Morgan Freeman Um Sonho De Liberdade

A frase de ‘Um Sonho de Liberdade’ que criou uma das metáforas mais bonitas do cinema

O clássico Um Sonho de Liberdade, de Frank Darabont, tem várias falas inspiradoras e memoráveis, apesar de contar a história de um homem injustamente condenado que sofre abusos físicos e mentais na prisão. Mas existe uma tristeza de fundo em muitos personagens, e uma das falas mais fortes do filme é uma metáfora com um pássaro, entregue por Red (Morgan Freeman) bem no momento em que a história poderia ter deslizado para um final feliz, na euforia de uma fuga bem-sucedida.

Andy Dufresne (Tim Robbins) se foi. Ele cavou um túnel pela parede da cela em 1966 e deixou para trás um uniforme sujo de lama e uma picareta de pedra gasta até o cabo. Red continua lá dentro.

Vejamos como ele lida com isso.

A cena em questão

Depois que Andy escapa, ele deixa para trás muitos amigos queridos, incluindo Red. Ele vira uma lenda em Shawshank, lembrado pelos outros presos por seu humor e sua bondade. A vida segue. Vemos Red se ajustar à vida sem Andy, em cenas no refeitório e no trabalho no cemitério da prisão. Sua narração em voz over reflete sobre a amizade:

“Às vezes isso me deixa triste, porém… o Andy ter ido embora. Tenho que lembrar a mim mesmo que alguns pássaros não foram feitos para viver engaiolados. As penas deles são simplesmente brilhantes demais. E quando voam para longe, a parte de você que sabe que era um pecado prendê-los se alegra. Mas, ainda assim, o lugar onde você vive fica bem mais sombrio e vazio pela ausência deles. Acho que só sinto falta do meu amigo.”

Red ainda está na gaiola quando diz isso

Às vezes, esta fala é lembrada erroneamente como a narração final do filme, mas não é. Red a entrega logo depois da fuga, parado dentro de uma prisão que ele não tem motivo algum para acreditar que um dia deixará. Afinal, ele cumpre pena de prisão perpétua. A junta de condicional já o recusou várias vezes. (A narração final de fato do filme vem bem depois, num ônibus.)

A voz over, neste ponto da história, com Andy fora de cena, ganha ainda mais força. Um homem do lado de fora descrevendo um pássaro que fugiu da gaiola é apenas uma observação. Um homem que ainda está atrás dos muros dizendo isso é outra. Red está feliz por Andy, mas também devastado. Ele celebra e lamenta ao mesmo tempo.

Repare também na queda de tom no final. Depois de toda aquela linguagem poética, Red expõe o que sente de forma simples: “Acho que só sinto falta do meu amigo.” O discurso busca a poesia, e então ele admite o que estava realmente tentando dizer o tempo todo.

O diretor plantou o pássaro horas antes

Red não inventa a imagem do pássaro nesse momento. Darabont construiu essa imagem ao longo de todo o filme.

Brooks Hatlen, o velho bibliotecário, guarda um corvo chamado Jake no bolso do casaco. Ele o alimenta. Ele o criou. E quando Brooks finalmente consegue a condicional depois de décadas preso, ele leva Jake ao pátio e o solta antes de cruzar o portão sozinho. Depois, Brooks entra num mundo que não consegue suportar, e vemos o que acontece com uma criatura solta de uma gaiola que virou seu lar.

Depois vem a música. Quando Andy se tranca no escritório e faz Mozart ecoar pelo pátio, a narração de Red recorre de novo à imagem do pássaro.

“Foi como se um belo pássaro tivesse entrado voando na nossa gaiola sombria e feito aquelas paredes se dissolverem”, ele diz.

Então, quando Red afirma que alguns pássaros não foram feitos para viver engaiolados, já vimos um pássaro de verdade ser preso e solto, e já ouvimos Red comparar Andy a um pássaro antes.

Uma metáfora é uma recompensa

Roteiristas menores tratar metáforas como enfeite, um jeito de deixar a frase mais bonita no papel. Mas aqui não somos fãs de prosa florida, somos adeptos da utilidade, certo? E a metáfora que realmente diz algo, que rende uma recompensa emocional, é a que interessa.

Darabont trata essa imagem como plantio e colheita, estruturada como qualquer outra revelação do filme.

Para aprender essa técnica, experimente colocar a imagem na história primeiro em sua forma mais literal, onde ninguém a lê como simbolismo. Neste caso, é um pássaro no bolso de um prisioneiro. Depois, dê ao público outra versão, já como abstração, mas ainda reconhecível o bastante para fazer sentido — um pássaro, como a música, um lampejo de cor e vida iluminando um dia cinzento na prisão. Então, depois que o público já conviveu com essa imagem, entregue-a a um personagem sob pressão suficiente para que ele recorra a ela, e ela fará todo o sentido. Andy é o pássaro, sempre foi.

Quando fala isso, Red não está floreando. Ele usa a imagem mais próxima disponível para descrever o amigo, porque uma explicação direta exigiria dizer algo que ele ainda não consegue dizer. Quando um personagem recorre à linguagem figurada para evitar um sentimento, nós prestamos atenção. Isso também dá forma física à ideia mais discutida do filme, a de que a esperança é algo perigoso. Red passou o filme inteiro insistindo que a esperança não serve para nada lá dentro. Agora ele descreve um pássaro que escapou, e se alegra porque sabe que era um pecado prendê-lo.

Quem diz a fala importa

No papel, esse discurso poderia facilmente soar piegas. Um ator menor transformaria a fala num lugar-comum. Freeman entrega a fala com honestidade, e isso rende porque mostra o quanto Red, como personagem, amadureceu. Ele foi cínico e sem esperança o filme inteiro, mas agora está cru, emotivo, sentindo falta do amigo.

Darabont já falou sobre como Freeman precisou de pouquíssima direção no set, e já mostramos o que essa parceria ensinou a ele sobre dirigir. Freeman narrava um filme pela primeira vez na carreira. Não é de embasbacar?

Por fim, a lição que fica é esta: metáfora é uma ferramenta útil, mas se você a entrega ao personagem errado, ela pode não alçar voo.

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