Filmado ao longo de cinco anos por coletivo de cinema, documentário expõe a destruição sistemática de comunidades palestinas na Cisjordânia
A trajetória de “Sem Chão” (No Other Land) é tão acidentada quanto o terreno pedregoso de Masafer Yatta, a comunidade palestina que ele retrata.
Vencedor do Oscar de Melhor Documentário em março de 2025, o filme acumulou 69 prêmios em festivais ao redor do mundo e reconhecimento unânime da crítica internacional. Mas nada disso protegeu seus realizadores das consequências de apontar uma câmera para o que o mundo prefere não ver.
“Sem Chão” é filmado ao longo de cinco anos (2019-2023) e documenta a destruição sistemática de Masafer Yatta, conjunto de 19 vilarejos na Cisjordânia que Israel declarou como “campo de treinamento”. O que isso significa na prática? Tanques de Guerra do exército israelense demolem casas, escolas, galinheiros. Soldados despejam cimento em poços d’água para torná-los inutilizáveis. Colonos armados patrulham estradas proibidas aos palestinos, que não podem dirigir em sua própria terra. As cerca de 1.800 pessoas que vivem ali há gerações — algumas em cavernas desde o século XIX — são expulsas sob a mira de fuzis.
Basel Adra, advogado e jornalista palestino de 31 anos, começou a filmar essas demolições ainda na adolescência, inspirado pelo pai, ativista preso várias vezes por resistir à ocupação. As imagens brutas, captadas em celulares e câmeras amadoras, acumularam-se em um arquivo digital de quase 2.000 horas. Sozinho, Adra sabia que seu testemunho seria facilmente descartado como “propaganda”.
Então encontrou Yuval Abraham, jornalista investigativo israelense de Jerusalém, que se juntou à documentação munido de um privilégio invisível mas decisivo: a carteira de identidade israelense que lhe permite atravessar checkpoints, dirigir em estradas exclusivas e, crucialmente, questionar soldados em hebraico sem ser preso ou baleado.

Essa colaboração improvável — dois homens da mesma idade, separados por um abismo de direitos civis — estrutura o filme tanto formal quanto emocionalmente. Enquanto Adra corre com a câmera durante demolições, Abraham interpela comandantes militares, filmando suas justificativas burocráticas para a violência. A montagem alterna entre essas duas perspectivas: o palestino registrando a destruição de dentro, o israelense tentando obter respostas de fora. Mas a assimetria é explícita e dilacerante. Adra dorme em cavernas quando sua casa é demolida pela terceira vez; Abraham volta para Jerusalém toda noite. “Você pode ir embora quando quiser”, diz Hamdan Ballal, o terceiro diretor palestino, em um dos momentos mais tensos do filme. “Podemos continuar sendo amigos?”
A pergunta fica suspensa no ar, sem resposta fácil. Porque “Sem Chão” não oferece resoluções confortáveis. Apenas expõe a mecânica brutal de um sistema que opera em plena luz do dia, documentado quadro a quadro.
A fotografia de Rachel Szor, a quarta diretora (israelense), privilegia planos abertos do deserto pedregoso e closes sufocantes dentro das cavernas. Não há narração em off, não há música manipulativa — apenas o ronco dos bulldozers, o choro das crianças, o silêncio dos adultos que já viram suas casas serem demolidas cinco, seis, sete vezes. Uma sequência devastadora mostra uma menina de cerca de oito anos em estado de choque absoluto enquanto sua casa desmorona: o rosto crispado, a respiração arfante, o corpo paralisado. Ela não grita. Apenas olha. A câmera não desvia.
David Ehrlich, da IndieWire, deu nota A ao filme e escreveu que raramente se viu imagens dessa magnitude organizadas de forma tão concisa e contundente. Guy Lodge, da Variety, observou que seria vital mesmo em forma mais rústica, mas a realização é rigorosa e pensada. Jonathan Romney, do Screen Daily, chamou-o de urgente e revelador. A Cineuropa o colocou em terceiro lugar entre as 25 melhores obras europeias de 2024. O Rotten Tomatoes registra 100% de aprovação da crítica em 105 avaliações.
O consenso crítico, porém, não impediu a controvérsia política. Quando Abraham e Adra subiram ao palco da Berlinale em fevereiro de 2024 para receber o troféu de melhor documentário e o prêmio do público, foram francos: “Estamos diante de vocês — eu e Basel temos a mesma idade. Eu sou israelense; Basel é palestino. E em dois dias voltaremos para uma terra onde não somos iguais. Eu vivo sob lei civil e Basel sob lei militar.” A declaração provocou condenação oficial de autoridades israelenses e alemãs.
Miki Zohar, ministro da cultura de Israel, chamou a vitória no Oscar de “momento triste para o cinema mundial” e acusou o filme de sabotagem contra o Estado de Israel. Claudia Roth, ministra da cultura alemã, classificou o discurso de Berlim como “chocantemente unilateral”. Kai Wegner, prefeito de Berlim, disse que “Berlim está firmemente ao lado de Israel” e acusou a cerimônia de promover antissemitismo. Mas o coletivo nunca teve intenção de ser neutro. “Este filme é um ato de resistência no caminho para a justiça”, afirmaram em comunicado. A câmera é arma, arquivo, prova forense.

