Angustiante, ‘O Agente Secreto’ revisita clássicos de paranoia

Angustiante, ‘O Agente Secreto’ revisita clássicos de paranoia

Kléber Mendonça Filho resgata estética política dos anos 1970 para criar Brasil aterrorizado pela ditadura

Quando Kléber Mendonça Filho citou recentemente filmes que influenciaram O Agente Secreto falou de Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (1970) de Elio Petri, e Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977) de Héctor Babenco. Não é apenas uma genealogia cinéfila. É a declaração de um projeto estético que funde paranoia política com terror atmosférico, ancorando o filme mais ambicioso do diretor num território novo: onde o medo difuso se torna linguagem.

Imagine uma panela de pressão cozinhando em fogo baixo por mais de duas horas. É natural esperar que, em algum momento, ela possa explodir. Kléber Mendonça Filho entende essa sensação — e controla o fogo com rigor.

Lançado mundialmente em Cannes em maio de 2025, onde conquistou os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator para Wagner Moura, O Agente Secreto se passa em Recife durante o Carnaval de 1977, nos anos finais da ditadura militar brasileira. Marcelo, um professor de tecnologia fugindo de um passado violento, chega à cidade na mesma semana em que ataques de tubarões aterrorizam a costa e Tubarão de Spielberg domina as telas de cinema. A coincidência não é acidental.

O filme de Mendonça Filho opera num registro duplo que poucos de seus antecessores norte-americanos alcançaram. Por um lado, dialoga diretamente com a paranoia política de Alan J. Pakula em A Trama (1974) e Todos os Homens do Presidente (1976) — e também com o ótimo A Conversação (1974), de Francis Ford Coppola. Filmes que traduzem a desconfiança generalizada dos anos 1970 em linguagem, usando sombras profundas, enquadramentos opressivos e narrativas labirínticas para materializar o estado mental de uma nação sitiada por intrigas, assassinatos políticos e vigilância.

‘A Trama’ (1974), de Alan J. Pakula, é um suspense investigativo inesquecível (Foto: TMDB)

Em A Trama, Warren Beatty interpreta um jornalista que infiltra a corporação Parallax, uma organização secreta de assassinos políticos, apenas para descobrir que não há saída. Em A Conversação, Gene Hackman é um especialista em vigilância cujo equipamento sofisticado se volta contra ele, dissolvendo as fronteiras entre observador e observado. Ambos os filmes capturam aquilo que o crítico Roger Ebert identificou como “a era de ouro da paranoia no cinema” — um período em que a suspeita deixou de ser patologia individual para se tornar postura racional diante de instituições corrompidas.

Mendonça Filho absorve esses códigos com fluência, mas amplia o repertório. A cinematografia da russa Evgenia Alexandrova emprega lentes anamórficas Panavision e equipamento vintage para replicar a textura visual dos anos 1970, não por nostalgia (obviamente), mas como método investigativo.

A montagem fragmentada de Matheus Farias e Eduardo Serrano espelha a estrutura de memória fraturada de regimes ditatoriais — informações censuradas, corpos desaparecidos, verdades apagadas.

O diálogo com o cinema político europeu se aprofunda através da influência de Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, onde Elio Petri desmonta a impunidade do poder através da própria forma cinematográfica. Mendonça Filho aplica lição semelhante ao retratar Recife de 1977, cidade onde autoridades operam sem qualquer freio moral.

E, ao incluir Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia na lista de obras que o influenciaram, o diretor reconhece o predecessor brasileiro que já havia filmado a corrupção policial e a violência de Estado com brutalidade documental.

Mas é na incorporação de Tubarão que o filme revela sua maior originalidade. Spielberg criou, em 1975, o modelo do thriller atmosférico moderno ao esconder o tubarão mecânico defeituoso por necessidade, transformando limitação técnica em princípio estético. O terror surge não da presença visível da criatura, mas da ameaça invisível que o tema de duas notas de John Williams anuncia. Como Spielberg observou anos depois, “o filme mudou de um terror sessão da tarde para algo mais próximo de Hitchcock — quanto menos você vê, mais você sente.”

