De um presidente em crise filmado por Sorrentino ao road movie de Wim Wenders restaurado em 4K, cinco estreias recentes no catálogo da MUBI que você vai querer ver.
A MUBI é uma plataforma de streaming diferente, que funciona na base da curadoria meticulosa. Em vez de empilhar milhares de títulos, a plataforma seleciona poucos filmes por mês e renova a seleção com frequência, alternando clássicos restaurados e estreias que chegam direto dos grandes festivais. A última semana trouxe um lote especialmente bom.
Reunimos aqui cinco que entraram há pouco no catálogo. Quase todos têm um personagem tentando escapar do próprio passado, de um presidente encarando sua própria consciência a um gângster que só queria se aposentar. Tem também um vencedor do Festival de Veneza de 2025, uma Palma de Ouro dos anos 1980 e um thriller sul-coreano de violência pesada.
A ordem aqui vai do mais recente ao mais antigo.
5.
A Graça (2025)

O drama italiano A Graça (La Grazia) abre a lista como o mais novo do grupo. É o sétimo encontro entre o diretor Paolo Sorrentino e o ator Toni Servillo, parceria que já rendeu A Grande Beleza e A Mão de Deus.
Servillo é Mariano De Santis, presidente fictício da Itália nos últimos seis meses de mandato. Viúvo e católico, ele precisa decidir sobre dois pedidos de indulto e sobre a sanção de uma lei de eutanásia. A filha e conselheira, Dorotea (Anna Ferzetti), pressiona de um lado; sua própria consciência, do outro.
O filme abriu o Festival de Veneza de 2025 e concorreu ao Leão de Ouro. Servillo saiu de lá com a Coppa Volpi de Melhor Ator.
4.
Até os Ossos (2022)

Até os Ossos (Bones and All) é o road movie do italiano Luca Guadagnino, o mesmo de Me Chame pelo Seu Nome. A produção é dos Estados Unidos e da Itália.
Maren (Taylor Russell) é uma jovem que carrega um segredo pesado: sente atração por carne humana. Abandonada pela mãe, ela cruza os Estados Unidos da era Reagan atrás do pai que nunca conheceu e encontra Lee (Timothée Chalamet), um andarilho que vive a mesma condição. O primeiro amor dos dois acontece na estrada, entre cidades pequenas e paradas de beira de pista.
Guadagnino transforma o canibalismo em metáfora do desejo e da exclusão. O filme levou o Leão de Prata de Melhor Direção em Veneza, em 2022, e Taylor Russell ganhou o prêmio Marcello Mastroianni.
3.
Eu Vi o Diabo (2010)

O thriller sul-coreano Eu Vi o Diabo (I Saw the Devil) é o filme mais violento da seleção, e o diretor Kim Jee-woon sabe exatamente o que faz com isso.
Lee Byung-hun vive um agente secreto cuja noiva grávida é assassinada por um serial killer. Em vez de matar o culpado, Kyung-chul (Choi Min-sik, de Oldboy), ele decide capturá-lo, espancá-lo e soltá-lo, de novo e de novo, para prolongar a vingança. A caçada vai corroendo os dois lados.
Choi Min-sik constrói um dos vilões mais assustadores do cinema coreano, e o roteiro de Park Hoon-jung usa a violência para fazer uma pergunta incômoda sobre até onde a vingança compensa.
2.
O Pagamento Final (1993)

O policial O Pagamento Final (Carlito’s Way) reuniu Brian De Palma e Al Pacino dez anos depois de Scarface, e o resultado figura entre os trabalhos mais elogiados dos dois.
Pacino é Carlito Brigante, um ex-traficante que sai da prisão graças a uma manobra do advogado David Kleinfeld (Sean Penn). Decidido a se afastar do crime, ele junta dinheiro para se mudar para as Bahamas e reatar com a antiga namorada, Gail (Penelope Ann Miller). O passado, porém, vem cobrar suas dívidas.
O roteiro é de David Koepp, a partir dos romances de Edwin Torres. Sean Penn e Penelope Ann Miller foram indicados ao Globo de Ouro de 1994. O elenco ainda traz John Leguizamo e Viggo Mortensen.
1.
Paris, Texas (1984)

Fecha a lista o road movie Paris, Texas, do alemão Wim Wenders, um dos nomes centrais do Novo Cinema Alemão. O filme é uma coprodução de Alemanha Ocidental, França e Reino Unido, rodada no sudoeste dos Estados Unidos.
Travis (Harry Dean Stanton) reaparece andando pelo deserto do Texas, mudo e sem memória, anos depois de sumir. O irmão, Walt (Dean Stockwell), vem buscá-lo e o reaproxima do filho pequeno, Hunter. Aos poucos, Travis decide procurar a mulher que deixou para trás, Jane (Nastassja Kinski).
A fotografia é de Robby Müller, a trilha é de Ry Cooder e o roteiro saiu das mãos do dramaturgo Sam Shepard. Paris, Texas ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 1984. Chegou à MUBI numa restauração em 4K.
Cinco filmes, cinco maneiras de lidar com o que ficou para trás. A MUBI reuniu, no mesmo período, um vencedor recente de Veneza, um clássico restaurado de Cannes e títulos que passaram meio escondidos por aqui, como o policial de De Palma e o thriller de Kim Jee-woon.
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Formada em Sociologia, Maisa Gebara exerce a função de redatora no site do Cinema Guiado desde 2025.
