Refém por um fio de Gus Van Sant

História real sobre homem falido que sequestra executivo que o enganou chega aos cinemas

Refém por Um Fio: novo filme de Gus Van Sant é baseado em história real chocante e tem Bill Skarsgård e Al Pacino no elenco

Depois de sete anos sem lançar um longa de ficção nas salas de cinema, o diretor estadunidense Gus Van Sant volta com Refém por um Fio (2025), suspense baseado em caso real que estreia hoje nos cinemas brasileiros, com distribuição da Pandora Filmes. O filme foi exibido pela primeira vez no Festival de Veneza de 2025, fora de competição, e recebeu ovação de onze minutos ao fim da sessão, com o elenco puxando gritos de “Gus! Gus! Gus!” enquanto Van Sant, meio sem jeito, chegou a olhar o relógio. Chega ao Brasil quase um ano depois dessa estreia mundial.

O roteiro, assinado por Austin Kolodney, recria um episódio ocorrido em 8 de fevereiro de 1977, em Indianápolis. Tony Kiritsis (Bill Skarsgård), incorporador imobiliário arruinado, invade o escritório da Meridian Mortgage Company convencido de que a empresa o enganou num negócio de terras.

Ele procura o presidente, Richard Hall, para exigir explicações. Como Hall está de férias, Kiritsis leva o filho dele, Richard Hall Jr. (Dacre Montgomery), como refém, e amarra ao próprio pescoço uma espingarda de cano serrado por meio de um mecanismo chamado “dead man’s wire”: se ele for morto pela polícia, o gatilho dispara sozinho. As exigências são cinco milhões de dólares e um pedido de desculpas público. O impasse dura horas e é transmitido ao vivo pela televisão, o que transforma o sequestrador numa figura pública ambígua, quase folclórica.

Nascido em Louisville, Kentucky, em 1952, Van Sant é um dos autores mais reconhecíveis do cinema independente estadunidense, com uma filmografia interessada em personagens à margem: Garotos de Programa (1991), Gênio Indomável (1997), Elefante (2003), Paranoid Park (2007), Milk: A Voz da Igualdade (2008).

Seu último longa de ficção nos cinemas foi Não Se Preocupe, Ele Não Vai Longe a Pé (2018), com Joaquin Phoenix. Refém por um Fio (2025) marca o retorno à sala de cinema e, ao mesmo tempo, uma volta a território familiar do diretor, o do sujeito solitário em rota de colisão com uma engrenagem maior. A referência que a crítica internacional cita com mais frequência é Um Dia de Cão (1975), de Sidney Lumet, em que Al Pacino, hoje em papel pequeno neste filme, protagonizou outro sequestro real transmitido ao vivo. A aproximação foi assumida pelo próprio Van Sant em entrevistas.

No Rotten Tomatoes, Refém por um Fio (2025) tem 91% de aprovação sobre cento e setenta críticas, com consenso que elogia o humor ácido e a atuação de Skarsgård. No IMDb, a nota é 6,6 sobre uma base de espectadores ainda pequena. Não é unanimidade. Alistair Harkness, do escocês The Scotsman, escreveu que Van Sant não força o filme a ser mais do que ele é e ainda assim entrega um retrato triste e perturbador cuja relevância permanece intacta.

Já a crítica britânica do Midlands Movies observou que o resultado é sólido, mas previsível para quem já viu outros filmes sobre o mesmo tipo de sujeito acuado. É um retrato competente, elogiado sobretudo pelo desempenho central e pela reconstituição de época, com ressalvas quanto à ambição narrativa.

O ponto forte a acompanhar é Bill Skarsgård. O ator, mais conhecido pelo Pennywise de It: A Coisa (2017) e pelo protagonista de Nosferatu (2024), de Robert Eggers, constrói um Kiritsis instável e magnético, e sustenta o filme praticamente inteiro no rosto. Ao redor dele, a direção de fotografia de Arnaud Potier trabalha em 35mm e devolve à tela a textura granulada dos anos setenta, com boa parte das cenas filmadas do ponto de vista das câmeras dos jornalistas que cobrem o impasse.

A trilha de Danny Elfman se apoia em faixas do período, com Donna Summer e Gil Scott-Heron entrando em momentos-chave. Vale ainda observar o eco contemporâneo que Van Sant já discutiu em entrevistas: o filme foi rodado antes do assassinato do executivo Brian Thompson, da UnitedHealthcare, atribuído a Luigi Mangione, mas conversa diretamente com a figura do sujeito comum que enxerga na violência a última via de justiça diante de uma instituição.

O filme não pretende reinventar o subgênero do sequestro-espetáculo, e talvez seja mais interessante justamente por isso: Van Sant volta às salas com um projeto contido, encenado com precisão, sustentado por um ator em fase forte.

Refém por um Fio (2025) está em cartaz nos cinemas brasileiros.

Confira o trailer:

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