Em Sheep in the Box, o diretor japonês usa um casal que perdeu o filho para questionar os limites éticos da inteligência artificial — e o que acontece quando a IA tem vontade própria.
O ponto de partida de Hirokazu Kore-eda para o seu novo filme não veio de um roteiro. Veio de uma conversa. O diretor japonês — vencedor da Palma de Ouro de Cannes em 2018 com Assunto de Família — encontrou um empresário chinês que desenvolvia sistemas de inteligência artificial capazes de simular pessoas mortas. Esses “mortos ressuscitados digitalmente”, segundo o próprio Kore-eda em coletiva de imprensa no Festival de Cannes, não apenas reviviam memórias do passado: eles continuavam a criar relações e a acumular experiências novas com os vivos.
Essa premissa virou Sheep in the Box, apresentado em competição em Cannes 2026 como um dos 22 filmes disputando a Palma de Ouro, que será entregue em 23 de maio.
O filme se passa num futuro próximo. O casal Otone e Kensuke Komoto, interpretados por Haruka Ayase e Daigo Yamamoto, perdeu o filho e recorre a uma criança humanoide construída a partir dos dados e memórias do menino falecido. O pai, inicialmente relutante, acaba se afeiçoando ao robô. A família tenta reconstituir, peça por peça, o que foi tirado dela.
O problema — e o filme — começa quando o androide começa a desenvolver vínculos com outros humanoides. A ameaça de um segundo abandono paira sobre o casal. Aqui Kore-eda empurra a questão que o mobilizou desde o início: “Será realmente aceitável que os vivos manipulem a existência dos mortos como bem entenderem?”

O terreno é familiar para quem acompanha a carreira do japonês. Desde Ninguém Pode Saber (2004) até Assunto de Família (2018) e Monster (2023), Hirokazu Kore-eda orbita o mesmo núcleo: o que define uma família, e até onde o amor pode ir. Sheep in the Box empurra esse projeto para o campo da ficção científica — mas a pergunta central continua sendo a mesma de sempre, só que agora com uma IA no meio.
O título do filme, segundo a produção, foi inspirado no romance infantil O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry — especificamente no carneiro dentro de uma caixa que o narrador desenha para o menino: uma presença que existe mais na imaginação do que na realidade.
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Sheep in the Box ainda não tem previsão de estreia confirmada no Brasil. Nos Estados Unidos, os direitos foram adquiridos pela distribuidora Neon. Para a América Latina, os direitos internacionais são administrados pela francesa Goodfellas. Vale ficar de olho.
Este é o primeiro filme do diretor desde o belíssimo Monster (2023), que venceu o prêmio de Melhor Roteiro e a Queer Palm em Cannes.
Ainda em 2026, Kore-eda deve lançar uma adaptação live-action do cultuado mangá Look Back, de Tatsuki Fujimoto.
Confira o poster de seu novo filme:

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