Em O Homem dos Sussurros, um escritor viúvo precisa recorrer ao próprio pai, um detetive aposentado, quando seu filho de oito anos desaparece em circunstâncias suspeitas.
O suspense estadunidense O Homem dos Sussurros (The Whisper Man) chegou à Netflix com um elenco que justifica qualquer sessão: Robert De Niro, Adam Scott, Michelle Monaghan e Michael Keaton. A adaptação do romance homônimo de Alex North, best-seller do New York Times publicado em 2019, é dirigida por James Ashcroft. O roteiro ficou a cargo de Ben Jacoby, que escreveu A Primeira Profecia (2024), e Chase Palmer, um dos roteiristas de It: A Coisa (2017).
A premissa é direta e funciona como anzol. Tom Kennedy (Adam Scott) é um escritor de romances policiais que acaba de perder a esposa. Em busca de recomeço, ele se muda com o filho de oito anos, Jake (Acston Luca Porto), para a pequena cidade de Featherbank, onde cresceu. O que Tom desconhece é que Featherbank guarda uma história sombria: vinte anos antes, um assassino em série apelidado de “O Homem dos Sussurros” aterrorizou a cidade, atraindo crianças até suas portas por meio de uma cantilena assustadora.
O assassino foi preso pelo detetive Pete Willis, que é justamente o pai de Tom, e de quem ele está afastado há anos. Quando Jake desaparece e as circunstâncias do crime evocam o caso original, Tom é obrigado a procurar Pete (De Niro) e enfrentar o que ficou entre eles. A detetive Amanda Beck (Michelle Monaghan), que investiga o caso, encontra semelhanças perturbadoras entre o novo desaparecimento e os assassinatos antigos, e a pergunta que move o filme é dupla: o verdadeiro culpado está mesmo preso, ou havia um cúmplice que nunca foi encontrado?
O filme se inscreve com clareza no território do thriller policial dos anos 1990, aquele que mistura procedimento investigativo, tensão psicológica e um vilão carismático atrás das grades. Vários críticos apontaram as semelhanças com O Silêncio dos Inocentes (1991), Zodíaco (2007) e O Colecionador de Ossos (1999), e essas referências não são acidentais.
A escolha do diretor reforça isso: James Ashcroft é um cineasta que trabalha bem com espaços claustrofóbicos e com a escalada de tensão entre personagens confinados, e o roteiro de O Homem dos Sussurros oferece exatamente esse tipo de atmosfera. Nos bastidores, a fotografia é de Peter Deming, profissional com passagem por Mulholland Drive (2001) e Twin Peaks: The Return (2017), e a montagem é de Christopher Tellefsen.
A recepção da crítica, porém, não tem sido boa. No Metacritic, o filme tem nota 64 com base em dez avaliações. No Rotten Tomatoes, com cerca de trinta críticas contabilizadas no dia da estreia, a aprovação não passa de 41%.
Do lado favorável, a Deadline classificou o filme como um thriller de execução pulsante, elogiou o ritmo ágil e destacou as atuações. O Wall Street Journal dedicou elogios enfáticos à presença de Michael Keaton. Mary McNamara, do Los Angeles Times, escreveu que o arco emocional das relações entre pai e filho eleva o filme acima dos limites do gênero. Do lado mais duro, Brian Tallerico, do RogerEbert.com, lamentou que o roteiro abafa o potencial do elenco. Já Benjamin Lee, do The Guardian, escreveu que o filme promete um destino surpreendente e acaba entregando algo previsível.
Apesar da divisão, há um ponto em que a crítica converge: as atuações sustentam o filme mesmo quando o roteiro vacila. Adam Scott é o grande destaque. Conhecido pelo protagonista de Ruptura (Severance, 2022–), Scott apresenta uma vulnerabilidade bastante controlada no papel de Tom Kennedy, equilibrando luto, culpa e uma raiva contida.
De Niro, num papel que pede mais contenção do que explosão, entrega um Pete Willis cansado, lacônico, carregando remorso e afeto em mesma medida. As cenas entre os dois compõem a espinha emocional do filme: um pai que quer se reaproximar e um filho que aceita sua ajuda apenas como transação.
É nesse atrito, mais do que na investigação policial em si, que O Homem dos Sussurros encontra seu terreno mais firme. Keaton, cujo papel a Netflix pediu que os críticos não detalhassem nas prévias, aparece em tela com uma energia que muda o registro do filme quando entra em cena.
O que observar, então, é menos o mistério central e mais a forma como Ashcroft usa a investigação como pretexto para dois dramas paralelos de paternidade: um pai tentando salvar o filho, e outro tentando reconquistar o seu.
A fotografia de Deming trabalha com tons frios, em paletas de marrom e azul-acinzentado, criando uma atmosfera que não depende de sustos baratos. A cidade de Featherbank funciona como espaço de memória e de ameaça ao mesmo tempo, e Ashcroft sustenta a tensão de forma eficiente ao longo de quase duas horas.
Há momentos em que o roteiro recorre a soluções convenientes, como uma subtrama envolvendo um colecionador de memorabília criminal (Hamish Linklater) que ajuda o enredo a avançar mas força a credibilidade. Ainda assim, para quem gosta do gênero, o filme cumpre o serviço com competência e tem elenco de sobra para sustentar a sessão.
O Homem dos Sussurros está disponível na Netflix.
Confira o trailer:

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