O filme norueguês que fez história em Cannes e se tornou o mais indicado da história de seu país já está disponível na MUBI (E vale cada minuto)
Com nove indicações ao Oscar 2026 (incluindo Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original e quatro indicações de atuação), o novo trabalho de Joachim Trier não apenas pulverizou todos os recordes noruegueses de reconhecimento da Academia: ele fez isso enquanto desafiava, com elegância, as próprias convenções narrativas do cinema contemporâneo.
O momento importa. Enquanto a temporada de premiações se aquece rumo à cerimônia de 15 de março, a disponibilização do longa no catálogo da MUBI transforma o que era um filme de difícil acesso em cinema de arte acessível. Para quem acompanha a trajetória de Trier desde Oslo, 31 de Agosto ou se rendeu à doçura melancólica de A Pior Pessoa do Mundo, este é o filme em que o diretor consolida seu status não apenas como um dos melhores cineastas em atividade, mas como um dos poucos capazes de transformar trauma familiar em experiência estética sem cair no melodrama.
Gustav Borg (Stellan Skarsgård), um cineasta em declínio, retorna à vida de suas filhas — Nora (Renate Reinsve), atriz de teatro atormentada por ansiedade paralisante, e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), historiadora que construiu uma vida familiar estável — com a intenção de fazer um filme autobiográfico sobre a casa onde cresceram. Quando Nora recusa o papel principal, Gustav contrata Rachel Kemp (Elle Fanning), uma estrela hollywoodiana que mal fala norueguês, criando uma triangulação emocional explosiva entre arte, ausência paterna e a impossibilidade de reparar o passado.
Mas reduzir Valor Sentimental a um drama familiar é como chamar Cidadão Kane de biografia de magnata. O que Trier e seu parceiro de longa data, o roteirista Eskil Vogt, construíram aqui é uma reflexão sobre como a arte tanto cura quanto fere — e sobre como o cinema, especificamente, pode ser usado como instrumento de manipulação afetiva ou como ponte para reconciliação. Gustav Borg não é simplesmente um pai ausente: ele é um artista que sempre colocou a câmera antes da paternidade, e agora quer transformar o próprio abandono em material narrativo. A pergunta que o filme não formula em voz alta, mas que pulsa em cada quadro: isso é arte ou oportunismo emocional?
Tecnicamente, Valor Sentimental é uma masterclass de contenção formal. O diretor de fotografia dinamarquês Kasper Tuxen — que já havia colaborado com Trier em A Pior Pessoa do Mundo — filmou em 35mm usando lentes Cooke 5/i, buscando o que ele descreve como “a pureza da face humana”. As cenas contemporâneas foram capturadas em Kodak 35mm, enquanto os flashbacks das décadas de 1920 e 1930 utilizam 16mm para criar uma textura de “memória”, onde cada frame parece carregado de história não dita. Não há filtros, não há truques digitais — apenas a química orgânica da película reagindo à luz nórdica.

