Em Dias Perfeitos, Wim Wenders acompanha a vida metódica de Hirayama, um limpador de banheiros públicos em Tóquio, revelando como a repetição de cada dia pode se tornar fonte de serenidade e autodescoberta.
Dias Perfeitos
Direção: Wim Wenders
Ano: 2023
Avaliação: ★ ★ ★ ★ ☆ (4/5)
Com performance magistral de Koji Yakusho, premiado em Cannes como Melhor Ator, o filme acompanha Hirayama, um homem de meia idade que acorda todos os dias ao som de uma vassoura varrendo a rua. Ele dobra o futon com cuidado, rega as plantas, faz a barba, escolhe uma fita cassete de sua coleção e dirige pela cidade ouvindo Lou Reed, Patti Smith ou The Kinks. Seu trabalho é limpar banheiros públicos de design moderno em Shibuya. À noite, lê livros de autores como Faulkner ou Capote, nas horas vagas fotografa árvores com uma câmera analógica e dorme cedo.
Essa é a superfície de Dias Perfeitos, filme de 2023 dirigido por Wim Wenders em coprodução Japão-Alemanha.
No filme, o diretor observa a rotina de um homem que constrói significado a partir do ordinário. Inspirado em Ozu, Wenders recria a rotina não como ritual de presença. Cada gesto repetido é uma escolha consciente de estar no agora.
O filme se passa na Tóquio contemporânea. Hirayama (Koji Yakusho) é um trabalhador braçal que mantém uma existência solitária, mas ritmada. Ele encontra esporadicamente um colega de trabalho mais jovem, Takashi (Tokio Emoto), que sonha com dinheiro fácil e não sai do celular. Sua sobrinha Niko (Arisa Nakano) aparece de repente, fazendo algumas perguntas sobre o passado. A trama avança sem nenhuma pressa, através de dias que se assemelham, até que pequenas fissuras surgem.
Dias Perfeitos transmite uma mensagem clara como o céu de Tóquio: a serenidade pode residir nas pequenas coisas. Hirayama encontra prazer na limpeza impecável dos banheiros, no reflexo da luz nas folhas das árvores, na música que preenche o carro. Wenders não romantiza a pobreza ou o trabalho precário; ele mostra um homem que decidiu extrair dignidade e beleza do que lhe foi dado.
“Agora é agora. Da próxima vez, é da próxima vez”.

Com o filme, Wenders toca também no tema da solidão voluntária como autoproteção. Hirayama evita conversas profundas. Seus sorrisos são gentis, mas seus silêncios carregam história. As sequências de sonhos em preto e branco revelam memórias fragmentadas e uma sensação de aprisionamento interior. O passado familiar, sugerido por encontros com a irmã, aponta para rupturas não resolvidas. O drama nos convida a ponderar que a rotina pode ser um escudo eficiente contra antigas dores.
Dias Perfeitos é um filme delicado que reflete também ansiedades contemporâneas sobre trabalho, consumo e sentido em tempos de consumismo e hiperprodutividade. Produzido em 2023, o filme surge num mundo de burnout, redes sociais e narrativas de meritocracia.
Hirayama representa uma resistência quieta: um homem que rejeita a lógica do “mais” – mais dinheiro, mais status, mais alcance – em favor do suficiente. É um comentário sobre o Japão moderno, mas também um recado universal sobre como o capitalismo molda e distorce identidades.
Observe uma cena inicial: Hirayama limpa um banheiro com algo que se aproxima de devoção. A câmera de Franz Lustig acompanha seus movimentos sem pressa, usando enquadramentos estáticos ou suaves pans (técnica que imita o movimento natural de virar a cabeça para observar um ambiente amplo ou acompanhar uma ação) que respeitam o espaço. Não há trilha sonora, apenas a sonoridade ambiente. Essa escolha cria intimidade. Sentimos o ritmo do corpo, a satisfação do trabalho bem feito. Quem filma demonstra respeito pelo gesto.
Outra sequência marcante envolve as árvores. Em determinado momento, Hirayama para, olha para cima, e tira uma foto. Wenders filma essas árvores com reverência, quase como retratos. A repetição dessas imagens reforça o tema do ciclo natural versus a linearidade urbana. O preto e branco dos sonhos contrasta com as cores suaves do dia, sugerindo que o inconsciente ainda carrega sombras que a rotina diurna mantém à distância.

