Capa Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)

10 filmes sobre o fim da juventude que são difíceis de ver

O peso inevitável de deixar a inocência para trás é um sentimento difícil de encarar. Ao mesmo tempo, é o que nos faz amadurecer.

A transição entre a juventude e a vida adulta é um dos períodos mais explorados pela história do cinema, mas abordar essa mudança é um convite ao desconforto. Deixar a adolescência para trás significa confrontar a consciência súbita de que o tempo avança em uma única direção. E rápido. Essa ruptura produz uma melancolia que surge quando as incertezas da infância dão lugar aos boletos do mundo real.

Longe de idealizar, os filmes desta lista capturam esta fase de ouro com honestidade, demonstrando que crescer envolve aceitar que você vai se frustras. A angústia que essas narrativas geram vem do reconhecimento de que o futuro já não é mais uma promessa abstrata, mas uma consequência concreta.

Vamos à lista!

10.

O Maravilhoso Agora (2013)

O maravilhoso agora


Sutter Keely é um estudante do último ano do ensino médio que vive no presente, ancorado no alcoolismo e na rejeição a qualquer plano para o futuro. Sua perspectiva começa a mudar quando ele conhece Aimee Finecky, uma jovem solitária e focada em suas próprias metas acadêmicas. O relacionamento impulsiona Sutter a encarar os traumas familiares causados pela ausência do pai e a perceber o impacto autodestrutivo de suas atitudes diárias.

O diretor James Ponsoldt evita convenções de dramas adolescentes tradicionais ao abordar a dependência química na juventude de forma direta. O filme demonstra que o carisma do protagonista esconde um profundo medo do fracasso e da mediocridade da vida adulta. A atuação de Miles Teller e Shailene Woodley confere realismo à produção da A24, transformando o amadurecimento em um processo doloroso de autocrítica e aceitação de limites.

Disponível na Disney+ sem cobrança adicional.

9.

Aftersun (2022)

Aftersun


Sophie relembra as férias que passou com seu pai, Calum, em um resort na Turquia, vinte anos antes, na véspera do aniversário de trinta anos dele. Através de registros caseiros de vídeo e de suas próprias memórias, ela tenta reconciliar o pai que conheceu com o homem atormentado que tentava esconder uma depressão severa atrás de sorrisos e gestos de carinho.

A diretora Charlotte Wells estreia com uma narrativa construída com delicadeza e precisão formal, vencendo o prêmio de Melhor Primeiro Longa-Metragem no Festival de Cannes. O longa expõe o fim da infância de Sophie a partir do momento em que ela começa a decodificar as fraquezas e as dores de seu progenitor. A performance de Paul Mescal, indicada ao Oscar, e a de Frankie Corio traduzem visualmente a distância intransponível entre o amor filial e a incapacidade de salvar alguém que se ama.

Disponível na MUBI.

8.

A Menina Silenciosa (2022)

A menina silenciosa


Cáit é uma criança negligenciada de nove anos que vive com sua numerosa e disfuncional família na Irlanda rural dos anos oitenta. Durante o verão, seus pais a enviam para a fazenda de parentes distantes, Eibhlín e Seán. Naquele novo ambiente, a jovem experimenta o cuidado atencioso, o respeito e o afeto pela primeira vez, descobrindo também um segredo doloroso que une aquele casal.

O cineasta Colm Bairéad constrói o filme falado em língua irlandesa, conquistando uma indicação histórica ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2023. O amadurecimento da protagonista ocorre através do contraste absoluto entre o abandono original e o acolhimento temporário. A atuação contida de Catherine Clinch sustenta a angústia da narrativa, fixada na certeza de que aquele período de paz possui uma data de término contratada pelas obrigações familiares.

Disponível no catálogo da Reserva Imovision.

7.

Boyhood: Da Infância à Juventude (2014)

Boyhood Da Infância à Juventude


Acompanhamos a vida de Mason dos seis aos dezoito anos de idade, testemunhando suas mudanças de escola, as brigas familiares, os primeiros relacionamentos e as transformações físicas. O cotidiano é registrado de maneira fragmentada, destacando os momentos banais que definem a formação de sua identidade até o dia de sua entrada na faculdade.

O diretor Richard Linklater realizou as filmagens ao longo de doze anos com o mesmo elenco, um experimento técnico inédito que rendeu à Patricia Arquette o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. O filme evita grandes cataclismos dramáticos, focando a angústia na passagem inexorável do tempo. O espectador testemunha o esvaziamento das ilusões juvenis de Mason e a melancolia de sua mãe ao perceber a rapidez com que as fases da vida se encerram.

Disponível na Telecine.

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6.

Me Chame Pelo Seu Nome (2017)

Me Chame Pelo Seu Nome


Durante o verão de 1983 no norte da Itália, Elio Perlman, um jovem músico de dezessete anos, conhece Oliver, um acadêmico norte-americano de vinte e quatro anos que hospeda-se na vila de sua família para ajudar seu pai em pesquisas arqueológicas. O despertar do desejo e a paixão mútua transformam as semanas seguintes em um período de intensidade emocional e intelectual.

O diretor Luca Guadagnino adapta o romance de André Aciman e entrega uma obra marcada pela crueza das sensações físicas e afetivas, laureada com o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado para James Ivory. O fim da juventude de Elio manifesta-se no monólogo final de seu pai, interpretado por Michael Stuhlbarg, e no plano estendido de Timothée Chalamet diante da lareira. O sofrimento do personagem reside na percepção de que a dor da perda é o preço inevitável por se ter vivido uma experiência genuína.

