Em Pacifiction, um alto comissário francês tenta manter a ordem no Taiti enquanto um boato sobre um submarino que ameaça explodir a ilha se espalha rapidamente.
O desconhecido filme Pacifiction (sem tradução no Brasil) entrou na assinatura do Prime Video no Brasil sem alarde nenhum. É triste para um filme que levou dois prêmios César, o equivalente francês do Oscar, e ainda concorreu à Palma de Ouro em Cannes.
O drama francês se passa no Taiti, na Polinésia Francesa, num presente indefinido e sufocante que envolve um submarino misterioso. De Roller (Benoît Magimel) é o alto comissário da República, o representante máximo do governo francês na ilha. Homem de modos impecáveis e cálculo frio, ele divide os dias entre reuniões oficiais e incursões pelos bares mais obscuros da cidade, sempre atento à tensão crescente entre as autoridades francesas e a população local. Sua missão parece simples: manter a paz. Na prática, ele precisa investigar um boato que corre solto pela ilha, o avistamento de um submarino que pode anunciar o retorno dos testes nucleares franceses na região.
No papel, é um thriller de espionagem sobre segredos de Estado. Na tela, De Roller passa boa parte do tempo cercado por gente que nunca revela por completo suas intenções: um almirante que aparece e desaparece sem explicação, um grupo de estrangeiros de origem incerta e Shannah (Pahoa Mahagafanau), presença constante nas noites do alto comissário. A paranoia cresce aos poucos, sem um único ponto de virada. É antes um acúmulo de detalhes incômodos, rumor emendado em rumor, até que a hipótese de uma catástrofe nuclear deixa de soar absurda.
O tom é hipnótico e deliberadamente lento. As conversas se estendem além do que pareceria necessário, os pores do sol ocupam cenas inteiras, e a linha entre vigília e sonho quase desaparece. É esse ritmo arrastado, mais do que qualquer reviravolta, que sustenta boa parte da tensão do filme, quase três horas de duração que pedem paciência antes de recompensar.
Albert Serra, diretor catalão conhecido por obras como A Morte de Luís XIV e Liberté, encontrou aqui, segundo boa parte da crítica especializada, seu trabalho de alcance mais amplo até hoje, mesmo com quase três horas de duração e um ritmo pouco convencional. Pacifiction concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2022 e levou o Prêmio César de Melhor Ator, para Benoît Magimel, e de Melhor Fotografia, para Artur Tort. Também venceu o Prêmio Louis Delluc daquele ano e foi eleito filme do ano pela revista Cahiers du Cinéma. No Rotten Tomatoes, soma cerca de 87% de aprovação em mais de 70 críticas. Nos cinemas brasileiros, a passagem foi discreta, restrita a salas de circuito de arte.
O que fica de Pacifiction não é o mistério do submarino, que o filme nunca resolve por completo, mas o retrato de um poder que se sustenta na aparência de controle, mesmo quando já não controla mais nada. Pacifiction está disponível no Prime Video, sem custo adicional para quem já é assinante.
Confira abaixo o trailer do filme:
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