Perdidos na multidão: Por que esses filmes sobre solidão urbana perturbam tanto

Muito além de um cenário, grandes diretores usam as metrópoles como ferramenta de tensão psicológica e isolamento social.

As grandes metrópoles nasceram sob a promessa do encontro, mas a arquitetura moderna entregou o contrário: solidão urbana. O paradoxo mais incômodo da vida atual é este: nunca estivemos tão cercados por pessoas e, simultaneamente, nunca estivemos tão sós.

No cinema, essa desconexão ganha contornos de terror psicológico e ensaio existencial. Quando a cidade deixa de ser apenas o cenário e passa a agir como uma força opressora, o enquadramento e a montagem se tornam ferramentas cirúrgicas para filmar o vazio.

Abaixo, selecionamos cinco obras essenciais lançadas a partir de 2011 que investigam as diferentes texturas da solidão urbana. Da claustrofobia vertical do Recife ao deserto em Neon de Tóquio, esses filmes perturbam nossa sanidade porque operam como um espelho de concreto: eles nos lembram que, na era da hiperconexão, o abismo que nos separa do outro costuma ser uma mera parede de condomínio ou a tela fria de um smartphone.

Ela (2013) – Dir. Spike Jonze


Jonze foge do visual cinzento clichê das distopias. Ele filma uma Los Angeles futurista (usando Xangai como base) mergulhada em tons pastéis e cores quentes.

A história: Num futuro não muito distante, o escritor solitário Theodore compra um novo software desenhado para o auxiliar em tudo o que for preciso, como um verdadeiro ser humano. Porém, ele começa a desenvolver uma relação romântica com o programa, numa paixão agridoce, que explora a natureza do amor e as formas como a tecnologia pode ajudar-nos, ligar-nos ou isolar-nos.

A solidão aqui é limpa, confortável e instagramável, o que a torna ainda mais assustadora. Theodore está cercado por uma arquitetura corporativa curvilínea e limpa que parece acolhedora, mas que serve apenas para isolar os indivíduos em suas próprias telas. O enquadramento frequentemente deixa Joaquin Phoenix minúsculo contra arranha-céus imensos e minimalistas.

Disponível na HBO Max.

Drive My Car (2021) – Dir. Ryusuke Hamaguchi


Hamaguchi filma Hiroshima através de uma estética limpa, geométrica e deliberadamente desacelerada. O grande trunfo visual do filme é o contraste entre o icônico Saab 900 vermelho e o cinza monótono das vias expressas, dos túneis e dos complexos culturais da cidade. A câmera se recusa a pressões comerciais: ela permanece estática no banco de trás do carro, transformando o veículo em um confessionário claustrofóbico e, ao mesmo tempo, em uma cápsula de proteção contra o caos do mundo exterior.

A história: Dois anos após a morte de sua esposa, Yusuke Kafuku recebe uma oferta para dirigir uma peça num festival de teatro em Hiroshima. Lá, ele conhece Misaki, uma jovem reservada, designada para ser sua motorista. Enquanto passam tempo juntos, Kafuku confronta o mistério de sua esposa que o assombra.

A solidão aqui se manifesta na incapacidade de processar o luto em meio à engrenagem urbana. Yusuke (Hidetoshi Nishijima) é um diretor de teatro que se esconde atrás de fitas cassete e rotinas mecânicas para não encarar os fantasmas de seu casamento. A metrópole moderna é retratada como um labirinto de conexões frias e burocráticas — representada pelas pontes e viadutos que o carro cruza repetidamente. A perturbação nasce do silêncio ensurdecedor entre os personagens e da percepção de que a verdadeira comunicação só acontece quando eles aceitam a própria vulnerabilidade dentro daquele casulo de metal em movimento.

Disponível na MUBI.

Shame (2011) – Dir. Steve McQueen


Nova York é retratada através de uma paleta de cores frias, quase clínicas. Planos longos e estáticos dominam a narrativa.

A história: Brandon é un sujeito bem-sucedido que mora em Nova York e tem uma vida quase perfeita, se não fossem seus problemas para se relacionar intimamente. Sua fuga esta no sexo, frívolo, banal, sem pudor, sem concessões. Sua vida fica ainda mais conturbada quando sua irmã Sissy chega à cidade de surpresa.

