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8 filmes de superação baseados em fatos reais para ver no streaming

De um incêndio no Arizona à sala de cálculos da NASA, oito filmes sobre pessoas comuns diante de uma força maior que elas.

O selo “baseado em fatos reais” vende bem porque promete uma garantia estranha: por pior que a história fique, alguém atravessou aquilo. O que os oito filmes desta lista têm em comum vai além do selo de “fatos reais”. Em todos eles, uma pessoa se vê diante de uma força maior do que ela, e essa força muda de natureza a cada história. Às vezes é o fogo, o mar, um urso, uma seca. Às vezes é um sistema legal inteiro construído para transformar pessoas em propriedade, ou uma repartição pública que decide quem pode usar qual banheiro.

O que se repete é a posição em que o protagonista fica: sem poder mudar a regra do jogo, precisando encontrar uma saída dentro dela. Alguns conseguem. Outros não, e o filme continua sendo grande por isso.

Estão todos disponíveis para ver hoje nos streamings.

8.

Homens de Coragem (2017)

Homens de Coragem
Disponível na Netflix

Eric Marsh (Josh Brolin) comanda uma equipe municipal de bombeiros em Prescott, no Arizona, e persegue uma certificação que ainda nenhuma corporação municipal do país havia conseguido. Sem ela, seus homens ficam de escanteio quando o fogo grande aparece, apagando brasa depois que os profissionais de elite já foram embora. Marsh quer a linha de frente.

Entre os recrutas dessa virada está Brendan McDonough (Miles Teller), que chega ao treinamento recém-saído da dependência química e com uma filha recém-nascida para sustentar. Ele apanha nos primeiros testes físicos, apanha da desconfiança dos colegas, e vai ficando. Jeff Bridges aparece como Duane Steinbrink, o chefe veterano que apadrinha Marsh, e Jennifer Connelly como Amanda Marsh, casada com um homem que passa metade do ano fora de casa correndo na direção do fogo.

Kosinski filma o trabalho antes de filmar a tragédia, o que dá ao longa sua textura mais bonita: há uma sequência inteira sobre a equipe cavando à mão para salvar uma árvore centenária, e ela é tratada com o mesmo cuidado das cenas de risco. No Rotten Tomatoes, o drama tem 87% de aprovação entre 163 críticas, com elogios ao elenco veterano e à sobriedade da reconstituição.

Tudo converge para o incêndio de Yarnell Hill, em junho de 2013, o episódio que tornou os Granite Mountain Hotshots conhecidos nos Estados Unidos inteiros pelo pior motivo possível.

Homens de Coragem está disponível na Netflix.

Pare de perder 90% do que os filmes estão comunicando. No curso Uma Luz no Fim do Filme eu te ensino a enxergar as pistas, símbolos e intenções por trás das cenas.

7.

O Regresso (2015)

O Regresso
Leonardo DiCaprio na Netflix

Década de 1820, no oeste ainda não mapeado dos Estados Unidos. Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) trabalha como batedor de uma expedição de caçadores de peles e conhece o terreno melhor que qualquer um do grupo. Numa saída de rotina, ele se coloca entre uma ursa e os filhotes dela, e o ataque que vem em seguida o deixa em pedaços, incapaz de andar ou de falar.

O grupo decide carregá-lo enquanto pode e depois paga John Fitzgerald (Tom Hardy) para ficar velando o moribundo. Fitzgerald calcula o que isso vai lhe custar, faz a conta que lhe convém, e vai embora levando os pertences de Glass. O que resta é um homem arrastando o próprio corpo por centenas de quilômetros de inverno.

Iñárritu filmou tudo com luz natural, ao lado do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, e a decisão aparece na tela: as cenas têm a claridade curta e azulada de quem dispõe de poucas horas de sol por dia. O resultado rendeu 12 indicações ao Oscar e três estatuetas, para DiCaprio como ator, Iñárritu como diretor e Lubezki na fotografia, seu terceiro prêmio consecutivo na categoria.

É o filme mais fisicamente desconfortável desta lista, e o mais silencioso. Glass passa boa parte da projeção sem conseguir emitir som.

O Regresso está disponível na Netflix.

6.

O Menino que Descobriu o Vento (2019)

O Menino que Descobriu o Vento
drama britânico com Maxwell Simba

drama britânico rodado no Malaui, estreia de Chiwetel Ejiofor na direção. Ele também interpreta Trywell Kamkwamba, o pai do protagonista.

