O filme de Josh Safdie acompanha a saga do mesatenista Marty Mauser, que vai ao inferno em busca de grandeza.
Os créditos de abertura de Marty Supreme começam com alguns espermatozoides. Centenas deles, na verdade, num close microscópico que beira o obsceno, disputando a corrida mais primitiva da biologia. Tudo isso ao som da inesquecível balada “Forever Young”, da banda alemã Alphaville.
E então, com a crueldade cômica de quem conhece muito bem o seu protagonista, Josh Safdie transforma lentamente o ovo fecundado em uma bolinha de pingue-pongue. É o Safdie mais lúcido que já vimos — depois de ter inaugurado Joias Brutas com uma colonoscopia de Adam Sandler, agora sabemos que ele é o verdadeiro perturbado (no bom sentido) da família.
O ponto de chegada já está dado na primeira cena: Marty Mauser nasceu para competir. O problema é que ele nunca aprendeu a diferença entre competir e destruir.
Ambientado na Nova York de 1952, Marty Supreme acompanha Marty Mauser — livremente inspirado no jogador real Marty Reisman — um vendedor de sapatos que sonha em ser reconhecido como o maior jogador de tênis de mesa do mundo.
O filme chegou aos cinemas no Natal de 2025, distribuído pela A24, e tornou-se rapidamente o maior sucesso comercial da história da distribuidora.
Desde seus primeiros filmes, o cinema de Josh Safdie se define menos pelo que conta do que por como ele faz você se sentir. Sua marca não é temática, mas experiencial: câmera nervosa, montagem frenética, som invasivo, personagens presos numa corrida que nunca escolheram mas que também não sabem como interromper.
No ótimo Bom Comportamento (2017), Robert Pattinson atravessa a madrugada do Queens como um animal acuado. Em Joias Brutas (2019), Adam Sandler gira num vórtice de apostas e promessas que nunca se fecham. A fórmula do caos orquestrado já era assinatura reconhecível quando os irmãos se separaram.
Marty Supreme é filmado com a linguagem nervosa dos estudos de personagem dos anos 70, muito embora a história seja ambientada nos anos 50. O deslocamento é intencional: uma forma de desorientar o espectador subconscientemente, colocando-o nos sapatos de um personagem que nunca está exatamente onde pensa que deveria estar, alguém lançado para fora de seu tempo. Safdie usa esse anacronismo não como ferramenta estética, mas como diagnóstico psicológico. Como se Marty pertencesse a uma geração que ainda não existe.
Para realizar o trabalho, Safdie escalou o diretor de fotografia Darius Khondji — o mesmo de Seven - Os Sete Crimes Capitais e Meia-Noite em Paris. Daniel Lopatin assina a trilha sonora usando uma playlist do Spotify como guia de composição, incluindo músicas de New Order, Fats Domino e Tears For Fears. O resultado soa como se alguém tivesse mixado uma rádio de 1952 com sintetizadores que ainda não existiam.

O filme transcorre ao longo de nove meses — e Safdie tem a elegância de nos dar um metrônomo orgânico para isso: uma gestação. Enquanto Marty atravessa continentes, dribla credores e acumula inimigos, uma barriga cresce em paralelo como parte do caos. E ela pertence a Rachel (Odessa A'zion), jovem casada com quem o protagonista mantém um tórrido caso de amor.
É o único elemento do filme que avança em seu próprio ritmo, sem se curvar à urgência do protagonista. Sem ela, perderíamos completamente a noção do tempo — o que provavelmente é o ponto. Marty certamente a perdeu. Enquanto uma vida é gerada em câmera lenta, ele consome a dele em frenesi: a narrativa parece conter, de forma exponencial, a história de uma vida inteira comprimida em três estações.
O filme abre com Marty no Lower East Side, trabalhando numa sapataria e caçando dinheiro pelo lado em apostas de pingue-pongue e jogos em traseiras de bares. A narrativa segue para Londres, onde ele se instala no Ritz e seduz uma atriz famosa interpretada por Gwyneth Paltrow, e culmina num torneio decisivo em Tóquio.
