Valor Sentimental: Joachim Trier faz seu filme mais pessoal e devastador

Valor Sentimental: Joachim Trier faz seu filme mais pessoal e devastador

Vencedor do Grand Prix em Cannes, o drama norueguês com Stellan Skarsgård e Renate Reinsve transforma desconforto em linguagem

O sexto longa-metragem de Joachim Trier consolida o diretor norueguês como uma das vozes mais singulares do cinema contemporâneo. Após o sucesso de A Pior Pessoa do Mundo (2021), que rendeu à Renate Reinsve o prêmio de melhor atriz em Cannes e uma indicação ao Oscar de roteiro original, Trier poderia ter repetido a fórmula. Mas ele escolheu arriscar.

A ousadia valeu o Grand Prix no Festival de Cannes 2025 — a primeira vez que um filme norueguês recebe o prêmio — e uma ovação de 19 minutos, a mais longa do festival em quase duas décadas.

Valor Sentimental acompanha as irmãs Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) no reencontro com o pai distante, Gustav Borg (Stellan Skarsgård), um cineasta outrora celebrado que tenta ressuscitar a carreira.

Gustav oferece à Nora, que é uma ótima e celebrada atriz de teatro, o papel principal em seu novo filme — um projeto autobiográfico inspirado na própria mãe, integrante da resistência norueguesa durante a ocupação nazista, que se suicidou na casa da família quando Gustav tinha sete anos. Mas Nora recusa.

Gustav escala em seu lugar Rachel Kemp (Elle Fanning), uma estrela de Hollywood cuja presença desestabiliza ainda mais a já frágil dinâmica familiar.

‘Valor Sentimental’ é um forte candidato ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026 (Foto: Retrato Filmes)

A gramática da ausência

Trier construiu sua filmografia inteira em cima de personagens que não conseguem dizer o que sentem. Desde Reprise (2006), passando pelo devastador Oslo, 31 de Agosto (2011) até a leveza agridoce de A Pior Pessoa do Mundo, seu cinema investiga o espaço entre o que queremos dizer e o que efetivamente conseguimos.

Valor Sentimental é a síntese mais refinada dessa obsessão — e também a mais pessoal. O filme nasceu quando a mãe de Trier decidiu vender a casa da família, construída pelo bisavô do diretor em 1905. Em entrevista à Screen Daily, Trier explicou: “Minha mãe estava vendendo a casa da família construída pelo meu tataravô em 1905, e me senti atraído pela ideia do luto herdado, do trauma familiar.”

Para o co-roteirista Eskil Vogt, a casa tornou-se a peça que faltava ao roteiro: “Pensamos: ‘Hmm, aquilo que estávamos procurando, que pudesse dar essa outra perspectiva sobre essa história humana e nos lembrar de como nossas vidas são ridiculamente curtas, poderia ser essa casa.'”

Os personagens orbitam uns aos outros em aproximações hesitantes, conversas interrompidas, gestos que ficam suspensos. Em entrevista à Letterboxd, Trier descreveu o tom do filme: “É sobre alguém lidando com um luto inarticulado de desconexão dentro de uma família, e como eles se movem ao redor uns dos outros tentando encontrar uma linguagem fílmica para rastrear isso sem que seja dito literalmente em palavras.”

Quando a forma sustenta o drama

A fotografia de Kasper Tuxen aposta em tons frios, luz natural filtrada por janelas nórdicas, espaços amplos que ressaltam o isolamento dos personagens. A casa da família — cenário central do filme — funciona quase como um personagem.

Como Trier explicou à Little White Lies: “Quando lembramos, precisamos de uma arena, um palco para a memória. Você pode se lembrar de um momento da sua vida em qualquer lugar onde cresceu, e talvez não lembre em que ordem aconteceu, mas tem um sentimento da situação. Esse sentimento, para mim, está muito frequentemente conectado ao espaço.”

A trilha de Hania Rani, pianista e compositora polonesa em sua primeira colaboração com Trier, complementa a narrativa. Em entrevista ao site RogerEbert, Trier descreveu o processo: “Hania Rani foi nossa compositora maravilhosa; essa foi a primeira colaboração que tive com ela. Ela quis ir à casa e gravar sua reverberação e outras qualidades sonoras, o que, para mim, foi fascinante. Nunca tive ninguém que pensasse assim.”