William Kamkwamba (Maxwell Simba) tem treze anos e adora a escola. Quando a seca acaba com a colheita da família e a mensalidade deixa de caber no orçamento, ele é tirado da sala de aula e passa a rondar a biblioteca do colégio, negociando com o professor cada entrada. Num manual de física, encontra a explicação de como um dínamo gera eletricidade, e entende que pode bombear água para a plantação se conseguir montar uma turbina.

O problema é a matéria-prima. A peça que ele precisa está na bicicleta do pai, o único bem de valor da casa, e Trywell é um homem orgulhoso que enterrou a própria juventude naquela terra. A cena em que o menino tenta explicar ao pai o que vai fazer com a bicicleta vale o filme inteiro: nenhum dos dois está errado.

Adaptado do livro de memórias que o próprio Kamkwamba escreveu com Bryan Mealer, o longa estreou no Festival de Sundance e tem 86% de aprovação no Rotten Tomatoes. Ejiofor recusa a autopiedade em toda parte, mostra a fome de perto e trata a comunidade como um lugar de gente adulta tomando decisões difíceis, ao contrário do que costuma acontecer quando o cinema europeu filma a África rural.

O Menino que Descobriu o Vento está disponível na Netflix.

5.

12 Anos de Escravidão (2013)

12 Anos de Escravidão
drama histórico com Chiwetel Ejiofor

Northup (Chiwetel Ejiofor) é um homem negro livre, violinista, casado, morando com a família no estado de Nova York em 1841. Dois desconhecidos lhe oferecem um trabalho bem pago de músico numa cidade vizinha. Ele aceita, viaja, janta com eles, e acorda acorrentado num porão de Washington para ser vendido no sul do país sob outro nome.

O que vem depois não é uma história de superação, e o filme sabe disso. Northup passa doze anos tentando duas coisas ao mesmo tempo: continuar vivo, o que exige esconder que sabe ler e escrever, e continuar sendo quem era. Nas plantações de Michael Fassbender, que interpreta o senhor de escravos Edwin Epps, essas duas tarefas entram em rota de colisão quase todo dia. Lupita Nyong’o aparece como Patsey, a mulher que colhe mais algodão que qualquer homem do campo e, por isso mesmo, vive sob a obsessão do dono. O pedido mais simples que ela faz no filme, um pedaço de sabão, é o momento em que a plateia entende o tamanho do que foi tirado dela.

McQueen filma a violência em planos longos e sem corte de alívio, o que dividiu parte da crítica na época. O longa levou três Oscars, entre eles o de Melhor Filme, além dos prêmios de atriz coadjuvante para Nyong’o e de roteiro adaptado para John Ridley. Ejiofor concorreu como Melhor Ator.

12 Anos de Escravidão está disponível no Prime Video sem custo adicional.

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4.

O Último Respiro (2025)

O Último Respiro
suspense de sobrevivência com Finn Cole

Chris Lemons (Finn Cole) trabalha como mergulhador de saturação, uma das profissões mais perigosas em atividade: os mergulhadores vivem pressurizados por semanas dentro de uma câmara no navio e descem em turnos para fazer manutenção em dutos de gás no fundo do mar. Na véspera da operação, ele está planejando o casamento. No dia seguinte, desce acompanhado de Duncan Allcock (Woody Harrelson), o veterano da equipe, e de Dave Yuasa (Simu Liu), que trabalha do jeito oposto, calado e metódico.

Uma falha no sistema de posicionamento faz o navio se deslocar em plena tempestade e arrastar o sino de mergulho. O cabo que liga Lemons à embarcação se rompe a noventa metros de profundidade, e com ele vão embora o gás respirável, o aquecimento do traje e a comunicação. Sobra o cilindro de emergência nas costas dele, com poucos minutos de ar.

Parkinson conhece o material como poucos, porque dirigiu o documentário sobre o mesmo caso em 2019, e usa isso para manter a tensão presa ao procedimento em vez de inventar heroísmo. No Rotten Tomatoes o longa tem 79% de aprovação, e o consenso dos críticos destaca a eficiência com que a história é contada e a atuação de Harrelson. A ressalva mais repetida é que a estrutura segue o manual do gênero de perto.

O Último Respiro está disponível no Prime Video sem custo adicional.

3.

Lion: Uma Jornada para Casa (2016)

Lion
drama com Sunny Pawar e Dev Patel

Saroo tem cinco anos e mora numa aldeia pobre da Índia central. Numa noite, acompanha o irmão mais velho até uma estação, cansa de esperar, e cai no sono num vagão parado. Quando acorda, o trem está em movimento havia horas, com as portas trancadas, e ele desembarca em Calcutá, a mais de mil quilômetros de casa, numa cidade onde a língua falada nas ruas não é a dele. Sunny Pawar carrega toda essa primeira metade quase sem diálogo.

