Quatro anos depois do fim da série com Cillian Murphy, filme da Netflix coloca ponto final em uma das produções britânicas mais assistidas e premiadas da última década.
A série original Peaky Blinders estreou em 2013, teve seis temporadas e chegou ao fim em 2022. Criada por Steven Knight, conquistou o BAFTA e se tornou um fenômeno cultural.
Cillian Murphy veste a boina mais famosa da cultura pop com o peso extra de um Oscar no currículo e a responsabilidade de dar dignidade a um personagem que há doze anos nunca decepcionou seu público.
A série original estreou na BBC em 2013, deixou uma marca indelével na TV ao redefinir o drama criminal com anti-heróis de profundidade moral e psicológica e encerrou em 2022 com o destino de Tommy Shelby em aberto. O longa-metragem é a resposta para quem ficou com aquele gosto de sangue na boca.
Não é nenhum exagero dizer que a série transformou Birmingham em destino turístico, o boné de aba reta em símbolo de moda masculina e Cillian Murphy (antes conhecido sobretudo por papéis de coadjuvante) em um dos atores mais requisitados do planeta. O Oscar por Oppenheimer, em 2024, veio como confirmação do que os fãs de Peaky Blinders já sabiam desde a primeira temporada.
O filme é ambientado na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, e acompanha um Tommy Shelby mais velho vivendo no exílio.
O ex-líder criminoso, no entanto, é forçado a abandonar o isolamento e retornar a Birmingham quando seu filho ilegítimo se envolve em uma perigosa conspiração nacional. Enquanto o jovem Duke Shelby assume o controle dos negócios da família, o protagonista precisa enfrentar ameaças ligadas a movimentos fascistas e fantasmas de seu próprio passado (extremamente violento).
O pano de fundo histórico é providencial. Knight sempre ancorou os Shelby em momentos de fratura da história britânica (as sequelas da Primeira Guerra, a ascensão do fascismo nos anos 1930) e a Segunda Guerra é, nesse sentido, a conclusão lógica do arco. Um homem moldado pela brutalidade de uma guerra sendo convocado pela brutalidade de outra.
Repare que O Homem Imortal é ambientado seis anos após a 6ª temporada e desloca a família para o centro da Segunda Guerra Mundial, em uma Birmingham tomada por paranoia, infiltração e guerra de bastidores. Tommy Shelby, agora em autoexílio, é forçado a retornar quando seu filho distante se envolve em uma conspiração nazista que ameaça não apenas a família, mas o próprio país.
Os crimes de gangues viram conflito de Estado. A escala aumentou, mas a lógica permanece a mesma: Tommy Shelby resolvendo o impossível pelos meios que o tornaram rico e solitário.
O pano de fundo histórico tem base real. A operação de falsificação de moeda retratada no filme se inspira na Operação Bernhard, plano nazista real para desestabilizar a economia britânica durante a guerra através da impressão massiva de libras esterlinas falsas.
Além de Cillian Murphy e Rebecca Ferguson nos papéis de Thomas Shelby e Zelda, o elenco inclui Barry Keoghan como Erasmus Shelby, Sophie Rundle como Ada Thorne, Tim Roth como John Beckett e Stephen Graham como Hayden Stagg.
A combinação Murphy-Keoghan merece atenção especial. Os dois já dividiram set em Dunkirk (2017). Aqui, o contraste funciona como motor dramático: Duke conduz os negócios com uma abordagem mais impulsiva e menos estratégica, colocando em evidência um contraste direto com Tommy. Pai e filho como espelhos opostos, cada um revelando o que o outro não consegue mais ser.
A presença de Keoghan (vencedor do BAFTA por Saltburn) como o filho de Tommy é a aposta mais arriscada e mais interessante do filme: dois irlandeses de gerações distintas, cada um com seu próprio peso, dividindo cena em uma produção britânica sobre identidade e lealdade familiar.
A produção estreou antecipadamente em cinemas selecionados no dia 6 de março, chegando ao catálogo da Netflix em 20 de março. No Brasil, o longa não entrou em cartaz (a distribuição foi exclusivamente via streaming), o que é uma perda irreparável e imcompreensível para uma produção de tamanha escala visual.

Os números iniciais são muito bons. O filme soma nota 7.7 no IMDb e aprovação de 92% no Rotten Tomatoes. Para um encerramento de franquia muito amada (categoria historicamente propensa a decepção), esses índices indicam que o filme cumpriu o contrato básico: não envergonhou o que veio antes.
A crítica aponta algumas limitações. Algumas ideias são introduzidas sem aprofundamento suficiente, o que dá a impressão de que parte do material seria mais adequado a uma temporada do que a um longa-metragem.
A condução de Tom Harper foi apontada como excessivamente estática em alguns momentos, com abuso de tela azul e ritmo desajustado. Mas o veredicto geral converge: mesmo com o roteiro apressado e a ausência sentida de parte do clã Shelby, o filme cumpre seu papel de encerramento. É uma despedida digna.
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Mas o filme, claro, não encerra o universo. Já há um spin-off confirmado para os anos 1950, centrado na nova geração dos Peaky Blinders. Steven Knight construiu um mundo denso o suficiente para continuar existindo sem o personagem que o tornou famoso. Se vai funcionar sem Murphy é a pergunta que ninguém pode responder agora.
Peaky Blinders: O Homem Imortal está disponível agora na Netflix. Tommy Shelby esperou quatro anos para se despedir. O mínimo que o espectador pode fazer é fechar o celular e dar ao homem toda a atenção que ele merece.
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP, mas foi morando na Hungria — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — que aprendeu a ler o que os filmes comunicam sem dizer. Em 2023, criou o Cinema Guiado, plataforma editorial independente dedicada à análise, curadoria e reflexão sobre cinema.