Brandon tem uma vida urbana de sucesso financeiro, mas é escravo de uma compulsão sexual que o isola por completo. A cena em que ele corre à noite pelas ruas vazias de Manhattan, ou quando caminha pelo metrô trocando olhares vazios com estranhos, traduz o vazio existencial moderno. É a mercantilização dos corpos e das relações no coração da maior metrópole do mundo.

Disponível no Prime Video.

O Som ao Redor (2012) – dir. Kléber Mendonça Filho


Ambientado em uma rua de classe média-alta no Recife, o filme usa a câmera para mapear o enclausuramento vertical. Kleber filma as grades, as câmeras de segurança, os muros altos e as guaritas como elementos que cortam o plano e separam as pessoas.

A história: A vida numa rua de classe média na zona sul do Recife toma um rumo inesperado, após a chegada de uma milícia que oferece a paz de espírito da segurança particular. A presença desses homens traz tranquilidade para alguns, e tensão para outros, numa comunidade que parece temer muita coisa. Enquanto isso, Bia (Maeve Jinkings), casada e mãe de duas crianças, precisa achar uma maneira de lidar com os latidos constantes do cão de seu vizinho.

O longa perturba porque revela um sintoma muito particular das metrópoles do Brasil: o isolamento pelo medo do outro. Os vizinhos dividem o mesmo espaço físico, mas são incapazes de estabelecer um contato genuíno que não seja mediado pela desconfiança ou por uma milícia de segurança privada.

Disponível na Netflix e Telecine.

Medianeras (2011) – dir. Gustavo Taretto


O filme é, essencialmente, um ensaio cinematográfico sobre como o urbanismo de Buenos Aires molda a psique de seus habitantes.

A história: Mariana (Pilar López de Ayala), Martin (Javier Drolas) e a cidade. Os dois vivem na mesma quadra, em apartamentos um de frente para o outro, mas nunca conseguem se encontrar. Eles se cruzam sem saber da existência do outro. Ela sobe as escadas, ele desce as escadas; ela entra no ônibus, ele sai do ônibus. Eles frequentam a mesma videolocadora, sempre com um stand de filmes os separando. Eles sentam na mesma fileira em um cinema, mas a sala é escura. A cidade que os coloca juntos é a mesma que os separa.

Medianeras perturba pela proximidade geométrica e pelo abismo virtual. Lançado em 2011, o filme foi profético sobre como a internet, em vez de derrubar muros, criou novas formas de isolamento em caixas de sapato (os apartamentos JK/quinetes). A angústia que ele gera vem do pensamento incômodo: “Quantas vezes a pessoa que mudaria a minha vida passou por mim na calçada e eu estava olhando para a tela do celular?”

Disponível na Imovision.

O Eclipse (1962) – Dir. Michelangelo Antonioni


Antonioni utiliza a arquitetura modernista do bairro de EUR, em Roma, como uma extensão geométrica do vazio interior de seus personagens. A composição dos planos é de um rigor matemático gélido: colunas de concreto, linhas duras de prédios novos e esquinas brancas cortam a tela, frequentemente separando os corpos de Vittoria (Monica Vitti) e Piero (Alain Delon). A escala humana é deliberadamente diminuída diante de monumentos de cimento e da opulência impessoal da Bolsa de Valores, criando uma estética onde o espaço físico engole a presença cênica dos atores.

A história: A jovem Vittoria acaba de pôr fim a uma história de amor com um homem mais velho. Depois de conhecer Piero, um comerciante da bolsa de valores, os dois começam a se ver e a passear pelos subúrbios vazios e modernistas de Roma. Porém, logo será revelado que esse caso está fadado ao fracasso.

O filme é a obra-prima sobre a “incomunicabilidade moderna”. Antonioni perturba o espectador ao esvaziar a narrativa de qualquer catarse dramática convencional, mostrando que o crescimento econômico e o desenvolvimento urbano das metrópoles europeias sufocaram a capacidade humana de sentir e se conectar. O ápice desse desconforto está nos lendários sete minutos finais da obra: uma montagem puramente abstrata e sem personagens, focada apenas em esquinas vazias, postes de luz acesos e poças de água no asfalto. É a revelação assustadora de que a cidade e suas estruturas de concreto continuarão existindo de forma fria e indiferente, mesmo após o desaparecimento completo dos afetos humanos.