Stellan Skarsgård e o peso de uma vida

Trier escreveu o filme pensando em dois atores específicos. Como declarou à IndieWire: “Escrevi este filme para dois atores. São Renate Reinsve e Skarsgård.”

Sobre o personagem de Gustav, Trier ofereceu uma leitura generosa: “Quando ele propõe a Nora estrelar seu filme, não cai bem. É a única forma dele tentar se conectar. Se você olhar do ponto de vista dela, ela está de luto pela mãe e precisa de um pai, e ele está oferecendo um emprego.

‘Valor Sentimental’ é um forte candidato ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026 (Foto: Retrato Filmes)

Mas se você olhar de perto, é um homem desajeitado, sem linguagem emotiva, que está tentando desesperadamente se conectar com a filha que ama. Então essa é a tristeza da coisa.”

Reinsve confirma o que já havia demonstrado em A Pior Pessoa do Mundo: é uma das atrizes mais talentosas de sua geração. Em entrevista ao Emory Wheel, Trier e Vogt explicaram por que o tema da reconciliação familiar os atraiu: “É uma aposta alta para nós, porque estamos tentando falar sobre coisas humanas muito, muito fundamentais. A reconciliação pode ser algo que conseguimos alcançar com pais que talvez não nos deram tudo o que desejávamos?”


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A herança do trauma

O filme carrega peso autobiográfico considerável. O avô materno de Trier, Erik Løchen, foi um dos cineastas mais conhecidos da Noruega e também músico de jazz. Durante a Segunda Guerra, integrou a resistência norueguesa, foi capturado e passou muito tempo em campos de trabalho nazistas.

Trier contou à IndieWire: "Meu avô, Erik Løchen, foi diretor de cinema e concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1960. E ele criou arte. Eu o conheci quando criança. Ele morreu quando eu tinha nove anos."

Essa herança se reflete no filme. Como Trier explicou à Esquire: "Meus dois avós, de ambos os lados, foram bastante traumatizados pela Segunda Guerra Mundial, e lembro da minha avó dizendo: 'Há algumas coisas na vida sobre as quais não adianta falar.'"

O que permanece

Em Cannes, Trier declarou que "ternura é o novo punk" — e dobrou a aposta em entrevista à Screen Daily: "Venho de um contexto contracultural punk. Eu era rebelde e irritado. Sim, o mundo é complicado, e as pessoas têm o direito de gritar e berrar agora, mas o que também quero nutrir é uma ideia diferente de ouvir uns aos outros, de ser terno. Talvez possamos nos reconciliar. Talvez não precisemos nos odiar, mesmo que discordemos."

À Euronews, ofereceu uma reflexão sobre o meio: "Cinema é uma forma de memória. Você registra um momento, depois anos passam: você muda, mas o filme permanece o mesmo. É como estabelecer um diálogo entre passado e presente. A elasticidade do tempo é um dos aspectos mais fascinantes da narrativa. Às vezes você estica um momento, às vezes corta. A lacuna entre o que é mostrado e o que não é — essa é a narrativa em si."

Valor Sentimental tem 97% de aprovação no Rotten Tomatoes. No Metacritic, alcançou 87 pontos — "aclamação universal". O consenso dos críticos resume: "Explorando habilmente a tensão desconfortável entre expressão artística e conexão pessoal, Valor Sentimental é uma obra admiravelmente madura do roteirista e diretor Joachim Trier, com atuações maravilhosas em todo o elenco."

O filme recebeu oito indicações ao Globo de Ouro 2026 — a segunda maior contagem do ano, atrás apenas de Uma Batalha Após a Outra —, incluindo Melhor Filme Dramático, Melhor Diretor para Trier, Melhor Roteiro para Trier e Vogt, e indicações de atuação para Reinsve, Skarsgård, Lilleaas e Fanning. Foi selecionado como representante da Noruega ao Oscar de Melhor Filme Internacional.

Joachim Trier entrega seu trabalho mais maduro, mais corajoso, mais necessário. Um filme que entende que, às vezes, o maior ato de amor é simplesmente ficar, mesmo sem saber o que dizer.

Ficha Técnica

Valor Sentimental (2025)
Roteiro e Direção: Joachim Trier
Co-roteiro: Eskil Vogt
Elenco: Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas, Elle Fanning, Anders Danielsen Lie
Fotografia: Kasper Tuxen
Trilha Sonora: Hania Rani
Duração: 135 min
Gênero: Drama
Distribuição: MUBI
Onde Assistir: Em cartaz nos cinemas

Avaliação:

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