Pessoas extremamente inteligentes nem sempre são pessoas. Em Criaturas Extraordinariamente Brilhantes, Sally Field é uma viúva que encontra companhia num polvo sábio e em um músico à deriva.
Tova Sullivan limpa o aquário de uma cidadezinha dos Estados Unidos toda noite, sozinha, depois que todo mundo vai embora. É viúva. Perdeu o filho Erik anos atrás, o marido há pouco. Continua limpando porque o trabalho é a única rotina que o luto lhe permitiu manter. E numa dessas noites, enquanto passa o rodo nos corredores vazios, descobre que o polvo de um dos tanques fugiu. Segue o rastro de água pelo chão, encontra o bicho, tenta devolvê-lo, escorrega e se machuca.
Criaturas Extraordinariamente Brilhantes (Remarkably Bright Creatures, 2026) é o drama norte-americano que ganhou o Emmy de melhor filme para TV em setembro de 2026, concorrendo contra quatro produções de peso.
O filme é uma adaptação do romance de estreia de Shelby Van Pelt, publicado em 2022, que ficou mais de 64 semanas na lista de mais vendidos do New York Times e vendeu mais de dois milhões de exemplares.
A trama se passa em Sowell Bay, cidade fictícia no estado de Washington, na costa noroeste dos Estados Unidos. Tova (Sally Field) trabalha como faxineira noturna do aquário local, embora as amigas e até o empregador insistam que ela deveria se aposentar. Seu círculo social se resume às Knitwits, um grupo de tricô cujas integrantes dedicam mais tempo à fofoca que à agulha. O vazio que Tova carrega é grande, mas ela segue com uma disciplina silenciosa, esfregando os pisos que já conhece de cor.
O companheiro mais constante dessas noites é Marcellus, um polvo-gigante-do-Pacífico idoso que vive num tanque do aquário. Marcellus observa os funcionários, decora seus horários, tenta escapar sempre que pode. E narra o filme: é dele a voz que comenta, julga e, ao final, entrega a frase que dá título à história. Alfred Molina, que dá voz ao personagem, imprime um humor seco e uma curiosidade meio impaciente que dão a Marcellus uma presença real, como se ele fosse o morador mais velho e mais lúcido daquela cidade.
Quando Tova se machuca e precisa se afastar, seu substituto temporário é Cameron Cassmore (Lewis Pullman), um rapaz na casa dos trinta que chegou à cidade com a van da mãe recém-falecida quebrada e sem dinheiro para o conserto. Cameron é músico, toca numa banda, e está à deriva no sentido mais concreto da palavra: sem direção, sem laços, sem perspectiva.
Tova aparece no aquário antes do previsto, repreende Cameron pelo desleixo e ensina a ele onde passar o rodo, como cuidar dos tanques, por que o chão do corredor do polvo tem que estar sempre seco. Essa convivência (incômoda, depois afetuosa) abre espaço para uma ligação que nenhum dos dois previa. Cameron carrega um mistério sobre o pai que nunca conheceu: um anel encontrado entre os pertences da mãe, com iniciais gravadas, se torna a pista central de uma busca que reconecta o passado de Tova ao presente dele.

O tom do filme equilibra calor e franqueza. Marcellus observa a gentileza de Tova com o mesmo rigor com que estuda a rota de fuga para a porta dos fundos. A produção filmou horas de material com Agnetha, um polvo-gigante real do Aquário de Vancouver, e combinou essas imagens com efeitos digitais. A diretora Olivia Newman disse que o objetivo era tornar impossível distinguir o que é real do que é fabricado. Funciona: Marcellus tem peso em cena, e a câmera o trata com o mesmo cuidado que dedica a Sally Field.
Newman dirigiu anteriormente Um Lugar Bem Longe Daqui (Where the Crawdads Sing, 2022) e assina também o roteiro ao lado de John Whittington. Sally Field, duas vezes vencedora do Oscar de melhor atriz, aceitou aqui seu primeiro papel de protagonista em anos. Aos 79 anos, Field entrega gestos contidos e fragilidade visível, o tipo de atuação que carrega o filme sem forçar.
Na cerimônia do Emmy de 2026, Field levou o prêmio de melhor atriz em minissérie ou filme para TV, o quarto Emmy da carreira. O primeiro veio por Sybil, em 1977, na mesma categoria, quase cinquenta anos atrás. Lewis Pullman, que o público conhece de Top Gun: Maverick (2022), vive um rapaz que alterna entre a passividade e a teimosia de quem tem medo de se fixar.
No Rotten Tomatoes, Criaturas Extraordinariamente Brilhantes alcançou 85% de aprovação da crítica com 73 avaliações e o selo Certified Fresh, além de 90% de aprovação do público. O consenso do site destaca a atuação de Field como âncora de um drama que emociona com contenção. Na premiação do Emmy, o filme venceu a categoria de melhor filme para TV no Creative Arts Emmy em 6 de setembro de 2026.
Uma semana depois, Field levou o Emmy de melhor atriz, totalizando duas estatuetas para o filme. Criaturas Extraordinariamente Brilhantes também ganhou o Astra TV Award de melhor telefilme, e Field venceu como melhor atriz na mesma cerimônia.
O coração de Criaturas Extraordinariamente Brilhantes é a descoberta de que família se constrói, às vezes, sem aviso ou parentesco de sangue. Tova e Cameron chegam ao filme carregando lutos diferentes, e o que os aproxima é um polvo que enxerga nos humanos o que eles, distraídos pela própria dor, deixaram de perceber.
O filme está disponível na Netflix.
Confira o trailer:
Conteúdo produzido pela equipe de jornalismo e colaboradores do Cinema Guiado. Nossa missão é trazer informações apuradas, checadas e analisadas com precisão, transparência e isenção, cobrindo os fatos que moldam o cenário atual.
