terror focado na irmã da Cinderela tem 96% de aprovação no Rotten Tomatoes e chocou as plateias pelo mundo
Quando A Meia-Irmã Feia estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2025, os relatos eram de gente vomitando, abandonando a sala, cobrindo os olhos. O tipo de reação que normalmente acompanha filmes feitos para chocar. Acontece que o longa de estreia da diretora norueguesa Emilie Blichfeldt não é um exercício de provocação vazia, mas uma desconstrução brutal e estranhamente comovente do conto da Cinderela, filmada do ponto de vista de quem sempre ficou à margem.
O filme passou pelos cinemas brasileiros em outubro, acumulou 96% de aprovação no Rotten Tomatoes, entrou na shortlist do Oscar de Maquiagem e Cabelo, e agora chega à MUBI com duas horas de body horror, sátira inteligente e muito sangue.
A premissa é uma inversão elegante: em vez de acompanhar a donzela maltratada que conquista o príncipe, seguimos Elvira (Lea Myren), uma de suas meias-irmãs. Num reino onde beleza é moeda de troca e casamento real é a única rota de ascensão, Elvira é pressionada pela mãe Rebekka (Ane Dahl Torp) a seduzir o príncipe Julian.
O problema é Agnes (Thea Sofie Loch Næss), a meia-irmã deslumbrante que habita a mesma casa — e que, numa reviravolta narrativa, passa a ser chamada de Cinderela pela família após ser flagrada com um cocheiro.
O que se desenrola a partir daí é conto de fadas de terror com influências de Cronenberg, Argento e Julia Ducournau.

Blichfeldt desenvolveu o projeto enquanto cursava a Escola de Cinema Norueguesa. A ideia original envolvia uma mulher com uma vulva falante — detalhe que diz muito sobre o tipo de imaginação em jogo aqui. A guinada veio quando ela releu a versão dos Irmãos Grimm de Cinderela, especificamente a passagem em que uma das meias-irmãs corta os próprios dedos do pé para caber no sapatinho de cristal. A Disney omitiu esse detalhe. Blichfeldt o transformou no clímax do filme.
A diretora admite que não conhecia o gênero body horror até assistir Crash – Estranhos Prazeres de David Cronenberg em 2015. Daí mergulhou na filmografia do canadense, descobriu o giallo italiano através de Dario Argento e Lucio Fulci, e encontrou em Grave (2016) de Ducournau a confirmação de que terror corporal poderia ser veículo para comentário social.
A Meia-Irmã Feia é herdeira direta dessa linhagem — e as comparações com A Substância, de Coralie Fargeat, são inevitáveis. Ambos os filmes usam mutilação feminina como metáfora para as violências que padrões de beleza impõem aos corpos das mulheres.
A diferença é que Blichfeldt trabalha num registro mais próximo da fábula. Há humor aqui — ácido, desconfortável, mas genuíno. A fotografia de Marcel Zyskind alterna entre a saturação de cores de um filme de época estilizado (pense em Maria Antonieta de Sofia Coppola) e a claustrofobia visual do horror de arte dos anos 70.
A trilha sonora mistura clássico e sintético com uma irreverência que poderia descambar para ironia, mas não o faz.
O corpo como campo de batalha
Os efeitos práticos do filme são a razão pela qual ele entrou na shortlist do Oscar. A designer de maquiagem Anne Cathrine Sauerberg e o supervisor de efeitos especiais Kim Foldberg criaram próteses que transformam a atriz Lea Myren — 24 anos na vida real — numa adolescente desajeitada com aparelho dentário gigantesco, nariz torto e cabelo indisciplinado.
A partir daí, cada procedimento a que Elvira se submete para se tornar “bela” é filmado em close-ups implacáveis.
Há quebra de nariz. Há costura de cílios postiços diretamente na pálpebra. Há um cirurgião plástico primitivo movido a cocaína. E há a cena do cutelo — quando Elvira, num ato de desespero após o baile, decepa os próprios dedos para caber no sapatinho que Agnes deixou para trás. A sequência usa próteses de pé, pernas falsas e sistemas de bombeamento de sangue que Foldberg descreve como “extremamente complicados”.
O filme recusou usar CGI na maioria das cenas. O resultado é uma tangibilidade que torna o horror difícil de ignorar. Você sente a carne, os ossos, o sangue.
Lea Myren e a construção da antiprincesa
Myren carrega o filme com uma performance cheia de nuances. Elvira não é vilã no sentido tradicional — ela é uma adolescente insegura, desesperada por aprovação, criada numa sociedade que lhe ensinou que seu valor depende exclusivamente da aparência. Quando ela trata Agnes com crueldade, não é por maldade inata; é por ter internalizado as regras de um jogo que só permite uma vencedora.
A atriz transmite vergonha, ambição, autodepreciação e raiva em registros que se alternam por vezes numa mesma cena. Há um momento em que Elvira encontra o príncipe Julian na floresta — ele a ridiculariza, expõe-se como um mulherengo superficial — e ainda assim ela se agarra à fantasia de que ele é um homem bom. Myren faz você entender essa negação como necessidade de sobrevivência psíquica.
A comparação com Demi Moore em A Substância é pertinente: ambas as performances exigem vulnerabilidade física extrema a serviço de personagens cuja tragédia é acreditar nas mentiras que a sociedade conta sobre beleza e valor.
Uma das escolhas mais interessantes do filme é a caracterização de Agnes/Cinderela. Ela não é a donzela inocente da versão Disney. É uma jovem que faz sexo com o cocheiro, que manipula sua imagem de pureza, que entende perfeitamente as regras do jogo e as usa a seu favor. Quando a família a rebaixa ao status de serva e a apelidada de Cinderela, Agnes aceita a humilhação — mas como estratégia, não como destino.

