Diretor de ‘Drive’ relata experiência de quase morte em Cannes

Nicolas Winding Refn desabou em lágrimas em entrevista no Festival de Cannes ao recordar morte por 25 Minutos devido a “coração vazando” e volta à vida: “quantas pessoas ganham uma segunda chance?”

Durante coletiva de imprensa de Her Private Hell em Cannes, o diretor dinamarquês desabou em lágrimas ao revelar experiência de morte clínica que o fez repensar a carreira e voltar ao cinema após uma década.

Nicolas Winding Refn, o autor dinamarquês conhecido por sua estética Neon, violência estilizada e mergulhos psicológicos profundos, viveu um dos momentos mais marcantes da edição 2026 do Festival de Cannes. Na coletiva para seu novo longa Her Private Hell, ele não conteve as lágrimas ao relembrar como morreu por 25 minutos há três anos, vítima de um “coração vazando”, e foi trazido de volta à vida. A confissão, feita com a voz embargada, transformou uma conversa sobre cinema em um testemunho pessoal de renascimento.

Refn estava afastado das telas grandes desde Demônio de Neon, de 2016. Antes da crise de saúde, ele já havia chegado ao fim da linha criativa. “Antes de morrer, eu tinha chegado ao fim da minha carreira porque não tinha mais nada dentro de mim”, contou. “Não havia mais o que dizer.” A experiência que eu tive mudou tudo.

Her Private Hell é o novo filme do diretor de Drive (Neon)

Diagnosticado com um problema cardíaco descoberto por acaso — o sangue fluía para trás no coração —, ele recebeu a notícia de que provavelmente não sobreviveria, ou que as consequências seriam imprevisíveis. Duas semanas depois, passou por cirurgia.

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Com um humor ácido típico de quem flerta com o abismo em seus filmes, Refn brincou: “Graças a Deus o cirurgião era o Tom Cruise e ele me trouxe de volta usando eletricidade.” Mas o tom logo se tornou série. As lágrimas desceram enquanto ele falava do presente que recebeu. “Percebi, antes de morrer, que tinha ganhado um dom: eu podia começar de novo. Quantas pessoas ganham uma segunda chance? Eu ganhei uma segunda chance de Deus. E posso usar isso para o bem.”

Her Private Hell marca o retorno de Refn à direção de longas após uma década. O filme, um thriller de horror com toques de psicodelia, estreou fora de competição no Grand Théâtre Lumière e recebeu uma ovação de sete minutos do público.

No centro da história está uma atriz atormentada (Sophie Thatcher) que precisa confrontar questões com o pai quando sua melhor amiga se casa com ele. Ao mesmo tempo, uma presença misteriosa conhecida como Leather Man e um soldado do exército (Charles Melton) buscam vingança após o desaparecimento de uma filha.



O elenco ainda conta com Havana Rose Liu, Kristine Froseth, Dougray Scott, Diego Calva, Shioli Kutsuna, Aoi Yamada e Hidetoshi Nishijima.

O visual é puro Refn: Neon, cores saturadas, uma metrópole futurista que parece Los Angeles em um sonho febril. A mise-en-scène transforma o grotesco em algo hipnótico, com sequências que alternam violência explícita, momentos de camp (termo da crítica cinematográfica que descreve cenas ou sequências que abraçam o exagero) e uma atmosfera de pesadelo. Não é à toa que o filme já é descrito como parente espiritual de O Demônio Neon, mas com um tom ainda mais pessoal — afinal, o diretor estava reconstruindo a vida enquanto o concebia.

Mais tarde na coletiva, Refn também comentou sobre o uso de inteligência artificial na criação, tema recorrente em Cannes este ano. Ele não se opõe à ferramenta, desde que trabalhe a favor da criatividade. “Tentei em algo que pode aparecer por aqui no futuro e realmente adorei. Para mim, é como um pincel.”

— O diretor com o elenco de Her Private Hell em Cannes (divulgação)

A experiência de quase-morte parece ter devolvido a Refn não só a vontade de filmar, mas uma urgência de viver. Seus trabalhos sempre exploraram o lado sombrio da existência — isolamento, desejo destrutivo, a fronteira entre beleza e horror. Agora, essa exploração ganha camadas de consciência da finitude. O diretor que outrora parecia esgotado encontrou, no limiar da morte, material para recomeçar.

Cannes, com sua tradição de acolher vozes intensas e visões radicais, foi o palco perfeito para esse retorno. A ovação prolongada não foi apenas para o filme, mas para o homem que, literalmente, voltou do outro lado para contá-lo.

O filme ainda não tem data de estreia confirmada no Brasil, mas a distribuidora internacional Neon já anunciou lançamento nos Estados Unidos para 24 de julho de 2026.

Confira o teaser:

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