Disponível para Aluguel (Prime Video e Apple TV).

5.

Licorice Pizza (2021)

Licorice Pizza


Gary Valentine é um ator mirim de quinze anos, empreendedor e autoconfiante, que vive no Vale de San Fernando em 1973. Ele conhece Alana Kane, uma jovem de vinte e cinco anos que trabalha como assistente de fotógrafo e busca uma direção para sua vida adulta. A narrativa acompanha as idas e vindas dessa dupla em negócios excêntricos, audições cinematográficas e jantares políticos.

O cineasta Paul Thomas Anderson constrói uma crônica sobre o prolongamento da adolescência e a recusa em ingressar nas responsabilidades formais da maturidade. Indicado a três prêmios Oscar, o longa utiliza as atuações de Alana Haim e Cooper Hoffman para evidenciar o descompasso cronológico e emocional entre os protagonistas. A angústia emerge da urgência violenta com que ambos correm pelas ruas, tentando capturar uma juventude que se esvai rapidamente.

Disponível na MGM+, dentro do Prime Video.

4.

Mistérios da Carne (2004)

Mistérios da Carne


Brian Lackey é um jovem obcecado pela ideia de ter sido abduzido por alienígenas na infância, um evento que apagou cinco horas de sua memória. Neil McCormick é um prostituto convicto que orgulha-se de sua rotina de encontros casuais. Os caminhos de ambos cruzam-se quando Brian decide investigar o passado e descobre que Neil estava presente no mesmo time de beisebol infantil comandado por um treinador abusador.

O diretor Gregg Araki realiza uma das adaptações mais viscerais do cinema independente norte-americano, baseada no livro de Scott Heim. O amadurecimento dos personagens é interrompido e corrompido pelo trauma do abuso sexual na infância. As performances de Joseph Gordon-Levitt e Brady Corbet expõem a dor de dois adultos que precisam destruir suas fantasias de proteção para encarar a realidade da violência sofrida no passado.

Disponível na Reserva Imovision.

3.

Edukators (2004)

Os Edukadores


Jan, Peter e Jule são três jovens ativistas políticos em Berlim que protestam contra o capitalismo de forma criativa. Eles invadem mansões de empresários ricos, mudam os móveis de lugar e deixam bilhetes assinados como “Os Educadores”, afirmando que os dias de fartura dos proprietários terminaram. A situação sai do controle quando uma invasão falha e o grupo é obrigado a sequestrar um grande executivo.

O diretor austríaco Hans Weingartner comanda este drama político que concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes. O filme analisa o esvaziamento das utopias juvenis quando confrontadas com o pragmatismo da sobrevivência econômica. A convivência forçada com o refém, interpretado por Burghart Klaußner, revela que as certezas ideológicas dos jovens, vividos por Daniel Brühl e Julia Jentsch, fraturam-se diante da complexidade da vida adulta.

Disponível na MUBI.

2.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)


Leonardo é um adolescente de São Paulo que lida com a cegueira e com o superprotecionismo de seus pais. Sua rotina escolar e a relação com sua melhor amiga, Giovana, modificam-se completamente após a chegada de Gabriel, um novo aluno na instituição de ensino. A convivência com o recém-chegado desperta em Leonardo sentimentos amorosos e o desejo latente de buscar sua independência e estudar no exterior.

O diretor Daniel Ribeiro expande seu curta-metragem premiado e entrega um longa que venceu o prêmio FIPRESCI na mostra Panorama do Festival de Berlim. O filme aborda o rito de passagem com sensibilidade, focando nos atritos necessários para o desprendimento familiar. O desempenho de Ghilherme Lobo, Fabio Audi e Tess Amorim capta a aflição e a beleza de assumir o controle da própria trajetória afetiva.

Disponível na Globoplay.

1.

As Melhores Coisas do Mundo (2010)

As Melhores Coisas do Mundo

Mano é um jovem de quinze anos que enfrenta os desafios habituais da classe média paulistana, como o desejo de aprender a tocar guitarra, as dinâmicas escolares e a busca pela primeira relação sexual. Sua estabilidade é abalada quando seus pais se separam após o pai revelar sua homossexualidade. A partir desse evento, Mano e seu irmão mais velho precisam lidar com o preconceito dos colegas e com a desestruturação do lar.

A diretora Laís Bodanzky constrói o filme com base na série literária de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto, conquistando oito prêmios no festival Cine PE. O roteiro de Luiz Bolognesi recusa caricaturas ao retratar a dor do crescimento urbano no Brasil. A atuação de Francisco Miguez traduz a angústia de um adolescente obrigado a amadurecer precocemente para amparar as fragilidades dos adultos ao seu redor, consolidando a obra como uma referência do gênero.

A experiência de assistir a essas obras reside na recusa do escapismo.

Disponível na Globoplay.

O fim da juventude nunca ocorre de forma pacífica, consistindo em um acúmulo de perdas que moldam a entrada no mundo adulto. Os diretores listados aqui compreendem que a angústia é um componente legítimo desse processo, e usam as ferramentas do cinema para registrar a beleza e a crueza desse rito de passagem.

Veja hoje antes que sumam.

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