O resultado é paradoxal: um filme que parece simultaneamente íntimo e monumental. Trier e Tuxen optaram por câmera fixa em tripé e movimentos de dolly clássicos, evitando a instabilidade da câmera na mão exceto em momentos pontuais de explosão emocional. É cinema de repouso, de observação paciente, que confia na mise-en-scène e na direção de atores para gerar tensão. Quando Nora enfrenta o pai em uma cena na casa familiar, a câmera permanece estática — mas você sente a mudança de cor em suas bochechas, a respiração acelerada, o colapso interno que Reinsve executa com precisão devastadora.
E aqui chegamos ao coração pulsante do filme: as performances. Stellan Skarsgård, que venceu o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante, constrói um Gustav Borg que oscila entre a megalomania bufante do artista narcisista e a vulnerabilidade desconcertante de um homem que genuinamente não entende por que suas filhas o odeiam. Não há vilania simples aqui — Gustav é patético e comovente em medidas iguais, um monstro que nunca quis ser monstro. Skarsgård joga cada cena em camadas múltiplas: você vê o pai, o cineasta, o sedutor, o manipulador e a criança ferida simultaneamente.
Renate Reinsve, indicada ao Oscar de Melhor Atriz, faz de Nora um estudo sobre como o talento artístico pode ser tanto dom quanto maldição quando herdado de um pai ausente. Sua cena de pânico de palco na abertura do filme — onde vemos uma atriz brilhante congelar completamente diante de uma plateia — é tão visceral que você desvia o olhar. Reinsve não está atuando ansiedade; ela está encarnando o colapso em tempo real. E quando ela finalmente confronta o pai sobre por que Agnes “sobreviveu intacta” à infância enquanto ela se despedaçou, a resposta de Agnes — “porque eu tinha você” — redefine toda a narrativa em uma frase.
Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas, ambas indicadas ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, completam o quarteto central com performances que funcionam como espelhos distorcidos. Fanning poderia ter feito de Rachel uma caricatura da estrela vazia, mas escolhe jogá-la como alguém genuinamente consciente de sua inadequação, uma outsider que observa a dinâmica familiar com fascínio e horror. Lilleaas é a revelação silenciosa — Agnes é o tipo de papel que atores odeiam porque exige presença sem pirotecnia, e ela o executa com uma dignidade serena que ancora todo o filme.

A trajetória do longa em festivais e premiações conta sua própria história. A estreia em Cannes resultou em 19 minutos de aplausos e o Grand Prix — o segundo maior prêmio do festival, perdendo apenas para a Palma de Ouro. No European Film Awards, Valor Sentimental varreu seis categorias principais, incluindo Melhor Filme, Diretor, Roteiro, Ator, Atriz e Trilha Sonora (composta pela polonesa Hania Rani, cuja música minimalista funciona como um personagem à parte). Com 97% de aprovação no Rotten Tomatoes e 87/100 no Metacritic, o consenso crítico é inequívoco: este é cinema maduro operando em altíssimo nível.
O que torna a disponibilização na MUBI particularmente relevante é o timing. A plataforma — conhecida por seu curadoria rigorosa de cinema de autor — oferece acesso ao filme enquanto ele ainda está nos cinemas, ampliando dramaticamente seu alcance. Para o público brasileiro, que viu O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho também ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, Valor Sentimental representa tanto competição quanto parceria: dois filmes que provam que cinema de alto nível ainda pode vir de qualquer lugar do planeta.
Joachim Trier, em entrevistas recentes, comparou seu filme aos dramas intimistas que os Estados Unidos produziam nos anos 1970 e 1980 — Kramer vs. Kramer, Gente Como a Gente, O Clube dos 5 —, histórias centradas em pessoas reais enfrentando dilemas emocionais complexos sem necessidade de artifícios. É uma comparação justa e reveladora: Valor Sentimental pertence a uma linhagem de cinema que Hollywood abandonou há décadas, mas que diretores como Trier mantêm vivos na Europa.
A questão central permanece: a arte pode reparar o que a vida quebrou? Trier não oferece respostas fáceis. O que ele oferece é um filme que trata espectadores como adultos emocionalmente maduros, capazes de navegar ambiguidades e contradições sem necessidade de uma resolução definitiva. É cinema que deposita confiança radical na audiência — e que recompensa essa confiança com uma experiência estética que fica na memória como uma lembrança de família.

Ficha Técnica
Valor Sentimental (2025)
Direção: Joachim Trier
Duração: 132 min
Gênero: Drama
Distribuição: MUBI
Onde Assistir: MUBI
Assista ao trailer do filme:
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP, mas foi morando na Hungria — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — que aprendeu a ler o que os filmes comunicam sem dizer. Em 2023, criou o Cinema Guiado, plataforma editorial independente dedicada à análise, curadoria e reflexão sobre cinema.


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