para quem faz cinema, a lição é meio óbvia: o título é o primeiro ato de comunicação com o público. E como em qualquer comunicação, a honestidade — ou pelo menos a ambiguidade calculada — tende a funcionar melhor do que a mentira pura e simples.

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