Crítica | A arte como sobrevivência em ‘Look Back’

Em 58 minutos, Kiyotaka Oshiyama transforma o mangá autobiográfico de Tatsuki Fujimoto em uma obra densa e honesta sobre o preço de continuar criando após uma dura perda.


Look Back é um longa-metragem animado japonês de 2024, baseado no mangá de mesmo nome de Tatsuki Fujimoto. Para quem conhece Fujimoto pelo sucesso de Chainsaw Man — com seu horror visceral e sua violência coreografada — a existência desse filme pode parecer uma guinada radical.

Enquanto os trabalhos anteriores do autor eram majoritariamente mangás de ação, Look Back é uma história de amadurecimento que acompanha duas jovens ao longo de anos de amizade. A mudança de gênero é real. O que permanece inalterado é a seriedade com que Fujimoto trata seus personagens.

O filme é dirigido por Kiyotaka Oshiyama, que também assina o roteiro e o desenho dos personagens. As vozes de Fujino e Kyomoto pertencem, respectivamente, a Yuumi Kawai e Mizuki Yoshida. No Brasil, a dublagem foi produzida no estúdio Dublavideo, com direção de Manolo Rey, e conta com Agatha Paulita como Fujino e Bruna Matta como Kyomoto.

A tese central do filme abrange o que justifica seguir em frente. Fujino começa o filme como uma menina convicta de seu próprio gênio, publicando quadrinhos no jornalzinho escolar e colhendo elogios de colegas e professores. Um dia, sua professora a apresenta a Kyomoto, uma aluna reclusa cujo trabalho artístico provoca nela um assombro que logo se transforma em parceria. É a estrutura mais simples do mundo, mas Look Back trata a simplicidade como peso emocional.

Os nomes das protagonistas não são casuais: Fujino e Kyomoto, juntos, formam “Fujimoto” — o sobrenome do próprio autor. Isso transforma o filme em algo além de uma ficção sobre artistas. É um autorretrato. Fujino carrega a extroversão performática, a vaidade ruidosa, a necessidade de validação. Kyomoto carrega o isolamento, a timidez extrema, o talento que existe independente de audiência.

A universidade em que Kyomoto estuda arte é a Universidade de Arte e Design de Tōhoku — a mesma alma mater do próprio Fujimoto — e o mangá de sucesso que Fujino cria, Shark Kick, ressoa com o debut do autor, Fire Punch. Fujimoto não está escrevendo personagens. Está dissecando a si mesmo em público.

Look Back pinta a arte como sobrevivência (Cinecolor Films)

Do ponto de vista formal, o que se destaca imediatamente no filme é sua estética visual: os personagens têm traços duros, contornos poucos refinados, como esboços de um artista ainda encontrando seu caminho. A escolha é contraintuitiva para um filme de animação — a expectativa é de polimento técnico — mas a “imperfeição” deliberada faz sentido dentro da lógica da obra. Dois artistas em formação, traçando linhas ainda inseguras, habitam corpos animados que refletem essa condição.

A dificuldade de representar o tempo é um dos limites estruturais do mangá enquanto linguagem. Oshiyama transforma essa limitação em vantagem: o filme maneja a passagem do tempo com uma habilidade que o quadrinho não consegue replicar. Anos de vida escolar e criativa atravessam a tela em sequências curtas, densas, que acumulam afeto sem precisar explicá-lo. Fujino e Kyomoto envelhecem diante do espectador com a discreção com que as pessoas realmente mudam — não em cortes secos, mas em pequenos deslocamentos de postura, de tom, de hábito.

Há uma sequência em que Fujino caminha na chuva. No início, os passos são cautelosos, hesitantes. Aos poucos, eles crescem, ficam mais largos, até que ela está pulando e chutando a água com alegria solta. É um momento sem texto que concentra tudo que o personagem está sentindo — alívio, esperança, o ressurgimento de propósito. Oshiyama poderia ter colocado uma narração em OFF na cena, poderia ter incluído uma música, mas não o fez.

Falando em música, a trilha de Haruka Nakamura funciona de forma semelhante: sua ausência, em momentos específicos, gera uma profundidade que o apoio sonoro não daria conta. O silêncio é usado como elemento expressivo. Quando a trilha some, o espectador sente a queda — e percebe que estava sustentado por ela sem saber.

Look Back pinta a arte como sobrevivência (Cinecolor Films)

A segunda metade do filme é onde Look Back abandona qualquer conforto. A tragédia que encerra a trajetória de Kyomoto tem inspiração direta no ataque incendiário ao estúdio Kyoto Animation, em julho de 2019, que matou 36 pessoas e feriu outras 34. O mangá original foi publicado em 18 de julho de 2021, data do segundo aniversário do ataque. Fujimoto não evita a referência direta — ele a abraça como matéria-prima.

Nas próprias palavras do autor, a obra “foi criada para digerir à força o que havia dentro de mim que eu não conseguia digerir.”

Esse dado contextual muda a leitura do filme. A amizade entre Fujino e Kyomoto não é apenas uma história de crescimento: é uma homenagem aos animadores e desenhistas cujo trabalho foi interrompido por uma violência sem lógica. Fujimoto reconhece que sua incapacidade de assimilar a tragédia enquanto começava o mangá dá ao drama uma camada ainda mais intensa. Não é uma história sobre aceitação — é uma tentativa de reconciliação.

O filme responde a essa impossibilidade com uma escolha narrativa de peso: Fujino, após a perda de Kyomoto, encontra um mangá que a amiga lhe deixou ainda no início da história — um mangá em que Kyomoto imagina um futuro alternativo, onde Fujino nunca parte para ser artista profissional. O passado e o presente se tocam numa única página desenhada.

Look Back pinta a arte como sobrevivência (Cinecolor Films)

Eu sua crítica no IndieWire, David Ehrlich formulou essa tensão ao observar que o filme “cristaliza uma verdade que a maioria dos artistas só pode esperar aceitar por conta própria: criar coisas não é um desperdício de tempo nem uma forma de se isolar do mundo, mas a maneira mais bela de pertencer a ele.”

Todos os envolvidos na produção descreveram uma identificação direta com a história — o diretor Oshiyama disse ter “ressoado” com Fujimoto ao ler o mangá, e os produtores apontaram que o projeto foi realizado por um grupo pequeno de criadores qualificados, como reflexo intencional da visão do diretor. A paixão que Fujino e Kyomoto têm pelo ato de desenhar não é representação distante de algo externo — é a mesma paixão das mãos que animaram cada quadro.

O filme estreou no Festival de animação de Annecy, na França, em junho de 2024. Robbie Collin, do The Telegraph, deu ao filme cinco de cinco estrelas e comparou sua estrutura a um haiku: exato e, ao mesmo tempo, transbordante.

Em última instância, Look Back não nos diz que criar supera o luto, ou que a arte vence a morte, muito menos que o trabalho redime o sofrimento. Diz apenas que Fujino, ao final, volta à mesa de desenho. E que isso, para quem entende o que custa sentar diante de uma página em branco, é suficiente.


Onde assistir: Look Back está disponível no Prime Video, com dublagem em português e opção de legendas.


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