O uso do som é outro ponto alto do filme. As fitas cassete não são adereços nostálgicos de um diretor indie. Elas pontuam os dias do protagonista com emoção contida. Quando Hirayama cantarola junto com Nina Simone ou ouve Otis Redding, vemos seu rosto relaxar. A música preenche o silêncio que ele cultiva. Diálogos são escassos; Yakusho atua principalmente com o corpo e o olhar. Seus ombros ligeiramente curvados, o jeito de inclinar a cabeça, o sorriso que mal chega aos olhos – tudo transmite uma história sem a necessidade de palavras.
A chegada da sobrinha Niko quebra o padrão. Ela acompanha Hirayama no trabalho, fotografa com ele, faz perguntas. Nessa interação, Wenders revela camadas de ternura. Hirayama, que vive sozinho, mostra que ainda conserva paciência e afeto. O contraste entre a energia jovem da garota e a contenção do tio ilumina como a rotina pode ser tanto um refúgio quanto uma barreira para conexões mais profundas.
O encontro com a irmã aprofunda o subtexto familiar. Revelações vêm em doses homeopáticas, nunca explicadas totalmente. O filme confia na inteligência do espectador. Não precisamos de backstory completo; basta vermos o impacto da conversa no rosto de Yakusho. Um plano fechado dele dirigindo, olhos marejados, ouvindo música, é um dos momentos mais potentes do cinema recente. Ali, a forma (enquadramento, luz, silêncio) e o conteúdo (emoção reprimida) se tornam uma coisa só.
Wenders evita fazer qualquer julgamento. Ele não idealiza Hirayama, não o retrata como santo nem como vítima, mas como um homem comum que encontrou um jeito só seu de viver com dignidade. Essa neutralidade gera um efeito contemplativo. O ritmo lento permite que o espectador entre no compasso do protagonista. No começo, pode parecer monótono, mas logo se torna hipnótico.

A fotografia valoriza a arquitetura dos banheiros públicos, parte de um projeto real de design em Tóquio. Eles não são sujos ou degradados; são espaços limpos, modernos, artísticos. Isso reforça a ideia de que beleza está no cuidado. A mise-en-scène do apartamento pequeno de Hirayama – livros empilhados, plantas, fitas – revela caráter e personalidade.
No plano narrativo, o filme dialoga com tradições japonesas de wabi-sabi (beleza da imperfeição) e com o cinema contemplativo de Ozu ou Kiarostami. Wenders, que já filmou no Japão antes, traz olhar estrangeiro respeitoso, filmando a cidade como um visitante atento aos detalhes.
A parte final do filme mostra Hirayama retomando sua rotina, ligeiramente alterada pela experiência. O último plano, com ele sorrindo para o sol, sugere aceitação. Não é resignação pura e simples, mas uma espécie de sabedoria ativa: aceitar o momento tal qual ele se apresenta.
Em tempos de distração constante, Wenders nos convida a desacelerar e perceber que há momentos de graça e presença no simples.
Dias Perfeitos está disponível na MUBI.
Gostou da notícia? O Cinema Guiado publica análises, artigos e curadoria sobre cinema todos os dias — com o olhar de quem enxerga além da história. Assine a newsletter e receba esse conteúdo no seu e-mail.

Formado em Cinema pela FAAP, Herbert Bianchi é um fervoroso defensor de filmes lentos. Sua experiência morando em Budapeste — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — o levou a fundar o Cinema Guiado em 2023, plataforma onde exerce a nobre função de tradutor do que os filmes comunicam sem dizer.




