Na abertura de Os Infiltrados, de 2006, o roteirista William Monahan, vencedor do Oscar, não perde tempo e mostra exatamente que tipo de mundo o espectador está prestes a habitar através do monólogo de Frank Costello, vivido por Jack Nicholson.
Vamos analisar as técnicas de roteiro por trás dessa abertura certeira.
O filme começa com imagens de arquivo dos tumultos de protestos escolares em Boston, nos anos 1960, estabelecendo de imediato um pano de fundo real de colapso estrutural e ira social. Vemos ali um nível de caos instalado na cidade.
Então a voz rouca e icônica de Nicholson corta a trilha sonora:
“Eu não quero ser produto do meu ambiente. Quero que meu ambiente seja produto de mim.”
Pense em como funciona a maioria dos filmes de crime. Geralmente, o protagonista ou o antagonista justifica sua vida criminosa culpando o ambiente ao redor.
Isso remonta aos clássicos filmes de gângster, em que era preciso mostrar o criminoso como inimigo público ou matá-lo no fim, para que a justiça prevalecesse.
Mas este é um filme de crime moderno — e por isso pode inverter essa lógica.
Costello enquadra sua criminalidade não como mecanismo de sobrevivência, mas como um ato de vontade absoluta e aterrorizante.
Todo aquele caos que vemos? É ele. É Costello quem dá as ordens e alimenta a hostilidade. É exatamente quem ele é, por completo.
No nível estrutural do roteiro, isso avisa de imediato ao público que esse personagem não é apenas mais um chefão local: ele se enxerga como Deus.
Evidenciando o mecanismo da corrupção
Enquanto o monólogo continua, Scorsese corta para um jovem Colin Sullivan (Matt Damon) sentado no balcão de uma lanchonete. Costello entra, envolto em sombras, e começa a aliciar o garoto. Entrega a ele gibis, algum dinheiro, e afaga sua cabeça.
“Anos atrás eles tinham a Igreja. Isso era só uma forma de dizer que tínhamos um ao outro. Há 20 anos você conseguia virar policial em Boston. Se quisesse isso, era uma boa vida. Mas o que tínhamos era diferente, estava infiltrado por dentro. É o custo de fazer negócios.”
Aqui temos uma progressão de poder: Costello aparece como a ponte entre os pilares tradicionais da comunidade. Ele tem tanto a igreja quanto a polícia no bolso. E quem quiser decidir o próprio destino precisa fazer isso com ele do seu lado.
Quando entrega a frase crucial, “Isso é o custo de fazer negócios”, Costello arranca qualquer noção romantizada, à la O Poderoso Chefão, de “honra” ou “família” no crime organizado. Esse cara comanda uma corporação fria.
Abrir um filme com voz em OFF pode, às vezes, soar como despejo de informação — mas quando serve para estabelecer uma tese sobre como o poder realmente opera naquele universo, prende o público pelo pescoço.
E não solta mais até o fim do filme.

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