No thriller policial mexicano, dois agentes capturam El Chapo por acidente numa patrulha de rotina. O desafio é sobreviver ao que vem depois.
Um thriller policial mexicano baseado em eventos reais chegou à Netflix sem a campanha de pré-estreia habitual dos grandes lançamentos da plataforma. La Captura (2026), dirigido por Chava Cartas, reconstrói a recaptura de Joaquín “El Chapo” Guzmán em janeiro de 2016, mas o faz por um ângulo inusitado: o ponto de vista de dois policiais anônimos que tropeçaram no homem mais procurado do México durante uma patrulha de rotina.
O filme parte de um episódio documentado. Na madrugada de 8 de janeiro de 2016, fuzileiros navais da Secretaria de Marinha mexicana invadiram uma casa de segurança em Los Mochis, Sinaloa, onde El Chapo se escondia desde a fuga do presídio federal do Altiplano, seis meses antes. Um tiroteio se seguiu, cinco pistoleiros do cartel morreram, mas Guzmán conseguiu escapar pelo sistema de drenagem da cidade junto com seu chefe de segurança, apelidado de “Cholo Iván”. A dupla roubou um carro e tentou deixar a zona. Foi então que dois agentes da Polícia Federal, em patrulha de rotina, interceptaram o veículo com reporte de roubo, sem saber quem ocupava o banco de trás. Quando descobriram, a rotina virou pesadelo.
É esse pesadelo que La Captura (2026) transforma em 91 minutos de tensão. Carmona (Alfonso Herrera) e Rosales (Noé Hernández), os dois federais do filme, mal se conhecem quando precisam decidir o que fazer com o preso mais perigoso do país. Os nomes são ficcionais — a identidade real dos policiais permanece protegida por razões de segurança — e o roteiro de Bernardo Esquinca, baseado nos relatos jornalísticos de Héctor de Mauleón, ficcionaliza os eventos sem inventar: o dilema entre cumprir o dever e aceitar o suborno, a ameaça concreta de um resgate armado, a paranoia de não saber em quem confiar.
Carmona está prestes a ser pai de novo. Rosales carrega a experiência de quem conhece bem demais o terreno onde está pisando. A tensão entre os dois — frieza profissional que aos poucos cede a uma cumplicidade forjada no perigo — sustenta o filme mais do que qualquer perseguição.
É o segundo trabalho seguido de Chava Cartas para a Netflix em território de ação mexicana. Em 2025, o diretor entregou Contra-ataque (2025), sobre o confronto entre militares e criminosos, também com Noé Hernández no elenco e Beto Casillas na fotografia. La Captura (2026) mantém a parceria e refina a abordagem: em vez do embate armado como espetáculo, o filme aposta na espera, na dúvida e na ameaça que não precisa se concretizar para pesar. El Chapo (Héctor Kotsifakis) ocupa o banco de trás, literalmente e dramaticamente. A decisão de diminuí-lo no quadro, enquanto os policiais crescem, é a escolha mais interessante do filme.
O elenco tem Alfonso Herrera, que o público brasileiro conhece do grupo RBD e da telenovela Rebelde (2004–2006), e que construiu nos últimos anos uma carreira sólida fora do pop: foi o Padre Tomás em O Exorcista (2016–2017), Javi em Ozark (2022) e venceu o Prêmio Ariel de melhor ator por O Baile dos 41 (2020), considerado o Oscar do cinema mexicano. Noé Hernández vem de outra tradição. Filho de camponeses do estado de Hidalgo, professor de escola antes de ser ator, Hernández acumula quatro Ariéis na carreira — incluindo melhor ator por Ocho de Cada Diez e melhor coadjuvante por 600 Millas (2015) — e é presença constante no cinema mexicano que leva a sério o trabalho de composição.
A recepção, por enquanto, é positiva com ressalvas. O filme é recente demais para ter acumulado nota no Rotten Tomatoes ou no Metacritic, e o IMDb ainda não registra uma avaliação de público consolidada. As primeiras críticas publicadas reconhecem a eficiência do thriller e a escolha de foco, mas apontam que a primeira meia hora demora a engrenar e que os flashbacks interrompem o ritmo. Para quem aceita que a tensão mora na incerteza, o filme entrega.
O que observar: a maneira como Cartas e o fotógrafo Beto Casillas usam o espaço dentro do carro-patrulha como câmara de pressão. Grande parte do segundo ato acontece dentro ou ao redor do veículo, com enquadramentos fechados que comprimem os personagens e o espectador. Cada parada na estrada, cada carro que se aproxima, cada ligação pelo rádio vira uma ameaça em potencial. O suspense não depende de balas, depende da possibilidade. É cinema de gênero que confia nos seus recursos sem precisar exagerar.
La Captura (2026) não reinventa o thriller policial, mas acerta no ângulo e na economia. O melhor elogio que se pode fazer ao filme é o que ele não mostra: El Chapo como protagonista e a violência como espetáculo. O que mostra são dois sujeitos cansados, mal pagos, que simplesmente não se venderam. Num gênero que adora transformar criminosos em lendas, isso é muita coisa.
La Captura está disponível na Netflix
Confira o trailer dublado:

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