Em A Última Loja de Consertos, quatro técnicos de Los Angeles cuidam de mais de 80 mil instrumentos musicais para estudantes da rede pública, sem cobrar nada por isso.
Em março de 2024, Ben Proudfoot subiu ao palco do Oscar pela segunda vez em três anos com um documentário. Dessa vez ao lado do compositor Kris Bowers, nome conhecido de Hollywood por trilhas como Green Book, Rei Richard e Bridgerton. Os dois levaram a estatueta de Melhor Curta-documentário por A Última Loja de Consertos, um filme de 40 minutos que está no Disney+ desde então. E que, no Brasil, passou praticamente em branco.
O cenário é um galpão sem placa, numa região industrial de Los Angeles. Desde 1959, esse endereço abriga um dos últimos serviços do tipo ainda mantidos por uma rede pública de ensino nos Estados Unidos: o conserto gratuito de instrumentos musicais para estudantes. Ali dentro, quatro técnicos cuidam de mais de 80 mil instrumentos — violinos, trombones, tubas, pianos — que circulam pelas escolas da cidade.
O desejo que move o filme é simples e concreto: manter essa engrenagem funcionando, instrumento por instrumento, para que nenhuma criança fique sem poder tocar por falta de dinheiro.
O que sustenta o filme não é uma atuação, mas quatro histórias reais entrelaçadas com cuidado. Steve Bagmanyan, responsável pelos pianos, chegou aos Estados Unidos como refugiado, fugindo de perseguição étnica no Azerbaijão nos anos 1980. Paty Moreno, única mulher da oficina, cuida dos metais e conta como migrou sozinha do México para criar os filhos em Los Angeles, em anos de falta de comida em casa.
Duane Michaels, dos instrumentos de sopro, era um garoto sofrendo bullying até encontrar um violino de 20 dólares e, mais tarde, sair em turnê com a banda que abriu para Elvis Presley. Dana Atkinson, das cordas, usa décadas de ofício para falar sobre reconstruir um instrumento e reconstruir a si mesmo. A câmera intercala essas histórias com as de alunos que dependem desses instrumentos consertados, até desembocar numa cena final: ex-alunos e alunos atuais, de 7 a 70 anos, tocando juntos uma composição de Bowers.
O prestígio aqui não é modesto. A Última Loja de Reparações estreou no Festival de Telluride em setembro de 2023, venceu de Melhor Curta-documentário no Festival Internacional de Cinema de Calgary no mesmo mês e chegou ao Oscar como um dos favoritos da categoria. Para Ben Proudfoot, foi a segunda estatueta: ele já tinha vencido em 2022 por A Rainha do Basquete.
Para Kris Bowers, compositor por trás de trabalhos recentes como Bob Marley: One Love e a trilha (concorrente ao Oscar na mesma temporada) de A Cor Púrpura, foi a estreia como vencedor atrás das câmeras. O próprio Bowers tem ligação pessoal com a história: foi aluno da rede pública de Los Angeles e aprendeu piano em instrumentos mantidos por um dos técnicos do filme.
Não existe grande reviravolta nem tensão narrativa em A Última Loja de Consertos. O que existe é atenção: a um ofício que ninguém nota, a quatro pessoas que passaram a vida consertando o que outros descartariam. É um filme sobre reparo como metáfora e como trabalho concreto ao mesmo tempo, sem forçar a comparação. A Última Loja de Consertos está disponível na Disney+.
Confira o trailer oficial:
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