Disponível no Prime Video, o épico de Brady Corbet tem 3h35 de duração, três Oscars e uma arquitetura narrativa que não sustenta o próprio peso.
O Brutalista
Direção: Brady Corbet
Disponível: Prime Video
Avaliação: ★ ★ ☆ ☆ ☆ (2/5)
Aviso: O texto a seguir contém spoilers de O Brutalista.
Existe, a meu ver, um teste simples para avaliar um filme sobre um gênio: ele precisa mostrar o gênio criando. Não basta declarar a grandeza, é preciso produzi-la em cena, deixar o espectador capturar de onde ela vem. O Brutalista, de Brady Corbet, falha nesse teste de maneira tão sistemática que a falha começa a parecer intencional. Só que não é.
László Tóth (Adrien Brody) é apresentado como um arquiteto visionário, pioneiro do brutalismo, sobrevivente do Holocausto reconstruindo a vida nos Estados Unidos do pós-guerra. O problema é que o filme narra sua trajetória sem mostrar o que torna sua arquitetura tão notável. As obras surgem mencionadas, debatidas, admiradas por outros personagens — mas a câmera não chega a enquadrá-las. Em 3h35 de duração, o espectador sai sem referências visuais que justifiquem a reverência do roteiro.
Esse é o embuste central de O Brutalista: ele pede ao público que acredite no que não demonstra. A obra é monumental porque a trilha sonora — vencedora do Oscar 2025, de Daniel Blumberg — engrossa quando alguém a descreve. A câmera em VistaVision 35mm, fotografada por Lol Crawley (também premiado em março de 2025), é formalmente impecável. Só que forma sem conteúdo é embalagem.
O crítico uruguaio Nicolás Medina San Martín, jurado FIPRESCI dos festivais de Cannes e Berlim, chegou a uma conclusão parecida: para ele, O Brutalista é mais interessante em sua carcaça do que em seu conteúdo, um projeto que prioriza o impacto visual sobre o desenvolvimento dos personagens e deixa seus temas mais promissores — identidade, imigração, antissemitismo — tratados de forma superficial, como referências simbólicas em vez de fios narrativos reais.
O Cinema Guiado publica análises e artigos sobre cinema todos os dias, com o olhar de quem enxerga além da história. Assine a newsletter e receba esse conteúdo no seu e-mail.

A segunda metade do filme perde coesão ao abandonar o ponto de vista exclusivo de Tóth, diluindo o que parecia uma meditação sobre o custo da ambição numa série de subtramas sem profundidade suficiente para sustentar o peso do tema. O diagnóstico dele é certeiro: a fotografia de Lol Crawley em VistaVision entrega imagens de clareza impressionante, mas essas imagens se sentem desconectadas do desenvolvimento emocional dos personagens — beleza técnica funcionando como substituto de conteúdo dramático.
A crítica de cinema Diana Tuova tem opinião similar, em texto publicado em setembro de 2025 no site Spotlight on Film
Ela defende que o filme confunde imagem com significado. “É visualmente intrigante, mas historicamente vazio e narrativamente manipulador, com personagens que são caricaturas sem nuance — não pessoas reais.” Segundo Tuova, László é reduzido a um saco de pancadas narrativo. Tuova reclama que em mais de três horas não há uma única cena quieta onde o espectador possa conectar com o personagem como ser humano comum — ele sempre aparece como vítima, gênio incompreendido ou objeto de manipulação emocional.
O ponto mais contundente da crítica. Para Tuova, o tratamento da guerra e do trauma é uma afronta: eventos que custaram 85 milhões de vidas são reduzidos a um desconforto durante um jantar ou uma conversa de preliminar sexual. A revelação final — de que o centro comunitário foi construído para evocar os aposentos de um campo de concentração — ela chama de farsa e insulto. Concluindo que o filme sofre do mesmo mal que diagnostica — excesso visual, carência de profundidade e, acima de tudo, falta de nuance emocional.

O mecenas Harrison Lee Van Buren (Guy Pearce) deveria funcionar como antagonista e espelho (o capital corruptor enfrentando a integridade artística). É uma oposição clássica, fértil, com décadas de filmes provando que funciona. Aqui ela murcha porque Van Buren é escrito como um vilão de contornos vagos, motivado por humores que o roteiro não ancora. Quando o confronto entre os dois explode, a cena tem intensidade superficial, do tipo que desaparece no instante em que a cena acaba m.
Felicity Jones interpreta Erzsébet, esposa de Tóth, e carrega alguns dos únicos momentos em que O Brutalista parece habitar um mundo real. Mas o roteiro de Corbet e Mona Fastvold a mantém à margem por tanto tempo que sua chegada tardia na narrativa funciona mais como alívio estrutural do que como desenvolvimento dramático. Ela existe para dar textura emocional a um filme que, sem ela, seria apenas homens discutindo abstrações.
A duração de 3h35 não seria problema se o filme soubesse o que fazer com o tempo. Jeanne Dielman tem mais de três horas e cada minuto é carregado de significado. O Brutalista usa suas horas para repetir gestos: Tóth sofre, recai no vício, é incompreendido, recomeça. O ciclo se repete sem aprofundamento.
O Oscar de Melhor Ator para Brody é injustificado, mesmo inteiramente presente, físico, comprometido, a performance do ator não dá conta de resolver um personagem definido por sofrimento acumulado, não por inteligência demonstrada. Brody interpreta a dor de um gênio com convicção, só que o gênio em si não parece real.

O Brutalista passou pela temporada de premiações de 2025 como favorito e saiu com três estatuetas. Isso diz mais sobre a predileção da Academia por épicos de aparência pomposa do que sobre a qualidade do filme. As imagens são bonitas, o elenco é sólido, a ambição está declarada em cada quadro. O brutalismo, como movimento, pregava honestidade crua e funcionalidade radical. O filme que leva seu nome faz o oposto: usa a estética como fachada imponente, deixando o interior completamente vazio.
Gostou da crítica? O Cinema Guiado publica análises e artigos sobre cinema todos os dias, com o olhar de quem enxerga além da história. Assine a newsletter e receba esse conteúdo no seu e-mail.
Não tem Prime Video? Ganhe 30 dias grátis clicando neste link. E você ainda ouve milhões de música no Amazon Music Prime sem anúncios e acessa um catálogo rotativo com milhares de eBooks e revistas no Prime Reading sem custo adicional.

Formado em Cinema pela FAAP, Herbert Bianchi é um fervoroso defensor de filmes lentos. Sua experiência morando em Budapeste — perto do cinema de Béla Tarr e das paisagens de Tarkovsky — o levou a fundar o Cinema Guiado em 2023, plataforma onde exerce a nobre função de tradutor do que os filmes comunicam sem dizer.
