Crítica | A lógica perversa do desejo em ‘Obsessão’

Obsessão (2025), de Curry Barker, transforma uma premissa de comédia romântica em pesadelo, e expõe o não-consentimento como o verdadeiro motor do horror.


Obsessão (Obsession, EUA, 2025, 108 min) foi escrito, dirigido e editado por Curry Barker — um nome que, até dois anos atrás, era associado a esquetes de humor no YouTube. Barker foi inspirado a escrever o roteiro após assistir a um episódio de Os Simpsons em que Homer interage com a pata de um macaco (aquele objeto clássico que concede desejos mas cobra um preço). Desse ponto de partida aparentemente trivial, o diretor construiu um dos filmes de terror mais bem estruturados de 2026.

O filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF) em setembro de 2025, dentro do bloco Midnight Madness, que tem histórico de lançar obras radicais do gênero. A disputa pelos direitos foi acirrada: Focus Features venceu a concorrência com a Neon e a A24, adquirindo o filme por cerca de US$ 15 milhões. A Universal Pictures ficou responsável pela distribuição.

A tese central de Obsessão é a seguinte: o desejo não consentido não é romance. É violência em estado puro. Barker usa o sobrenatural não como metáfora, mas como mecanismo de externalização — o “Salgueiro dos Desejos” apenas torna visível aquilo que já existia na mente de Bear antes de ele quebrá-lo.

Bear (Michael Johnston) é um funcionário tímido e sensível de uma loja de música que não consegue reunir coragem para convidar sua colega de trabalho e amiga de infância, Nikki (Inde Navarrette), para sair. O roteiro estabelece esse estado de paralisia sentimental: Bear sabe exatamente o que quer, mas não consegue articular. Em vez de falar, ele compra.

Bear entra em uma loja de cristais esotéricos e adquire o “One Wish Willow”, um brinquedo antigo que promete conceder um único desejo ao ser quebrado. O ato de compra já diz tudo sobre o personagem: ele prefere um atalho, uma solução mágica ao risco da honestidade.

— Cena de Obsessão (Universal Pictures)

A caixa do brinquedo avisa que a maioria dos clientes reclama dos resultados — mas Bear quebra o objeto assim mesmo, num momento de impulso após deixar Nikki constrangida com uma tentativa de flerte mal resolvida, e deseja que ela o ame mais do que qualquer coisa no mundo. O pedido é atendido quase imediatamente. Nikki aparece na porta dele. E é aí que o filme começa de fato.

O que inicia como momentos triviais de casal vai escalando: lanches que se tornam suspeitos, portas coladas com fita, taças quebradas. Barker opera no registro do “slow burn” — cada cena seguinte é ligeiramente mais intensa que a anterior, sem que o espectador consiga identificar o exato momento em que cruzou a fronteira do confortável para o perturbador.

O diretor de fotografia Taylor Clemons trabalhou com Barker para “fotografar com composição centralizada e deixar espaço extra acima da cabeça dos personagens, porque ele queria que o enquadramento transmitisse solidão incômoda”. Essa escolha técnica tem consequências diretas na experiência do espectador: os personagens parecem sempre levemente pequenos dentro do quadro, dominados por um espaço que não controlam. É uma câmera que já sabe o que os personagens ainda não sabem.

A montagem dilata o tempo, obrigando o espectador a habitar o desconforto do silêncio e a antecipar o colapso iminente. O desenho de som preenche os vazios com frequências graves e ruídos que simulam o zumbido de uma mente em colapso. Rock Burwell assina a trilha sonora — sua estreia como compositor de longa-metragem — com um álbum de 18 faixas lançado na mesma data do filme.

— Cena de Obsessão (Universal Pictures)

O elemento mais perturbador de Obsessão não é o que Nikki faz. É o que Bear demora a ver. Os personagens ao redor, especialmente os amigos que observam de fora a relação distorcida entre Bear e Nikki, funcionam como um espelho lúcido para o espectador, reforçando aquilo que o roteiro não precisa dizer em voz alta: quem está dentro da situação raramente enxerga seus próprios excessos.

Barker distribui a responsabilidade moral com cuidado: Bear não é monstro, mas tampouco é inocente. Ele sabe que o desejo manipulou Nikki. Sabe desde o início. E continua.

Inde Navarrette domina a tela com uma performance intensa e cheia de camadas, transitando entre vulnerabilidade e inquietação de forma intensa e segura. Ela é totalmente crível como uma psicótica em colapso — e o mais incômodo é que as duas versões de Nikki parecem igualmente reais. Não há virada. Há uma degradação gradual que imita a lógica de relações de dependência emocional de verdade.

Ao colocar Nikki como a figura que perde o controle e se torna ameaçadora, o filme flerta com um território já bastante explorado no cinema: o da mulher perturbada como fonte do perigo. A leitura crítica mais honesta reconhece a tensão: Barker não constrói um discurso misógino — o contexto sobrenatural justifica a transformação dentro da lógica narrativa — mas a escolha ainda é a mais óbvia entre as disponíveis.

O filme teria sido mais subversivo se o peso psicológico da manipulação recaísse mais explicitamente sobre Bear, em vez de deslocar o horror visual quase inteiramente para Nikki.

— Cena de Obsessão (Universal Pictures)

Jason Blum entrou como produtor executivo sob o selo Blumhouse Productions antes da estreia no festival — o que sinaliza não apenas confiança comercial, mas também o alinhamento de Obsessão com a vertente mais autoral do terror norte-americano atual. O surgimento de Barker se encaixa numa linhagem clara: Jordan Peele com Corra!, Zach Cregger com Noites Brutais e A Hora do Mal, os irmãos Philippou com Fale Comigo — comediantes e criadores de formato curto que migram para o terror com uma vantagem inesperada: eles sabem como cronometrar uma reação. Sabem onde o silêncio tem mais peso do que o barulho.

Sintomaticamente, Obsessão é um filme sobre o que a cultura romântica normalizou. A “friend zone” como conceito, a ideia de que persistência equivale a afeto, a crença de que o amor pode ser conquistado por acumulação de tentativas — tudo isso está embutido no arco de Bear antes mesmo de ele quebrar o brinquedo.

O objeto mágico é apenas uma amplificação do que já existe. Barker está dizendo que o problema não é o “Salgueiro dos Desejos”: é a mentalidade que o faz funcionar.

Obsessão arrecadou US$ 23 milhões no mercado mundial em seus primeiros dias de circulação, um resultado expressivo para um filme feito com apenas US$ 1 milhão. A Focus já anunciou nova parceria com Barker para seu próximo projeto, Anything But Ghosts, e ele também está escalado para dirigir The Texas Chainsaw Massacre pela A24.

Obsessão é um filme que de terror eficiente justamente porque não aposta em monstros externos, cria apenas uma situação que o espectador reconheça, com um roteiro disposto a empurrar essa situação até o ponto em que o reconhecimento vira vergonha. Barker estreia no circuito sabendo exatamente o que está fazendo e já deixa sua marca.


Obsessão está em cartaz nos cinemas.


Gostou da notícia? O Cinema Guiado publica análises, artigos e curadoria sobre cinema todos os dias — com o olhar de quem enxerga além da história. Assine a newsletter e receba esse conteúdo no seu e-mail.

+ Assista à primeira aula grátis do curso Uma Luz no Fim do Filme e pare de perder 90% do que os filmes estão tentando te dizer.

Rolar para cima