“A Intérprete”, suspense político de Sydney Pollack, foi o primeiro filme gravado dentro da sede da ONU e está disponível no streaming.
Vinte anos depois de seu lançamento, A Intérprete chega à Netflix e traz junto um detalhe que ainda impressiona: foi o primeiro filme da história a obter autorização para gravar dentro da sede das Nações Unidas, em Nova York, incluindo a Assembleia Geral e o Conselho de Segurança.
Sydney Pollack chegou a essa autorização de forma pouco ortodoxa: após o pedido inicial ser negado, ele foi diretamente ao então Secretário-Geral Kofi Annan e negociou pessoalmente. Annan aceitou.
A premissa é direta. Silvia Broome (Nicole Kidman) é uma intérprete que cresceu numa república africana fictícia chamada Matobo e trabalha nas Nações Unidas em Nova York. Numa noite, ao voltar ao edifício para buscar pertences pessoais depois de uma evacuação de segurança, ela ouve dois homens conversando num dialeto raro, a língua franca de Matobo, e entende o que dizem: há um plano para assassinar o presidente Edmund Zuwanie durante sua visita à ONU.

O problema é que Silvia tem um passado político em Matobo, namorou um dissidente do regime e perdeu os pais e a irmã em campos minados deixados pelas forças de Zuwanie. Para o agente Tobin Keller (Sean Penn), designado para investigar a ameaça, ela é ao mesmo tempo testemunha, vítima em potencial e suspeita.
Pollack compensou o país fictício Matobo com a autenticidade do espaço real da ONU, filmando o edifício de todos os ângulos possíveis.
A decisão funciona. Corredores, salas de interpretação, a câmara da Assembleia Geral, o filme trata o prédio como personagem, e há uma lógica nisso: grande parte da tensão depende do leitor entender que aquele é um território de regras próprias, onde as leis nacionais cedem espaço a protocolos internacionais e onde um assassinato precisaria ser executado com precisão de protocolo, não apenas de mira.

Nicole Kidman e Sean Penn constroem personagens que carregam luto, ela pelos familiares mortos, ele pela esposa que perdeu semanas antes em um acidente de carro. A aproximação entre os dois se dá menos por atração do que por essa dor compartilhada, e Pollack usa isso para dar ao filme uma camada emocional que vai além do thriller político convencional.
A questão é que o roteiro, assinado por Charles Randolph, Scott Frank e Steven Zaillian, três nomes respeitáveis, não sustenta essa camada até o final. A crítica especializada dividiu opiniões: o Rotten Tomatoes registrou apenas 57% de aprovação, com o consenso de que o filme é “polido e inteligente, mas prejudicado por algumas implausibilidades no enredo”.
A cena mais citada pelos críticos como exemplo do que o filme pode fazer quando funciona acompanha agentes rastreando dois suspeitos em locais diferentes simultaneamente, a montagem paralela cria tensão real, e o desfecho da sequência é econômico o suficiente para surpreender. É um exercício de direção que lembra por que Pollack, autor de Três Dias do Condor (1975) e A Firma (1993), merecia roteiros à altura de sua habilidade técnica.

A Intérprete foi o último longa-metragem que Pollack dirigiu. Ele morreu em 2008. O filme arrecadou 162 milhões de dólares no mundo todo contra um orçamento de 80 milhões, números que confirmam o interesse do público por suspenses políticos com elenco de peso, mesmo quando o roteiro não entrega tudo o que promete.
Agora o filme está na Netflix. Para quem ainda não viu, é uma sessão de duas horas que entretém sem exigir muito e que oferece, de brinde, uma visita a um dos edifícios mais fotografados do mundo filmado de dentro, por alguém que sabia o que estava fazendo com a câmera.

FICHA TÉCNICA
Direção: Sydney Pollack
Ano: 2005
Gênero: Suspense Político
Duração: 128 minutos
Origem: Estados Unidos

Formada em Sociologia, Maisa Gebara exerce a função de redatora no site do Cinema Guiado desde 2026.