‘Tubarão’, de Steven Spielberg, explora o clima de medo crescente diante do “não visto” (Foto: TMDB)

A invocação de Hitchcock não é gratuita. Mendonça Filho claramente estudou Intriga Internacional (1959), onde Cary Grant interpreta um homem comum arrastado para uma conspiração que não compreende, perseguido por forças invisíveis através de paisagens monumentais que amplificam sua vulnerabilidade. Wagner Moura, aliás, foi comparado pela crítica internacional a Cary Grant justamente por essa capacidade de encarnar o homem elegante sob pressão extrema, mantendo a compostura enquanto o mundo desmorona.

Em O Agente Secreto, Mendonça Filho eleva esse princípio à metáfora política. O tubarão não é apenas referência cinéfila ou contexto histórico (os ataques reais que assolaram Recife nos anos 1970, amplamente documentados no Diário de Pernambuco). É o próprio medo que a ditadura dissemina — invisível, onipresente, capaz de atacar a qualquer momento. Quando o filho de Marcelo quer assistir Tubarão nos cinemas, mas tem pesadelos com o cartaz do filme, a imagem condensa a experiência de uma criança crescendo sob regime autoritário: o terror está em toda parte, mesmo onde deveria haver diversão.

A “perna cabeluda” que assombra a cidade — baseada em reportagens reais sobre um tubarão que teria engolido uma perna humana em Recife nos anos 1970 — funciona como cortina de fumaça midiática. Enquanto a imprensa alimentava o frenési público sobre a nova “lenda urbana”, notícias censuradas sobre violência policial, corrupção e homofobia desapareciam das páginas. O sensacionalismo como estratégia de silenciamento, procedimento que Pakula já havia exposto em Todos os Homens do Presidente ao mostrar como informação pode ser tanto arma quanto blindagem.


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Diferente dos thrillers políticos americanos, porém, O Agente Secreto não oferece a catarse da revelação final. Não há um salvador desmantelando "o esquema", ou uma gravação que comprove a conspiração. Apenas um recorte de jornal com a notícia da morte de Marcelo já devidamente manipulada. O filme opera no registro do horror atmosférico porque entende que sob ditadura o terror não precisa de explicação — ele é a condição do dia a dia. É cinema sensorial antes de ser narrativo, privilegiando a textura do medo sobre a mecânica do enredo.

Essa escolha formal coloca Mendonça Filho mais próximo do cinema de gênero europeu dos anos 1970 do que do suspense americano de resolução clara. A paranoia aqui não se resolve; ela se perpetua nas pesquisas das jovens historiadoras que, no presente do filme, tentam reconstruir a história através de fitas de áudio. A ditadura termina, mas seus fantasmas rondam indefinidamente, como em A Conversação, onde Gene Hackman destrói o próprio apartamento procurando microfones que talvez nunca tenham existido em uma cena que me dá arrepios até hoje.

'A Conversação' (1974) é um dos melhores filmes de Francis Ford Coppola (Foto: Vitrine Filmes)

A revista britânica The Economist elegeu O Agente Secreto como destaque do ano, enquanto o Film at Lincoln Center o descreveu como "épico metamórfico" que explora "a relação turbulenta do Brasil com a memória." O Rotten Tomatoes registra aprovação esmagadora, com consenso destacando como Mendonça Filho "revive o espírito do cinema dos anos 1970 e dos thrillers paranóicos de forma inventiva."

Com 158 minutos de duração, o filme pede imersão. Não é entretenimento passivo, mas experiência que demanda presença. As cenas se alongam deliberadamente, obrigando o espectador a experimentar o calor úmido de Recife, a ansiedade crescente de Marcelo, a opressão estrutural do período, o clima de medo. Mas não pense que a lentidão é indulgência, pelo contrário, é fidelidade à textura do real, procedimento que De Palma também empregou em Um Tiro na Noite ao filmar em planos-sequência intermináveis que transformam a observação em tortura.

Ao fundir a paranoia política, o horror atmosférico e a metáfora do tubarão, Kléber Mendonça Filho não apenas revisita os grandes thrillers dos anos 1970, mas os reimagina no contexto brasileiro, onde o medo não vinha de organizações secretas abstratas, mas do Estado enquanto máquina de moer gente. E onde o maior terror, como em Spielberg, é aquilo que permanece sob a superfície — invisível, mortal e implacável.

Ficha Técnica

Título: O Agente Secreto (2025)
Roteiro e Direção: Kléber Mendonça Filho
Duração: 160 min
Gênero: Drama
Distribuição: Vitrine Filmes
Onde Assistir: Nos Cinemas

Avaliação:


Veja o trailer do filme:

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