Em Transito 2018 MUBI

Drama alemão sobre refugiado que rouba identidade de escritor morto está no streaming

Um refugiado em fuga assume a identidade de um escritor morto e se apaixona pela mulher que ainda procura por ele.

O filme Em Trânsito tem pouco mais de 10 mil votos no IMDb. É um número baixo para um filme com 94% de aprovação no Rotten Tomatoes sobre um refugiado em fuga, e no Brasil ele está disponível no excelente catálogo da MUBI. Pouca gente viu, mas ainda há tempo se você está procurando um bom drama para hoje.

O longa alemão, dirigido por Christian Petzold em coprodução com a França, acompanha Georg, um homem que foge de Paris pouco antes da chegada das tropas alemãs. Ele chega a Marselha, cidade portuária no sul da França, com uma única meta: conseguir um visto e um lugar num navio que o tire da Europa. O problema é que sair dali depende de papéis, carimbos e da promessa de que outro país vai recebê-lo. Sem isso, resta esperar nos corredores de hotéis baratos e nas salas de espera dos consulados.

No papel, parece mais um drama de fuga ambientado na Segunda Guerra. Na tela, funciona de um jeito diferente. Georg carrega a bagagem de um escritor chamado Weidel, que tirou a própria vida, e aos poucos assume a identidade do morto para ficar com o visto que estava reservado a ele. É aí que cruza com Marie, uma jovem que procura sem descanso pelo marido desaparecido. O marido é justamente o escritor cuja identidade Georg vestiu. Os dois se reencontram pela cidade várias vezes, quase por acaso, e o que poderia ser só um encontro vira um laço carregado de culpa e desejo.

Em Trânsito é um achado no catálogo da MUBI

O filme não é sobre a natureza do refugiado, é sobre o tempo. Petzold mantém a história dos anos 1940, com refugiados, delações e o medo constante de ser pego, mas filma tudo na Marselha de hoje, com carros, roupas e ruas atuais. Ninguém menciona Hitler nem os nazistas, e ainda assim a ameaça está em cada esquina. Esse descompasso entre o que se ouve e o que se vê aproxima a fuga de antigamente da crise dos refugiados atual, sem precisar de uma única legenda explicando a comparação. Entre uma espera e outra, Georg se afeiçoa a Driss, filho pequeno de uma vizinha imigrante, e essas cenas singelas dão ao filme um calor que equilibra a tensão.

Christian Petzold é um dos nomes centrais da chamada Escola de Berlim, um grupo de cineastas alemães. Ganhou o Urso de Prata de melhor direção em 2012 por Barbara e voltou a ser elogiado por Fênix, de 2014. Em Trânsito fecha uma trilogia informal sobre o amor em tempos de regimes opressores, ao lado desses dois filmes. A adaptação parte do romance que Anna Seghers, escritora alemã e judia que também fugiu da perseguição nazista, publicou em 1944, a partir da própria experiência de espera em Marselha. O filme estreou na disputa pelo Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2018 e saiu de lá com forte reconhecimento da crítica.

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Franz Rogowski, que vive Georg, foi apontado como uma das revelações europeias daquele ano, e sua atuação contida sustenta boa parte do filme. Ele fala pouco, e a sensação de alguém que perdeu o chão aparece mais no corpo do que nas palavras. Paula Beer, que faz Marie, constrói uma presença inquieta, sempre prestes a sair de cena atrás do marido que talvez nunca volte. Seu talento foi reconhecido pouco depois, quando ela venceu o prêmio de melhor atriz em Berlim por outro filme.

No fim, Em Trânsito é um filme sobre amor, medo e as escolhas que fazemos quando o tempo é curto. O filme está na MUBI, assista antes que suma.

Confira o trailer do filme:

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