Vince Gilligan construiu sua carreira em cima de personagens que cruzam linhas morais. Carol Sturka não seria exceção.
[Aviso: O texto a seguir contém spoilers do episódio 9 de Pluribus, “La Chica o El Mundo” — o episódio final da 1ª temporada.]
Existe uma cena no final da primeira temporada de Pluribus, disponível na Apple TV+, que vai te perseguir por mais tempo do que deveria. Não estou falando da bomba atômica. Nem da revelação sobre os óvulos congelados de Carol. Mas sobre um filhotinho de cabrito.
Kusimayu, a jovem peruana que conhecemos brevemente no segundo episódio, finalmente recebe o que pediu: a chance de se juntar à mente coletiva. Ela passa por um ritual, inala um vapor de um recipiente metálico, convulsiona, e quando levanta — está feliz. Transformada.
E então ela abandona a pequena cabra.
Não com crueldade ou indiferença, ela simplesmente deixa o portão aberto e vai embora. A cabra que ela acariciava segundos antes não significa mais nada pra ela. Simplesmente por que ela não é mais um indivíduo. Onde havia amor localizado, agora existe apenas uma espécie de compaixão generalizada. Algo essencial se perdeu, e nós sentimos essa ausência com uma intensidade que nenhuma violência explícita poderia gerar.
Vince Gilligan sempre soube que detalhes sutis carregam mais peso dramático e significado narrativo do que grandes gestos. Em Breaking Bad, era uma mosca presa no laboratório. Em Better Call Saul, eram as canecas de café. Em Pluribus, uma pequena cabra abandonada.
O dilema impossível
“La Chica o El Mundo” — o título do episódio — coloca Carol diante de uma escolha que só parece simples. Ficar com sua garota ou salvar o mundo. Zosia ou a humanidade. O amor que finalmente encontrou ou a chance de reverter tudo.
Carol passou a temporada inteira sendo a pessoa mais miserável do planeta. Não por falta de mérito — descobrimos que ela foi enviada para um campo de conversão para adolescentes gays aos 16 anos. Sua desconfiança patológica, sua recusa em aceitar a felicidade alheia como genuína, sua individualidade feroz: tudo isso tem origem em algum lugar.
Quando ela diz a Zosia que os sorrisos perpétuos dos “Outros” a lembram dos conselheiros daquele campo, entendemos perfeitamente.
E então, pela primeira vez, Carol é feliz. Genuinamente feliz. Zosia e ela viajam pelo mundo como um casal em lua de mel. Spas luxuosos, estações de esqui, chalés aconchegantes. A mulher que “nasceu para ser miserável” finalmente descobre que consegue simplesmente aproveitar a vida sem esperar que tudo dê errado.
É cruel demais que esse seja exatamente o momento em que ela recebe um golpe devastador.

A traição genética
A mente coletiva confirma que encontrou os óvulos que Carol congelou em 2011. Estão trabalhado para conseguir suas células-tronco e desenvolver uma cepa do vírus especificamente pra ela. O que leva à pergunta: quanto tempo ela tem até o “Dia D”, o fatídico dia da “assimilação”? Que seria mais justo chamar de “cooptação”. Um mês? Talvez menos.
É uma revelação devastadora por dois motivos. Primeiro, porque expõe que a paz entre Carol e os “Outros” sempre teve uma data de validade. Segundo, porque ela mesma nunca autorizou a extração dessas células — diferente de Kusimayu, que consentiu. A mente coletiva está prestes a violá-la da forma mais desumana possível, e usando material genético que ela preservou num momento completamente diferente de sua vida.
Gilligan não está sendo sutil e sofisticado aqui. Em uma era de debates sobre autonomia corporal e consentimento reprodutivo, transformar óvulos congelados em ferramenta de “assimilação forçada” é uma declaração política embrulhada de ficção científica.
Manousos e a moralidade nebulosa
Enquanto Carol mergulhava na fantasia romântica, Manousos estava em Albuquerque fazendo o trabalho sujo. O colombiano que vivia no Paraguai e cruzou fronteiras dirigindo seu carro antigo encontrou algo crucial: um sinal externo. Uma frequência de rádio que, de alguma forma, mantém a mente coletiva sincronizada.
Fãs no Reddit perceberam que a resposta estava escondida desde o primeiro episódio. A sequência de abertura, com pontos se alinhando em uma onda rítmica perfeita? Esse é o sinal. Gilligan mostrou a solução para a temporada inteira toda vez que os créditos rodavam, e quase ninguém notou.
Mas a descoberta de Manousos vem com um custo. Seus experimentos para entender como desconectar indivíduos da mente coletiva aparentemente mataram milhares — talvez milhões — de “Outros”. Quando Zosia convulsiona no chão porque Manousos está testando suas teorias, Carol tem que escolher: deixa o homem continuar sua pesquisa para tentar salvar a humanidade, ou protege a mulher que ama?
Ela escolhe Zosia. Obviamente. E então, quando descobre sobre seus óvulos, muda de ideia. Obviamente.
