Béla Tarr: O cineasta que fez do tempo o seu principal personagem

Béla Tarr: O cineasta que fez do tempo o seu principal personagem

Morreu hoje o diretor húngaro que ajudou a redefinir como tempo, movimento e atenção funcionam no cinema

Você pode não saber quem ele é. Mas se algum dia assistiu a um filme que parecia exigir algo de você — paciência, atenção, entrega —, há uma boa chance de que Béla Tarr esteja por trás disso. Não diretamente, talvez. Mas como origem. Como matriz.

O diretor húngaro morreu nesta terça-feira, 6 de janeiro de 2026, em Budapeste, após uma longa doença. Tinha 70 anos.

O mundo se despede do lendário diretor húngaro Béla Tarr (Foto: Walter Carvalho)

O estilo que redesenhou o cinema

Tarr não inventou o plano-sequência. Mas transformou sua duração em questão ética. Seus filmes rejeitavam a gramática tradicional do corte — aquele “informação, corte, informação, corte” que domina o cinema comercial — em favor de algo mais brutal: o tempo real. A câmera não cortava porque a vida não corta.

O resultado é um cinema que respira. Que tem vida, que força o espectador a habitar a imagem, não apenas consumi-la.

“O Tango de Satã” (Sátántangó), de 1994, é uma experiência ontológica de sete horas e meia. Não é um teste de resistência. É uma declaração de princípios.

A obra: compacta e monumental

Tarr dirigiu apenas nove longas-metragens em 34 anos de carreira. Poderia ter feito mais. Escolheu não fazer.

Seu primeiro filme, “Ninho Familiar” (1977), foi rodado em apenas seis dias, com atores não profissionais e orçamento mínimo. Ganhou o Grande Prêmio no Festival de de Mannheim-Heidelberg (IFFMH). Tarr tinha 22 anos.

A virada veio com “Danação” (1988), co-escrito com o romancista László Krasznahorkai — parceria que definiria o resto de sua filmografia. Ali nasceu o Tarr que o mundo conheceria: imagens em branco e preto, planos longos, paisagens encharcadas de chuva, corpos exaustos, movimentos de câmera hipnóticos.

“O Tango de Satã” (1994) adaptou o romance homônimo de Krasznahorkai em 439 minutos de colapso moral coletivo numa vila húngara pós-comunista. A revista Sight & Sound incluiu o filme entre os 50 maiores de todos os tempos em 2012 e novamente em 2022.

As Harmonias de Werckmeister” (2000), co-dirigido com sua esposa e montadora Ágnes Hranitzky, conta sua história em apenas 39 planos. Um circo chega a uma cidade. A carcaça de uma baleia morta é exibida ao público. O caos se instala. A cena de abertura — um bêbado explicando o sistema solar usando outros bêbados como planetas — é uma das mais extraordinárias já filmadas.

“O Cavalo de Turim” (2011), seu último filme, parte de uma anedota sobre Nietzsche: em 1889, o filósofo teria abraçado um cavalo que estava sendo chicoteado em Turim, pouco antes de seu colapso mental. O filme não mostra Nietzsche. Mostra apenas o cavalo. E o dono do cavalo. E a filha do dono. E seis dias de repetição, exaustão, extinção. A luz vai embora. O fogo se recusa a acender. A vida simplesmente para. O mundo acaba?

O filme ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim. Tarr anunciou sua aposentadoria logo depois.


Quer uma luz no fim do filme?


A influência: de Hollywood a Sarajevo

Gus Van Sant credita Tarr como influência direta em sua Trilogia da Morte — Gerry, Elefante, Últimos Dias. Em entrevista à Filmmaker Magazine, Van Sant declarou: "De certa forma, Gerry é Béla Tarr fundido com Tomb Raider."

Jim Jarmusch absorveu o ritmo contemplativo. Valdimar Jóhannsson, diretor de Lamb, estudou na escola de cinema de Tarr em Sarajevo e o teve como mentor. "Passar tanto tempo com Béla mudou minha visão sobre fazer cinema", disse à Screen Daily.

Diretores como Alexander Sokurov e Apichatpong Weerasethakul também orbitam o mesmo universo estético. Susan Sontag incluiu Tarr em seu ensaio de 1995 sobre o estado do cinema. O crítico Jonathan Rosenbaum o chamou de "Tarkovsky dessacralizado".

O mundo se despede do lendário diretor húngaro Béla Tarr (Foto: Divulgação)

O professor: mais radical que eu

Após "O Cavalo de Turim", Tarr se mudou para Sarajevo e fundou a Film.Factory, uma escola de cinema onde convidou Van Sant, Tilda Swinton, Juliette Binoche, Carlos Reygadas e Apichatpong Weerasethakul para lecionar.

Seu conselho aos alunos era sempre o mesmo: "Sejam mais radicais do que eu fui."

Em 2024, disse ao The Guardian: "Fazer cinema é como uma droga e eu ainda sou um viciado. Mas quero trabalhar com os jovens porque quero empurrá-los a serem eles mesmos, a serem livres."

O homem: filósofo frustrado, cineasta relutante

Tarr nasceu em Pécs, Hungria, em 21 de julho de 1955. Queria ser filósofo. O governo comunista o impediu de entrar na universidade. Então fez filmes.

Aos 14 anos, ganhou do pai uma câmera 8mm. Aos 16, fundou um grupo de cinema amador chamado Dziga Vertov. Um de seus curtas chamou a atenção das autoridades comunistas, que o interrogaram.

Recusava rótulos. "Sou só um simples ateu", disse uma vez. "Não acredito em Deus. Simples assim." Contra o rótulo de pessimista, disse: "Pessimistas não fazem nada. Eu faço filmes, que é justamente o oposto: um ato de fé nas pessoas, na capacidade de serem tocadas."

Era casado com Ágnes Hranitzky, sua montadora e co-diretora nos últimos três filmes. Trabalharam juntos por mais de três décadas.

O mundo se despede do lendário diretor húngaro Béla Tarr (Foto: Eszter-Gordon - TIFF)

O legado: o tempo como personagem

Tarr não fazia filmes sobre a Hungria. Fazia filmes sobre a condição humana usando a Hungria como cenário. A lama, o vento, a chuva, os rostos marcados — tudo isso era linguagem, não ambientação.

Seus filmes não são fáceis. Não foram feitos para serem fáceis. Foram feitos para serem apreciados.

Danação, As Harmonias de Werckmeister, Sátántangó, O Cavalo de Turim — não são apenas filmes. São obras que poderiam estar em museus. Imagens que permanecem no espectador anos depois de vistas.

A European Film Academy, da qual Tarr era membro desde 1997, emitiu uma nota: "A Academia lamenta a perda de um diretor extraordinário e uma personalidade com forte voz política, profundamente respeitado por seus colegas e celebrado por públicos no mundo todo."

Béla Tarr morreu após uma longa doença. Deixou nove filmes e uma geração de cineastas que aprenderam com ele a não ter medo de ousar.

"Não quero seguidores", disse uma vez. "Quero cineastas independentes."

Conseguiu os dois.

Muito além da história

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