Como dois irmãos redefiniram o sentido de Hamnet

Como dois irmãos redefiniram o sentido de Hamnet

A ligação familiar no filme de Chloé Zhao é um dos toques mais sagazes e comoventes relacionados à escolha de elenco da obra

Há um instante no clímax de Hamnet que provoca uma espécie de parada cardíaca coletiva nas salas de cinema. Agnes — interpretada com força tectônica por Jessie Buckley — está de pé no fosso do Globe Theatre em 1599, assistindo à estreia de Hamlet. Ela chegou com desconfiança, talvez até com ressentimento, convocada pela arte de um marido que transformou a morte do filho em espetáculo. E então o ator que vive o príncipe dinamarquês se volta para ela, e os olhos dos dois se encontram.

A câmera de Łukasz Żal — o mesmo que fotografou o ótimo Ida, especialista em capturar o insuportável com serenidade — mantém o enquadramento aberto para que possamos ver os dois ao mesmo tempo. E algo acontece que a lógica não consegue explicar, mas que o corpo do espectador reconhece antes de sua mente: aquele ator lembra muito o filho morto.

Isso não é uma coincidência. Foi uma escolha.


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Chloé Zhao chegou a Hamnet carregando o peso de Nomadland — Oscar de Melhor Filme e Melhor Direção em 2021 — e a expectativa de que, mais cedo ou mais tarde, ela voltaria a fazer algo intenso.

Sua marca é conhecida: paisagens que parecem respirar, tempo não linear que se assemelha à memória, câmera posicionada não como observadora neutra, mas como testemunha. Em Nomadland, os grandes espaços americanos eram personagens. Em Hamnet, é a floresta inglesa do século XVI que carrega essa função — um lugar de magia prática e de fronteiras porosas entre o visível e o oculto.

O material era a adaptação do romance homônimo de Maggie O'Farrell, publicado em 2020 e vencedor de vários prêmios. A premissa central é a de que William Shakespeare escreveu Hamlet como forma de processar o luto pela morte de seu filho de 11 anos, vítima da peste bubônica em 1596. 

O nome do filho e o nome da peça eram, à época, intercambiáveis — o prólogo do filme registra isso com precisão histórica. Zhao e O'Farrell, que também assina o roteiro, constroem o filme não como a história de um gênio, mas como a história de uma mãe. William mal é chamado pelo nome.

Os irmãos Jacobi e Noah Jupe atuam juntos em Hamnet, de Chloe Zhao.

O Que Está na Tela: O Visível

Zhao estabelece um cenário de floresta exaltado, onde tudo parece possível. Agnes possui um falcão, conhece as ervas que curam e tem o dom de ver o que os outros não veem. William é um jovem tutor endividado, magnético e sem destino claro. Eles se casam rapidamente, têm uma filha chamada Susanna, e então gêmeos: um menino e uma menina, Hamnet e Judith

Jacobi Jupe, ator britânico de 12 anos, foi elogiado por sua atuação no papel-título — um papel limitado em termos de tempo de tela, já que o enredo não é tanto a história de Hamnet, mas o exame do efeito profundo que sua morte teve em seus pais. Paul Mescal encarna William com uma contenção que gera tensão. Buckley constrói Agnes de dentro para fora, criando uma mulher que não chora da forma que se espera — ela raiveja, ela se nega, ela resiste.

O clímax é a encenação de Hamlet no Globe Theatre. Zhao e a equipe construíram uma réplica em 70% do tamanho real do Globe para as filmagens. É nessa sequência de quase 20 minutos que o filme revela sua alma.

Um dos artifícios mais inteligentes do filme é tornar a conexão Hamnet-Hamlet implícita no próprio elenco. O novato Jacobi Jupe tem uma semelhança marcante com o ator que vive Hamlet no palco — e há um bom motivo para isso: Noah Jupe, irmão mais velho de Jacobi na vida real, foi escalado como o Príncipe da Dinamarca na peça-dentro-do-filme. Isso muda tudo.

A história da escalação revela o acidente feliz por trás da decisão deliberada. A produção havia encerrado as filmagens com Jacobi quando Zhao percebeu que ainda não havia contratado um ator para a sequência final de 20 minutos. Ela ligou para a mãe dos irmãos Jupe, e conseguiu o contato de Noah.

Escalado Noah, um problema se apresentou. Zhao olhou para ele no set e disse: "Você não se parece tanto com o Jacobi." A solução foi alterar o cabelo escuro de Noah para combinar com os cachos mais claros do irmão, usando uma tinta amarelada aplicada de forma propositalmente artesanal. 

Noah interpretou o gesto como mais uma camada de significado: era como imaginar o próprio Shakespeare tentando recriar o filho perdido, moldando a aparência de um ator para aproximá-lo do que um dia existiu.

O Que os Mecanismos Sugerem: O Invisível

Aqui o filme se torna algo maior do que a soma de suas partes. A decisão de escalar dois irmãos de verdade para viver dois personagens que são, na ficção, a mesma pessoa (Hamnet transformado em Hamlet pelo pai) opera em pelo menos três camadas simultâneas.

A primeira é puramente visceral: o rosto de Noah evoca o de Jacobi. A semelhança não precisa ser perfeita — ela precisa ser suficiente para que o inconsciente do espectador trabalhe. Zhao entende que o cinema não convence pelo raciocínio, mas pela sensação de reconhecimento.

A segunda é narrativa: quando Agnes estende a mão para tocar o ator no palco, ela não está vendo um príncipe dinamarquês. Noah disse que sentir a presença de Agnes (Buckley) na primeira fila mudou a forma como ele pronunciou as palavras — ela tornava cada espectador um participante ativo. A câmera registra esse instante como se fosse a memória de outra pessoa: imprecisa, luminosa e absolutamente verdadeira.

A terceira é meta-cinematográfica, e é onde o filme se torna, discretamente, brilhante. Perto do final, quando Agnes recebe o programa da estreia de Hamlet, o nome do ator no papel-título pode ser lido brevemente: "Mr. Jupe." Dois senhores Jupe. Um que morreu na ficção para que o outro nascesse — e um que morreu na vida de um pai para que sua sombra pudesse viver para sempre no palco.

Hamnet é um filme sobre a pergunta mais antiga da criatividade humana: o que fazemos com aquilo que não conseguimos suportar? A resposta de Shakespeare, segundo Zhao e O'Farrell, foi transformar o insuportável em linguagem. A resposta de Agnes, segundo Buckley, foi aprender a viver dentro da ausência sem ser consumida por ela.

A decisão de escalar os irmãos Jupe é, em miniatura, a mesma aposta que o próprio Shakespeare fez com Hamlet: usar a semelhança como veículo de permanência.

Hamnet morreu com 11 anos, em 1596. O filme ganhou o Globo de Ouro de Melhor Drama e tem oito indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme.

Em cada sala escura onde Agnes toca a mão de Hamlet, aquela criança volta a existir por mais alguns instantes.

Muito além da história

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