Alguns críticos estão frustrados com essa oscilação — argumentam que o episódio desfaz o desenvolvimento de Carol dos capítulos anteriores. Discordo. A inconsistência é o ponto. Carol nunca foi uma heroína tradicional com arco limpo de redenção. Ela é uma pessoa real fazendo escolhas imperfeitas baseadas em informações incompletas e emoções contraditórias.
Às vezes escolhemos o amor. Às vezes escolhemos a sobrevivência. Nem sempre podemos ter os dois.
O presente debaixo da árvore
Carol volta para Albuquerque. Aceita trabalhar com Manousos. E traz uma caixa.
"O que tem aí?" — ele pergunta. "Uma bomba atômica." — ela responde.
Fim da temporada.
Parece uma piada de Natal — lembre-se que o episódio foi estrategicamente movido para 24 de dezembro, e a imagem de uma caixa misteriosa chegado de helicóptero na véspera de Natal talvez não seja uma coincidência. Está mais para uma declaração de intenções. Os "Outros" disseram episódios atrás que dariam qualquer coisa a Carol, incluindo armas nucleares, se ela realmente quisesse. Ela pagou pra ver.
A questão que a segunda temporada terá que responder: isso, de alguma forma, é seguro? Se a raiva de Carol já matou milhões quando ela simplesmente ficou brava, o que aconteceria se ela detonar uma ogiva nuclear em qualquer lugar do planeta? Provavelmente exterminaria todos os "Outros" de uma vez.
Carol e Manousos agora têm todo o poder. Duas pessoas amarguradas e autodestrutivas com capacidade de acabar com bilhões de vidas interconectadas. A pergunta moral que Pluribus faz não é se a humanidade merece ser salva — é se esses dois têm o direito de decidir isso.
O que nos perderíamos se isso acontecessE?
"Perguntem a si mesmos o que vocês perderam." Carol fez esta reflexão no segundo episódio, e seus colegas imunes mal pararam para considerar.
Agora, sete episódios depois, temos uma resposta.
O que perdemos quando a mente coletiva nos absorve? Perdemos a capacidade de amar uma cabra específica em vez de todas as cabras do mundo. Perdemos a dor — mas também perdemos a possibilidade de escrever algo que ninguém nunca leu antes. Perdemos o conflito — mas também perdemos a chance de escolher errado e aprender com isso.

Gilligan passou 17 anos escrevendo sobre homens que se transformavam em monstros. Walter White começou como professor de química e terminou como senhor do crime. Saul Goodman era um advogado picareta que conseguiu destruir a vida de todos que amava. Agora, aos 58 anos, Gilligan quer provar que consegue fazer o oposto.
Em seu discurso de aceitação do prêmio pelo conjunto da obra no Writers Guild of America, ele foi direto: "Por décadas, fizemos os vilões sexy demais. As pessoas olham e pensam: 'Quero ser tão descolado quanto aquele cara'. Quando isso acontece, vilões ficcionais deixam de ser pontos de advertência. Deus nos ajude, eles se tornam inspirações."
Pluribus é sua tentativa de corrigir isso. Carol não é uma anti-heroína glamourosa. É uma pessoa difícil, às vezes insuportável, frequentemente equivocada — mas fundamentalmente humana. E talvez seja isso que seja necessário defender. Não a versão idealizada de nós mesmos, mas a versão contraditória.
A longa espera
Pluribus se tornou a série mais assistida da história da Apple TV+ antes mesmo do episódio final ir ao ar. Superou Ted Lasso, Ruptura, The Morning Show — produções que levaram anos para construir suas bases de fãs. Gilligan conseguiu em nove episódios o que a maioria dos showrunners sonha em conseguir com temporadas inteiras.
A segunda temporada já está confirmada, mas ainda não começou a ser escrita. Gilligan disse em entrevistas que tem um plano de quatro temporadas, e que desta vez — diferentemente de Breaking Bad, onde a metralhadora no porta-malas foi introduzida sem muita sustentação narrativa — ele sabe exatamente para onde está indo. A bomba atômica na garagem não é um blefe criativo. É uma promessa.
Enquanto isso, nos resta lidar com a imagem que encerra a temporada: duas pessoas imperfeitas, uma arma nuclear, e uma humanidade que talvez nem merecesse ser salva — mas que Carol e Manousos decidem tentar salvar mesmo assim.
Não porque seja a escolha certa. Mas porque é uma escolha humana.
A primeira temporada completa de Pluribus já pode ser assistida na Apple TV+. Uma segunda temporada foi confirmada, mas ainda sem previsão de estreia.
E aí, o que achou do episódio final da primeira temporada de Pluribus? Comenta aqui embaixo.
Confira o trailer de Pluribus:
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP. Foi indicado ao Prêmio Shell em 2017 e conta com mais de 15 anos atuando em cinema e teatro. Em 2023, criou o Cinema Guiado, um projeto dedicado à curadoria de bons filmes e à compreensão da linguagem cinematográfica.