Safdie povoa o filme com rostos desconhecidos, mas autenticamente memoráveis, em vez das estrelas recorrentes de Hollywood: figuras que parecem ter vindo direto das calçadas de Manhattan nos anos 1950.
Abel Ferrara como um gângster apaixonado por cachorros. Géza Röhrig, protagonista de Filho de Saul, como Béla Kletzki, amigo de Marty e sobrevivente de Auschwitz. Tyler, the Creator roubando cada cena que habita. É casting como argumento: cada rosto tem uma história antes de dizer qualquer palavra.

Aqui é onde Marty Supreme se torna incontornável e incômodo. Safdie e Bronstein foram atraídos pela ideia de usar Mauser como forma de explorar o orgulho judaico pós-Holocausto: transmitindo como a vitória na Segunda Guerra Mundial acendeu o conceito de sonho americano também para uma geração inteira de imigrantes judeus.
O Lower East Side de 1952 é um território específico e carregado: um bairro de sobreviventes, de filhos de sobreviventes, de gente que aprendeu que existir já é uma forma de resistência.
Mas Marty não é um herói do orgulho judaico. É algo mais complicado (e mais verdadeiro). Ele maneja sua identidade da mesma forma que maneja tudo: com estratégia.
Em Londres, se autodenomina "o escolhido" para a imprensa — uma referência ao povo eleito que ele transforma em fanfarronada de marketing. Na cena mais arriscada do filme, anuncia que vai fazer a Béla Kletzki o que Auschwitz não conseguiu, e se justifica: sou judeu, eu posso dizer isso. É mais uma performance: um jovem tentando transformar a história herdada em cartão de acesso a um novo mundo.
O filme responde a essa bravata colocando a realidade do Holocausto em outro lugar. Géza Röhrig, protagonista de Filho de Saul, traz para Béla Kletzki uma memória que é física, não retórica: o cheiro dos campos, a fome dilacerante, a dor em cada poro.
A cena do mel em Auschwitz — um flashback que o filme insere com brutalidade — não explica nada. E a diferença entre o trauma vivido de Béla e o trauma instrumentalizado de Marty é o abismo moral que o filme se recusa a unir com um discurso.
Há ainda o antissemitismo casual que Marty absorve como parte do território: Tyler, the Creator, como seu cúmplice, solta um "não seja um judeu ganancioso" e Marty não reage. Num torneio em Tóquio, os organizadores propõem que ele beije um porco — um gesto de hostilidade mal disfarçada. Safdie mostra tudo sem amenizar. O espectador decide o quanto pesa.
Há uma crítica legítima ao filme nesse ponto: a Estrela de Davi pendurada no pescoço de Marty retorna com insistência ao quadro, como se a câmera precisasse nos lembrar repetidamente que ele é judeu.
O risco é que marcadores culturais como esse quase sempre acabam por substituir a substância, como se o filme usasse o peso e a gravidade do pós-Holocausto sem necessariamente assumir qualquer responsabilidade por ela. Mas... é uma tensão real que, lida à luz do personagem, faz sentido dramático. Marty e o filme são cúmplices no mesmo equívoco consciente e parece ser uma posição autoral, não uma falha.
Marty Supreme não é um filme sobre pingue-pongue, nem sobre judaísmo, nem sobre ambição — embora seja sobre todos esses temas ao mesmo tempo, com a simultaneidade frenética de um homem que não sabe lidar com as coisas que ama.
A gestação que atravessa o filme é, no fundo, a resposta do cinema à pergunta que Marty nunca faz: o que nasce enquanto você corre para ganhar a vida?
Marty Supreme está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
Herbert Bianchi é diretor e roteirista formado em Cinema pela FAAP, mas foi morando na Hungria — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — que aprendeu a ler o que os filmes comunicam sem dizer. Em 2023, criou o Cinema Guiado, plataforma editorial independente dedicada à análise, curadoria e reflexão sobre cinema.