Disponível na Oldflix.



Encontros e Desencontros (2003) – Dir. Sofia Coppola


A cinematografia de Lance Acord abusa de lentes teleobjetivas para filmar Bob (Bill Murray) e Charlotte (Scarlett Johansson) através de vidros — seja a janela monumental do hotel de luxo ou o vidro do táxi. Tóquio está sempre desfocada ao fundo, um borrão de luzes de Neon e massas de pedestres cruzando o cruzamento de Shibuya. A escala da cidade esmaga os corpos dos protagonistas.

A história: Bob Harris é uma estrela de cinema que está em Tóquio para fazer publicidade. Charlotte, por sua vez, está na cidade a acompanhar o marido, um fotógrafo que a deixa sozinha o tempo todo. Eles acabam por se encontrar, por acaso, no bar do hotel e, em pouco tempo, tornam-se amigos. Resolvem então partir pela cidade juntos. A eles junta-se a jovem actriz Kelly, com quem vão viver algumas aventuras.

A solidão urbana aqui é a da hiper-proximidade cultural. Eles estão cercados por milhões de pessoas e por uma overdose de estímulos visuais e sonoros (os comerciais barulhentos, as salas de fliperama), mas a incapacidade de traduzir o ambiente e as próprias emoções cria uma redoma de vidro intransponível. É o isolamento existencial do privilégio: você tem tudo, está no centro do mundo, e ainda assim está completamente só.

Disponível na Netflix e Globoplay.

Taxi Driver (1976) – Dir. Martin Scorsese


Scorsese e o diretor de fotografia Michael Chapman transformam a Nova York dos anos 1970 em um purgatório da solidão urbana. O filme abusa de lentes teleobjetivas que achatam a perspectiva, prensando os pedestres em uma massa disforme e sufocante. A câmera opera frequentemente de dentro do táxi, capturando o mundo através do para-brisa embaçado pela chuva ou fragmentando a realidade pelos espelhos retrovisores. As luzes de Neon distorcidas e os planos em câmera lenta criam uma atmosfera de voyeurismo febril, onde o carro funciona como uma cápsula de isolamento intransponível.

A história: Um veterano de guerra mentalmente instável trabalha como taxista em Nova York. Decadência e desprezo alimentam seu desejo de ação.

A obra é o diagnóstico definitivo da solidão urbana como patologia social. Travis Bickle (Robert De Niro) é o “homem invisível” gerado pela engrenagem da metrópole. A perturbação nasce do fato de que sua alienação não se traduz em melancolia passiva, mas em uma paranoia violenta. Cercado por milhões de pessoas no coração do mundo, Travis é incapaz de decodificar as interações humanas mais básicas. O roteiro de Paul Schrader expõe o perigo do isolamento extremo nas grandes cidades: quando o indivíduo é completamente ignorado pela multidão, ele deforma sua própria mente até encontrar na violência a única linguagem capaz de torná-lo visível.

Disponível na HBO Max.


Ao cruzar geografias e estéticas tão distintas — da fobia social mediada por telas em Buenos Aires ao enclausuramento defensivo nas metrópoles brasileiras, passando pelo olhar cirúrgico de diretoras que transformam hotéis e esquinas em prisões psicológicas —, o cinema de solidão urbana nos entrega um diagnóstico incômodo. Essas obras não perturbam pelo que mostram de fictício, mas pelo rigor técnico com que mimetizam a nossa própria realidade.

A verdadeira angústia gerada por essa seleção não reside no isolamento em si, mas no paradoxo do “lado a lado”. O cinema nos lembra que as cidades se transformaram em imensos tabuleiros de xadrez onde os indivíduos são peças isoladas por linhas duras de concreto, vidro e algoritmos.

A provocação que esses filmes plantam na mente do espectador do Cinema Guiado é uma questão de espaço e de olhar: quantas vezes a conexão que buscamos passou por nós na calçada de uma grande avenida enquanto estávamos ocupados olhando para o próprio reflexo na tela do celular?

No fim, estar perdido na multidão é uma das grandes tragédias da nossa era.

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