Depois de meses vivendo na rua e num orfanato, o menino é adotado por um casal da Tasmânia, Sue (Nicole Kidman) e John Brierley. Vinte e cinco anos mais tarde, já adulto (Dev Patel), ele começa a procurar a família biológica com a única informação que guardou da infância: o nome da cidade natal, pronunciado do jeito que uma criança de cinco anos pronunciava, que não corresponde a nenhum lugar nos mapas.

O que sustenta a segunda metade é o constrangimento de Saroo diante da mãe adotiva, o medo de que procurar a primeira família soe como rejeitar a segunda. Kidman tem uma cena curta em que resolve isso de frente, e foi indicada ao Oscar por ela. O longa recebeu seis indicações e saiu sem nenhuma estatueta, mas levou dois Bafta, para Patel como ator coadjuvante e para Luke Davies pelo roteiro adaptado. No Rotten Tomatoes, tem 91% de aprovação.

Lion: Uma Jornada para Casa está disponível no Prime Video sem custo adicional.

2.

127 Horas (2010)

127 Horas
Tom Cruise em ação na Netflix

Drama de sobrevivência britânico e estadunidense dirigido por Danny Boyle, adaptado do livro de memórias de Aron Ralston.

Ralston (James Franco) é um montanhista experiente que sai sozinho para explorar os cânions de Utah em abril de 2003. Ele não avisa ninguém para onde vai, o que no filme aparece como parte do prazer: a viagem é dele, o horário é dele, a rota é dele. No fundo de uma fenda estreita, uma pedra solta cede sob seu peso, despenca junto com ele e prende seu braço direito contra a parede de rocha.

A partir daí Boyle precisa fazer um filme inteiro com um ator parado num espaço de um metro. Ele resolve com a câmera de vídeo que Ralston tinha na mochila, e que na história real foi mesmo usada: o rapaz começa a gravar mensagens para os pais, faz piada com a própria situação, apresenta um programa de entrevistas em que é o entrevistador e o entrevistado. A vaidade que o colocou ali vai se desmanchando em tempo real.

O filme recebeu seis indicações ao Oscar, entre elas Melhor Filme e Melhor Ator para Franco, a única da carreira dele, e tem 93% de aprovação no Rotten Tomatoes. Vale saber de antemão que a sequência da decisão final foi noticiada na época por causa de espectadores que precisaram deixar a sala em sessões nos Estados Unidos e no Reino Unido.

127 Horas está disponível no Disney+.

1.

Estrelas Além do Tempo (2016)

Estrelas Além do Tempo
Taraji P. Henson – Octavia Spencer – Janelle Monáe

Drama estadunidense dirigido por Theodore Melfi, adaptado do livro de reportagem de Margot Lee Shetterly.

Início dos anos 1960, centro de pesquisas da NASA em Langley, na Virgínia. Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe) trabalham numa ala segregada, num setor chamado de computação humana, onde mulheres negras fazem à mão os cálculos que sustentam o programa espacial. Elas são as melhores no que fazem, e nenhuma delas pode assinar um relatório.

Katherine é transferida para a equipe que calcula a trajetória do voo de John Glenn, e vira a única pessoa negra da sala. O prédio não tem banheiro que ela possa usar, então ela atravessa o campus correndo várias vezes por dia, de saia e salto, carregando a pasta de trabalho para não perder tempo. Melfi filma isso com humor, o que torna a cena mais constrangedora, e não menos.

Spencer conduz a trama de Dorothy, que percebe antes de todo mundo que a chegada do computador IBM vai eliminar o setor inteiro e decide aprender a programá-lo por conta própria. Monáe cuida da história de Mary, que precisa de autorização judicial para estudar num curso técnico reservado a brancos.

O longa recebeu três indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e atriz coadjuvante para Spencer, tem 93% de aprovação no Rotten Tomatoes e foi o maior sucesso de bilheteria entre os indicados a Melhor Filme naquele ano.

Estrelas Além do Tempo está disponível no Disney+ sem custo adicional.

Oito filmes, oito forças diferentes do outro lado. Se a intenção da noite for terminar de bom humor, comece por Estrelas Além do Tempo ou por O Menino que Descobriu o Vento, que confiam na inteligência dos protagonistas e entregam a vitória que prometem.

Se a vontade for outra, O Regresso e 127 Horas cobram caro e pagam à altura. E se você tiver estômago para um único filme desta lista que recusa qualquer consolo, é 12 Anos de Escravidão, que continua sendo o melhor argumento contra a ideia de que toda história real precisa terminar em lição.

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