Em Coringa, Todd Phillips filma a mesma escada duas vezes, com decupagens opostas, para que o espaço marque a virada do personagem.
Coringa (2019), do diretor Todd Phillips, é um drama psicológico estadunidense sobre Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um palhaço e comediante frustrado que mora com a mãe em Gotham e vai, cena a cena, se transformando no vilão que dá nome ao filme.
A história é conhecida. O que Phillips faz com ela, nem tanto. Ele deposita o arco inteiro do personagem numa escada de concreto do bairro de Highbridge, no Bronx, entre a Anderson Avenue e a Shakespeare Avenue. Arthur sobe curvado, desce dançando, e a metáfora visual pode ser vista na diferença entre as duas decupagens.
Escada é uma das imagens mais usadas do cinema. Faz parte da gramática visual desde antes do som. E, quando funciona como metáfora, quase sempre funciona da mesma forma: subir é esforço, descer é queda.
Rocky Balboa sobe os degraus do Museu de Arte da Filadélfia em Rocky, Um Lutador (1976), ergue os braços, e o gesto vira ícone de superação. Em O Encouraçado Potemkin (1925), o diretor Sergei Eisenstein filma a descida sangrenta da escadaria de Odessa como massacre em cascata. Em Um Corpo que Cai (1958), Alfred Hitchcock usa a escada em espiral para desenhar a obsessão como vertigem.
A convenção é tão sólida que virou moral automática. Subida é virtude, luta, ascensão. Descida é derrota, ruína, queda. Quem assiste aprende isso sem que ninguém precise explicar.
O que Todd Phillips fez em Coringa é inverter a moral, sem trocar a imagem.
A subida, filmada como peso
Arthur mora no alto do morro. Highbridge, bairro real do Bronx onde o filme locou, é um bairro pobre e literalmente elevado em relação à cidade abaixo. Para chegar em Gotham, no trabalho, no metrô, no consultório da assistente social, no programa do Murray Franklin, Arthur precisa descer aquela escada. Para voltar para casa, precisa subir.
O filme mostra a subida algumas vezes na primeira metade. E as escolhas de câmera são coerentes entre si.
O diretor de fotografia Lawrence Sher explicou o método em entrevista à Far Out Magazine: as tomadas iniciais em que Arthur sobe são metodicamente lentas, tanto no ritmo da caminhada quanto no da câmera, e o plano no topo da escada é estático, sem movimento algum. A câmera está fixa. Arthur é filmado de baixo ou de trás, curvado, arrastando o corpo depois de mais uma jornada de humilhação. Cada degrau vira o próprio esforço de continuar sendo Arthur Fleck.
A escada, nesses primeiros momentos, é obstáculo. É a linha entre a cidade que o gasta e o cubículo onde ele finalmente descansa. Subir é o preço de tentar pertencer.
A descida, filmada como libertação
E aí, a virada. A caminho do programa de Murray Franklin, com o rosto pintado, o cabelo verde e o terno vermelho, Phillips volta à mesma escada. Só que agora a câmera desce junto.
Sher contou que, para essa cena, a equipe montou um guindaste que se movia com Arthur, para frente e para trás. A trilha é “Rock and Roll Part 2”, de Gary Glitter. Arthur sacode o quadril, abre os braços, gira no ar, chuta a perna. O terno vermelho brilha contra o cinza do corrimão. Ele desce como quem finalmente aprendeu a andar.
E é aqui que a metáfora fecha. A mesma escada, o mesmo homem, o mesmo bairro. O que muda é a direção e o peso. Phillips filma a queda moral como alívio físico. O que devia ser o fundo é onde Arthur finalmente respira.
Sobre a cena, Todd Phillips disse à Empire que só quando Arthur finalmente vira o Coringa é que ele fica completamente livre, e que a dança na escada é a culminação dessa libertação. A palavra que ele usa é livre. Não vitorioso, não vingado. Livre.
Por que a inversão é tão boa
Funciona porque Phillips não abandona a convenção. Ele a usa contra si mesma.
Se a descida fosse filmada como queda tradicional, com câmera parada no topo, plano longo e música dramática, quem assiste leria como o esperado: Arthur despencou. Como Phillips filma a descida com câmera que o acompanha, música pop dançante e corpo leve, quem assiste é obrigado a reorganizar o próprio sentimento. O que a gramática do cinema ensinou a ver como queda, a encenação insiste em mostrar como voo.
Esse conflito entre o que a imagem faria por convenção e o que a cena faz por escolha é o mecanismo da metáfora visual. Ela não fala. Ela força quem assiste a sentir uma contradição e a resolver essa contradição por conta própria.
E tem uma segunda camada, geográfica, que aprofunda a leitura. Arthur não desce apenas moralmente. Ele desce para invadir a cidade que o rejeitou. A escada, no mapa real do Bronx, é a fronteira entre o bairro pobre e elevado onde ele mora e a Gotham abaixo, que o cospe todo dia. Descer como Coringa é geografia militar. É atravessar o limite armado.
Outros diretores teriam anunciado essa passagem com um letreiro, uma voz em off, um flashback rápido da subida do início. Phillips filmou duas vezes a mesma escada, em direções opostas, e deixou o espaço fazer o trabalho.
A cena que demonstra isso com maior impacto
A cena-ápice é a descida em si, e ela não dura muito mais que um minuto. Vale destrinchar.
Começa no topo, com Arthur em plano médio, quadro fechado. Ele encara a escada, se ajeita, começa a dançar. Nos primeiros passos, ainda está no degrau de cima, girando o corpo. A câmera está no nível dele. Aos poucos, ele começa a descer, e o guindaste desce junto, mantendo Arthur no eixo do quadro. Não há corte. O plano se estende, respira, deixa Arthur ocupar o centro do enquadramento por longos segundos.
A luz é natural, cinza de fim de tarde de outono. O terno vermelho e o cabelo verde são as únicas cores saturadas do plano. Tudo em volta é concreto molhado, corrimão de metal, muros pichados. Arthur não olha para a câmera. Ele dança para si mesmo.
Quando dois detetives aparecem no topo e começam a persegui-lo, a magia se quebra na hora. O plano-sequência da dança acaba, o filme volta ao ritmo do thriller. Mas o que ficou já ficou. Aqueles cinquenta segundos em que a câmera acompanhou Arthur descendo são o momento em que o filme troca de lado. E a escada, que até ali tinha sido só percurso de trabalho, deixa de ser cimento e vira o próprio corpo do personagem.
O que Todd Phillips descobriu
Phillips percebeu que a escada não serve para medir esforço. Serve para medir moralidade.
E, quando o filme quer contar uma história em que a moralidade se inverte, basta inverter a direção da caminhada. O gesto formal virou o gesto temático. A metáfora visual, aqui, não é uma imagem colada sobre uma ideia. É a mesma imagem, filmada duas vezes, funcionando como termômetro de duas versões da mesma pessoa.
É por isso que a escada do Bronx virou ponto turístico depois do filme, com fãs indo até 1170 Shakespeare Avenue para refazer a dança de Arthur. Não é só pela cena. É porque, uma vez que Phillips ensinou a olhar aquele lance de degraus daquele jeito, ele deixou de ser lance de degraus.
Toda escada, em qualquer filme, agora carrega um pouco daquela.

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