Thea Sofie Loch Næss, conhecida de O Último Reino, interpreta Agnes com uma ambiguidade que impede qualquer leitura maniqueísta. Ela não é heroína nem vilã; é outra mulher tentando sobreviver num sistema que consome todas elas. O filme sugere que a rivalidade entre Elvira e Agnes é produto das estruturas que as cercam, não de naturezas opostas.
A Meia-Irmã Feia pertence a uma tradição que inclui Grave, Titane, A Substância — filmes de body horror dirigidos por mulheres que usam o gênero para interrogar as violências específicas que corpos femininos sofrem. Não é coincidência que esses filmes tenham surgido na última década, num momento em que a indústria da beleza se tornou mais agressiva, mais onipresente, mais invasiva.
Blichfeldt não é sutil. As metáforas estão na superfície: a tênia que Elvira engole para emagrecer; os procedimentos cirúrgicos que prometem transformação e entregam mutilação; a obsessão do príncipe por donzelas virgens enquanto ele próprio coleciona amantes.
Mas a falta de sutileza funciona aqui porque o filme não pretende ser alegoria elegante — pretende ser choque. E o choque, quando calibrado com precisão, pode revelar verdades que análises mais comedidas escondem.
Elvira é o que acontece quando a sociedade ensina às mulheres que seus corpos são projetos a serem corrigidos.
O horror de A Meia-Irmã Feia não está nos dedos decepados ou nos vermes vomitados, mas na constatação de que Elvira faz tudo isso por escolha própria — e que a "escolha" é ilusória quando as alternativas são inexistência social ou automutilação.
O filme entrou na shortlist de Maquiagem e Cabelo do Oscar 2026 ao lado de produções como Frankenstein de Guillermo del Toro, Wicked e Pecadores de Ryan Coogler. A categoria historicamente acolhe trabalhos ousados de gênero — A Substância venceu o ano passado — e A Meia-Irmã Feia tem credenciais técnicas incontestáveis. Se a indicação vier, será a primeira para um filme norueguês na categoria e uma validação significativa para o cinema independente europeu.
A Variety destacou que as distribuidoras do filme nos EUA conseguiram uma campanha notável para um terror estrangeiro de nicho. O trajeto de Sundance à shortlist do Oscar ilustra como o circuito de festivais pode catapultar filmes que, há uma década, jamais chegariam às mesas de premiações.
Por que assistir agora
Ao adquirir o título, a plataforma MUBI democratizou o acesso a um filme que dividiu plateias mas conquistou a crítica. Para quem tem estômago, A Meia-Irmã Feia oferece duas horas de cinema que não não ameniza, não pega leve. É um conto de fadas que lembra o que os Irmãos Grimm sempre souberam: essas histórias eram avisos, não fantasias.
Elvira é o que acontece quando uma sociedade ensina às mulheres que seus corpos são projetos a serem corrigidos, que sua aparência determina seu destino, que não há limite para o sacrifício exigido em nome da "beleza". O horror está menos no sangue — embora haja bastante — e mais na familiaridade. Conhecemos Elviras. Basta olhar ao nosso redor.
Emilie Blichfeldt estreia com um filme que não será esquecido. É nojento, é engraçado, é perturbador, é triste.
Assista abaixo ao trailer oficial de A Meia-Irmã Feia:
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP, mas foi morando na Hungria — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — que aprendeu a ler o que os filmes comunicam sem dizer. Em 2023, criou o Cinema Guiado, plataforma editorial independente dedicada à análise, curadoria e reflexão sobre cinema.

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