As consequências reais dessa resistência não tardaram. Em fevereiro de 2025, Basel Adra foi atacado por colonos israelenses na Cisjordânia. Em 24 de março, Hamdan Ballal foi espancado por colonos em sua casa em Susiya, deixado com ferimentos na cabeça. Quando a ambulância o transportava para tratamento, soldados das Forças de Defesa de Israel invadiram o veículo, arrancaram Ballal dos paramédicos e o detiveram por um dia antes de liberá-lo sem acusações. Mais de 800 membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas assinaram carta aberta criticando o silêncio da instituição sobre o episódio. A Academia não se pronunciou.
Em julho de 2025, Awdah Hathaleen, consultor do filme e ativista de Masafer Yatta, foi assassinado a tiros por Yinon Levi, colono israelense previamente sancionado pela União Europeia e pelos Estados Unidos por violações de direitos humanos. Levi havia sido alvo de sanções justamente por seu histórico de violência contra palestinos na região. O assassinato ocorreu enquanto Hathaleen retornava para casa após trabalhar nos campos. Não houve prisões.
“Sem Chão” desafia a fadiga da audiência em relação ao conflito Israel-Palestina ao recusar a fórmula jornalística do “dois lados”. Não há contexto histórico explicativo, não há painéis de especialistas, não há tentativa de equilibrar perspectivas. O que há é apenas o registro — metragem após metragem de demolições, expulsões, violência burocrática executada com a calma de quem cumpre ordens. A repetição não é falha narrativa; é o ponto. Isso nunca para. Isso é o método. A exaustão que o espectador sente ao assistir é uma fração microscópica da exaustão de viver sob ocupação.
Há uma cena em que Basel Adra filma um oficial israelense justificando uma demolição. O soldado cita leis, decretos militares, regulamentações de 1967 e 1980. Fala calmamente, quase educadamente. Ao fundo, um trator derruba uma casa onde uma família viveu por três gerações. A justificativa legal e a violência física acontecem simultaneamente no mesmo enquadramento. Não há corte dramático, não há música crescente apontando a ironia. Apenas a justaposição. O absurdo não precisa de sublinhar.
Outra sequência mostra colonos israelenses atacando Basel e Yuval enquanto filmam. Os colonos estão armados; os cineastas não. Yuval grita em hebraico: “Somos jornalistas! Estamos apenas filmando!” Um dos colonos responde, também em hebraico: “Não me importo. Saiam daqui.” Soldados israelenses observam a cena a poucos metros de distância. Não intervêm. Quando Yuval os interpela, um soldado dá de ombros: “Eles têm direito de estar aqui.” “E nós?”, pergunta Yuval. Silêncio.
O filme termina sem resolução porque não há resolução à vista. Masafer Yatta continua sendo demolida. Basel Adra se tornou pai em dezembro de 2024. No discurso do Oscar, ele disse: "Minha esperança para minha filha é que ela não tenha que viver a mesma vida que eu — sempre temendo violência de colonos, demolições de casas e deslocamento forçado que minha comunidade enfrenta todos os dias sob ocupação militar."
A frase carrega o peso de gerações. O pai de Basel foi preso por resistir à ocupação. Basel documenta a ocupação. A filha de Basel nasceu sob ocupação. A câmera registra tudo, mas não impede nada. Ainda assim, continua gravando.
"Sem Chão" está disponível na MUBI. A cada exibição, uma porcentagem da renda é destinada à comunidade de Masafer Yatta — para reconstruir poços d'água, instalar painéis solares, manter escolas. Infraestrutura que o exército israelense continuará demolindo e que a comunidade continuará reconstruindo.
Assistir "Sem Chão" não é confortável. Não deveria ser.
Este é um filme que exige testemunho, não entretenimento. Que documenta não para arquivar o passado, mas para preservar prova do presente — porque quando sua casa é demolida pela décima vez, quando os soldados despejam cimento no poço que seus avós cavaram, quando seus filhos crescem brincando entre escombros, o mundo precisa saber que você existiu. Que sua aldeia existiu. Que havia vida aqui antes de a zona de tiro apagar tudo.
A ironia final é que "Sem Chão" venceu o Oscar exatamente porque faz o que o cinema documental deveria fazer: tornar impossível olhar para outro lado. Não oferece alívio, não fornece contexto tranquilizador, não equilibra o horror com esperança fabricada. Apenas mostra. Quadro após quadro, demolição após demolição, ano após ano. E ao mostrar com essa insistência implacável, transforma testemunho em evidência, evidência em acusação, acusação em responsabilidade compartilhada. Porque agora você viu. E não pode dizer que não sabia.
Veja o trailer oficial:

Formada em Sociologia, Maisa Gebara exerce a função de redatora no site do Cinema Guiado desde 2026.


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