Com US$ 5 milhões de orçamento e aclamação da crítica, O Predestinado revelou Sarah Snook antes que Succession existisse com história de viagem no tempo.
O Predestinado (2014) faturou US$ 5,4 milhões no mundo inteiro. O orçamento era de US$ 5 milhões. Isso significa que, comercialmente, o filme dos irmãos Michael e Peter Spierig quase empatou com os próprios custos e evaporou do circuito antes que a maioria das pessoas soubesse que existia. Hoje, o longa acumula 84% de aprovação no Rotten Tomatoes (97 críticas profissionais) e 7,4 no IMDb, com mais de 330 mil votos. São números de um filme que construiu reputação fora da bilheteria, aos poucos, entre espectadores que tropeçaram nele por acaso e saíram recomendando para qualquer um que topasse ouvir.
A premissa cabe numa frase: um agente temporal (Ethan Hawke) aceita a última missão da carreira. Precisa viajar no tempo para impedir um atentado em Nova York em 1975 e capturar um terrorista que o persegue há anos. Até aqui, parece um procedural de ficção científica com cronômetro na tela. Mas a primeira cena joga o espectador no meio de uma operação já em andamento, sem apresentação e sem contexto, e o roteiro se recusa a voltar atrás para oferecer qualquer resumo confortável. A missão existe. O agente existe. O resto, o filme obriga a montar por conta própria.
Disfarçado de barman, o personagem de Hawke ouve a confissão de uma pessoa misteriosa (Sarah Snook) que garante ter a história mais extraordinária que alguém já contou. Essa conversa ocupa boa parte da duração. É longa, pausada, cheia de desvios que parecem autobiográficos demais para importar na trama principal. Cada detalhe plantado ali, porém, vai explodir mais adiante. O roteiro trata essa conversa como uma bomba-relógio emocional: quando o espectador percebe para onde tudo apontava, a narrativa já se fechou sobre ele.
No papel, O Predestinado se apresenta como um thriller temporal com alvo definido e vilão a capturar. Na tela, opera uma inversão: a missão vira pretexto, o vilão se dissolve, e o que resta é uma investigação sobre identidade e determinismo que usa a ficção científica como ferramenta, e nunca como decoração. O roteiro dos Spierig adapta o conto “All You Zombies” (1959), de Robert A. Heinlein, um dos textos mais intrincados já escritos sobre paradoxos temporais. A adaptação preserva o mecanismo central do conto (um loop causal fechado em si mesmo) e expande com camadas visuais e dramáticas que a literatura, pelo formato curto, comprimia. O resultado é um filme que recompensa a revisita: a primeira sessão entrega surpresa, a segunda revela a engenharia.
Sarah Snook (anos antes de virar Siobhan Roy em Succession, de 2018) sustenta O Predestinado com uma composição que exige mudanças de registro físico e emocional constantes ao longo dos 97 minutos. O consenso crítico do Rotten Tomatoes usou a expressão “starmaking turn” para descrever o trabalho dela aqui, e o termo faz sentido: a câmera confia no rosto de Snook para comunicar o que o roteiro escolhe calar, e ela entrega. Hawke, por sua vez, trabalha na contenção. Seu agente é alguém cansado de saber demais, e Hawke traduz esse peso em gestos econômicos (olhares que duram um quadro a mais, pausas que precedem a fala). É uma performance que cresce na segunda vez.
Michael e Peter Spierig são cineastas australianos que chegaram ao radar com 2019 – O Ano da Extinção (2009), filme de vampiros com Willem Dafoe que dividiu a crítica, mas provou que a dupla sabia construir mundos com orçamento apertado. Em O Predestinado, essa capacidade aparece concentrada: US$ 5 milhões renderam uma ficção científica que compete em ambição narrativa com produções de orçamento dez vezes maior. A direção evita efeitos visuais vistosos e aposta na montagem e no desenho de som para marcar as transições temporais. É ficção científica que confia mais na estrutura do que na tecnologia da imagem (e que, ironicamente, envelhece melhor por causa disso).
O Predestinado é um filme que castiga a distração e recompensa quem presta atenção. O paradoxo temporal se fecha com rigor suficiente para provocar a vontade de voltar ao começo e verificar cada pista. É ficção científica feita de perguntas que o gênero costuma contornar: o que acontece quando causa e efeito ocupam o mesmo corpo?
O Predestinado está disponível na Netflix.
Confira o trailer:

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