Crítica | ‘A Noiva!’ desperdiça talento explosivo de Jessie Buckley

A Noiva! tem Jessie Buckley em modo explosivo e Christian Bale em caracterização intrigante, mas o roteiro disperso de Maggie Gyllenhaal empilha ideias sem apostar de fato em nenhuma. Resultado: 126 minutos de potencial desperdiçado.


Maggie Gyllenhaal conta que a fagulha para A Noiva! veio de uma descoberta simples: ao assistir à Noiva de Frankenstein de 1935, ela percebeu que a personagem-título aparece por apenas dois minutos e não diz uma palavra sequer. A partir daí, a diretora decidiu dar voz, memória e raiva a essa figura silenciada.

A premissa é boa — e é exatamente por isso que o resultado final dói tanto. A Noiva! é um filme que não sabe onde quer chegar e tropeça em praticamente cada passo que dá.

A obra se passa em Chicago, 1936, na era pós-Proibição. Frank, o Monstro de Frankenstein interpretado por Christian Bale, vaga pelo mundo há mais de um século em solidão e celibato, encontrando consolo apenas nas salas de cinema, onde seu astro favorito, o dançarino Ronnie Reed (vivido por Jake Gyllenhaal), ilumina as telas com números musicais.

Para encontrar uma companheira, Frank busca a Dra. Euphronius (Annette Bening), cientista que aceita reanimar Ida, uma jovem assassinada pelo crime organizado enquanto estava possuída pelo fantasma de Mary Shelley — as três encarnadas por Jessie Buckley num tour de force que o filme, infelizmente, não aproveita.

A Noiva! é o tipo de filme que dói criticar porque ele tem ouro na mão — elenco de primeira, fotografia assinada por Lawrence Sher (o mesmo de Coringa), trilha de Hildur Guðnadóttir que mescla punk e orquestra gótica — o problema é o roteiro.

— Christian Bale e Jessie Buckley não conseguem salvar A Noiva! (Warner)

A mensagem explícita do filme é a autonomia feminina como ato de resistência. A Noiva renasce e rapidamente impõe sua personalidade, inflamando um romance explosivo, atraindo a atenção da polícia e deflagrando um movimento social.

Maggie Gyllenhaal quer que sua heroína seja simultaneamente monstro e mártir, símbolo e corpo concreto. O problema é que esses objetivos não se articulam, cada vez que o filme se aproxima de uma afirmação clara, uma nova subtrama surge para desviar o olhar.

No nível implícito, o mais rico, está o questionamento sobre quem tem direito de contar a história de uma mulher. A Mary Shelley que empossa o corpo de Ida é uma metáfora para a autoria feminina capturada por instituições — a escritora que criou o monstro, nunca teve controle sobre ele em vida, e agora precisa de um corpo emprestado para encerrar o que começou.

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O roteiro de Gyllenhaal propõe que Shelley narra “a segunda parte de uma história que você nunca soube que precisava ouvir”. É uma ideia bonita. Ela simplesmente não é desenvolvida em profundidade suficiente.

A Noiva! faz ainda uma referência inesperada ao movimento punk feminino Riot Grrrl dos anos 90, quando a Noiva desenvolve uma base de fãs composta por mulheres engajadas. Há ali uma tentativa de mapear genealogias de resistência feminina — de Mary Shelley ao punk feminista.

O figurino de Sandy Powell é igualmente evocativo nesse registro: o vestido de cetim laranja com fenda lateral e as botas vermelhas da Noiva contrastam com o terno surrado e escuro de Frank, sua confiança fácil contra a timidez torturada dele.

— Jessie Buckley brilha mas não consegue salvar A Noiva! (Warner)

Buckley carrega o filme nas costas com uma presença que passa pela comédia física, pelo horror psicológico e pelo melodrama quase operístico — às vezes tudo na mesma cena. Ela foi incumbida de interpretar um colagem de referências dos anos 1930 e nunca é menos que intensamente magnética enquanto quase todo o restante desmorona ao redor dela.

Christian Bale faz um tipo de humor contido que raramente encontra espaço para respirar; Annette Bening entra em cena deslocada, num registro completamente diferente dos outros, como se estivesse filmando um drama de época enquanto seus colegas fazem expressionismo de terror.

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O resultado é um projeto pessoal generoso demais com suas próprias indulgências. Os números musicais, a aparição de Shelley como personagem ativa, a subtrama policial que some sem resolução, os múltiplos finais — cada elemento poderia ser um filme distinto. Juntos, eles se enfraquecem.

Prestar homenagem a uma das escritoras mais celebradas da língua inglesa é o tipo de decisão que faria sentido numa obra que soubesse rir de si mesma ou que abraçasse o nonsense com convicção. A Noiva! hesita entre a seriedade do tema e o delírio gótico, e nessa hesitação deixa escapar os dois.

O fracasso comercial pode ser lido como sintoma de uma desconexão real entre as ambições do filme e o que ele consegue entregar.

A Noiva! é, em última instância e com o perdão do trocadilho, uma junção de partes sem corpo. Gyllenhaal tem domínio técnico, elenco, intenção política e imaginação para sustentar três filmes diferentes. O que falta é foco. E cinema é escolha. Cada cena que permanece no corte final é uma cena que empurra outra para fora. Gyllenhaal quis abraçar tudo — e perdeu o filme.


Onde assistir: A Noiva! está disponível na HBO Max.


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