Do poema grego ao Ciclope de Christopher Nolan, a viagem de Ulisses explica por que certas histórias nunca envelhecem.
Há quase três mil anos, um poeta chamado Homero (ou um conjunto de vozes reunidas sob esse nome) começou a contar a história de um homem que só queria voltar para casa. Em 2026, essa mesma história volta aos cinemas pelas mãos de Christopher Nolan, com um orçamento de 250 milhões de dólares e uma tecnologia de câmera que nenhum outro diretor usou antes dele. Entre um extremo e outro, A Odisseia nunca ficou muito tempo sem ser recontada. A pergunta que interessa não é se ela vai continuar viva. É por quê.
E a resposta não está nas aventuras, mas nos problemas que as aventuras escondem. Vamos recapitular para quem ainda não conhece a história. Ulisses passa vinte anos fora de Ítaca, entre a guerra e o mar, e quando finalmente chega em casa, o poema levanta questionamentos sobre se ele ainda pertence ao lugar que deixou. Esse é uma questão que não termina. Muda a guerra, muda o mar, muda o século, mas o homem que volta mudado, como fica?
Existe também uma questão de arquitetura. A Odisseia é feita de episódios soltos, amarrados apenas pela viagem. Cada geração pode recortar o pedaço que quiser sem trair o resto. Circe, por exemplo, vira metáfora de tentação. O Ciclope vira metáfora de força bruta contra inteligência. As Sereias viram metáfora de qualquer promessa que termina em naufrágio. Penélope tecendo e destecendo a mesma peça de pano segue sendo a imagem mais precisa que a literatura ocidental já produziu para a espera. Essa modularidade da história é o que permite que versões tão diferentes partam do mesmo material sem nunca se repetir.
E há o próprio Ulisses, que cativa justamente por não ser perfeito. Ele mente, hesita, cede à vaidade, erra o momento de calar diante do Ciclope e paga caro por isso. Um herói perfeito envelhece rápido. Um herói errático continua interessante depois de três milênios, porque o erro é a parte da história que cada época pode reescrever à sua imagem.
O cinema e a literatura já testaram várias chaves para essa mesma fechadura. Ulysses, de 1954, foi a primeira adaptação em longa-metragem da Odisseia, com Kirk Douglas no papel do herói grego. Em 2000, os irmãos Coen pegaram a estrutura da viagem e a plantaram no Sul dos Estados Unidos durante a Depressão, em E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? James Joyce fez o caminho oposto ainda em 1922: comprimiu a jornada inteira num único dia em Dublin, no romance Ulysses. Mais recentemente, O Retorno, de 2024, com Ralph Fiennes e Juliette Binoche, escolheu contar só o fim, o reencontro entre Ulisses e Penélope, como se a viagem toda coubesse num só olhar entre dois rostos que envelheceram esperando.
O capítulo mais recente dessa lista chega aos cinemas com Nolan escalando Matt Damon como Ulisses e Anne Hathaway como Penélope, ao lado de Tom Holland, Robert Pattinson, Zendaya e Charlize Theron, num filme rodado inteiramente em câmeras IMAX de 70 milímetros e com a proposta declarada de tratar a mitologia grega com um rigor visual que poucos diretores tentaram antes.
Ainda não se sabe o quanto o filme vai se afastar ou se aproximar do poema. Mas a escolha confirma algo que a Odisseia já vinha provando havia séculos: ela aceita qualquer formato, qualquer época, qualquer ponto de vista, contanto que alguém ainda se interesse pelo que significa voltar para casa depois de inúmeras desventuras.
Talvez seja esse o motivo real por trás de tanta reinvenção. Histórias envelhecem quando param de fazer perguntas. A Odisseia continua fazendo a mesma há quase três mil anos, para gregos antigos, para os irmãos Coen, para um escritor irlandês trancado num quarto em Trieste, e agora para um diretor com acesso a uma frota de câmeras ultra-modernas.
Enquanto existir gente interessada em aventura, vai existir motivo para contar essa história de novo.
A Odisseia chega aos cinemas brasileiros em 17 de julho. Confira o trailer mais recente abaixo.
Confira o trailer de A Odisseia:
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