Crítica | ‘Uma Batalha Após a Outra’ é alvoroço cinematográfico irresistível

Paul Thomas Anderson cria um espetáculo de ação e ideias que mira alto e acerta mais do que erra


O décimo filme do diretor Paul Thomas Anderson se propõe a decifrar um EUA em convulsão permanente: revoluções abortadas, violência de Estado, radicalismo, resistência. É muita coisa. E o cineasta abraça tudo com a voracidade de quem sabe que está fazendo seu filme mais urgente.

A trama acompanha Bob (Leonardo DiCaprio), um ex-revolucionário que vive em paranoia chapada numa cabana na Califórnia, assistindo reprises de A Batalha de Argel e tentando proteger a filha adolescente Willa (Chase Infiniti) de um passado que ele gostaria de apagar. Quando o Coronel Lockjaw (Sean Penn), seu arqui-inimigo, ressurge depois de dezesseis anos, pai e filha são jogados num turbilhão de perseguições, explosões e reencontros com velhos companheiros de luta.

Anderson extrai do romance Vineland, de Thomas Pynchon, o esqueleto da história e tempera com suas próprias obsessões: a relação entre gerações, o peso das escolhas, os EUA como palco de contradições.

O roteiro entrega momentos poderosos — a urgência de justiça, o desgaste de quem lutou demais, o medo do pós-trauma — e equilibra isso com um humor ácido que impede o filme de se levar a sério demais. DiCaprio, num papel que exige vulnerabilidade cômica, entrega um dos trabalhos mais soltos de sua carreira: um pai atrapalhado, amoroso, completamente fora de forma para a batalha que o espera.

Cena de ‘Uma Batalha Após a Outra’ (Foto: Warner Bros.)

um colapso social que parece assustadoramente próximo

No aspecto técnico, o filme impressiona em cada cena. A fotografia em VistaVision de Michael Bauman, a montagem nervosa de Andy Jurgensen e a trilha sonora de Jonny Greenwood (do Radiohead) — com seus pianos cortantes e cordas que anunciam perigo — constroem uma pulsação dramática que não dá trégua. As cenas de ação têm escala e vigor, filmadas com o ritmo que a situação exige, e Anderson usa esse tamanho para representar um colapso social que parece assustadoramente próximo.

O estilo mistura ação, sátira e drama familiar de forma explosiva. Há exageros grotescos, violência gráfica, fantasia e ultrarrealismo convivendo às vezes na mesma cena. Sean Penn, como o vilão Lockjaw, entrega uma performance propositalmente exagerada que rouba cada cena em que aparece. É um filme que quer abraçar tudo ao mesmo tempo — e essa ambição, se ocasionalmente dispersa a densidade crítica, também é o que o torna tão eletrizante.

Sensorialmente, Uma Batalha Após a Outra coloca o espectador no olho do furacão. Você sente o calor, a pólvora, a eletricidade no ar. A paranoia, a adrenalina. Em seus melhores momentos, o filme constrói empatia pelo caos, pelo medo, pela urgência de quem tenta proteger quem ama num mundo que não oferece garantias.

Cena de ‘Uma Batalha Após a Outra’ (Foto: Warner Bros.)

É verdade que nem tudo funciona com a mesma força. Alguns personagens secundários pendem para a caricatura, certos discursos soam amplos demais, e há uma insistência em associar violência e libertação que nem sempre escapa do mecanismo que pretende criticar. Mas são tropeços numa corrida de quase três horas que raramente perde fôlego.

No fim, este é um filme que grita, balança, colide — e que, ao contrário de tanto cinema contemporâneo, tem algo a dizer sobre o mundo em que vivemos. Anderson entrega sua obra mais acessível e, paradoxalmente, uma das mais complexas. É cinema de espetáculo que não abre mão de pensar.

E isso, hoje em dia, é raro.

Ficha Técnica

Título: Uma Batalha Após a Outra (2025)
Roteiro e Direção: Paul Thomas Anderson
Duração: 162 min
Gênero: drama
Distribuição: Warner
Onde Assistir: HBO Max

Avaliação:


Dica de leitura: Se este filme despertou o seu interesse, você vai gostar do livro ‘Vineland’, de Thomas Pynchon. A obra que inspirou o filme foi descrita como uma epopeia pós-moderna, uma aventura californiana cheia de humor e lirismo. Clique aqui e adquira seu exemplar.

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