Crítica: ‘O Jogo do Predador’ e a montanha que o roteiro não escala

O Jogo do Predador, thriller de sobrevivência que acumula quase 80 milhões de visualizações na Netflix, revela onde o cinema de gênero encontra seus próprios limites.


Dirigido pelo islandês Baltasar Kormákur, roteirizado por Jeremy Robbins e estrelado por Charlize Theron, Taron Egerton e Eric Bana, o suspense da Netflix foi recebido com críticas mistas. Isso, porém, não impediu que acumulasse quase 80 milhões de visualizações em duas semanas.

Os números falam de uma audiência faminta por adrenalina. Mas o que o filme entrega é uma questão mais complicada. A tese central de O Jogo do Predador pode ser resumida assim: a natureza selvagem não é o único predador. O verdadeiro perigo tem rosto, nome e intenção. O problema é que o roteiro anuncia essa tese no primeiro ato e passa o restante dos 95 minutos tentando sustentá-la sem muito sucesso.

A história começa na Troll Wall, na Noruega, onde Sasha (Theron) e Tommy (Bana) escalam juntos. Uma avalanche atinge Tommy, derrubando-o da montanha. O peso do seu corpo inconsciente puxa Sasha. Sem saber se ele ainda está vivo, ela é forçada a soltar a corda. Ele despenca. Esse é o motor do filme: uma decisão num segundo que não pode ser desfeita.

Cinco meses depois, Sasha dirige sozinha em direção ao fictício Parque Nacional Wandarra, na Austrália. Um guarda florestal a avisa sobre uma série de desaparecimentos na região. Ela o ignora, seguindo a lógica de quem já perdeu muito e não teme perder mais nada.

Essa psicologia é o material mais interessante que o filme tem em mãos, e também o que ele menos desenvolve. As filmagens ocorreram principalmente nas Blue Mountains, em Nova Gales do Sul, a cerca de 80 quilômetros a oeste de Sydney, cobrindo desfiladeiros, florestas tropicais, cavernas e o confronto final.

Algumas das sequências mais marcantes foram rodadas em cavernas dentro do Blue Mountains National Park que a equipe só conseguia acessar nadando e depois caminhando descalça por terreno irregular. Kormákur afirmou que explorou essas cavernas até encontrar exatamente o que precisava — e que eram, naturalmente, o ponto mais distante possível.

Kormákur tem o hábito de filmar na natureza de modo que os cenários abertos se tornem um dos perigos que os personagens enfrentam — e de demonstrar que o ser humano pode ser uma ameaça muito maior que a paisagem. Foi assim em A Fera (2022), e é assim aqui.

Ben (Egerton) é apresentado como um homem afável, prestativo, que encontra Sasha no caminho e se oferece para guiá-la. O roteiro de Robbins se apoia numa subversão do clichê do Ozploitation — o gênero australiano dos anos 1970 onde turistas são destruídos pelo interior hostil. O espectador pode acreditar, no primeiro ato, que revisitará a velha história de uma mulher independente atormentada por um bando de homens locais. Essa premissa é logo subvertida: Egerton é posicionado como a única ameaça real, guardando cartas na manga sobre seu verdadeiro propósito.

É Egerton quem realmente chama atenção. O ator entrega uma atuação primal, animalesca, revelando de forma gradual como o simpático Ben se transforma na figura implacável de um serial killer que caça suas vítimas pela floresta. Kormákur usa Theron e Egerton da melhor forma possível: o filme é boa parte só os dois na mata, explorando a relação de poder entre Sasha e Ben e a forma como cada um domina o outro.

Aqui o filme se torna mais interessante do que parece à primeira vista — e mais incômodo. O que mais incomoda em O Jogo do Predador é a sugestão de que Sasha estava plenamente consciente dos riscos e seria responsável pelas violências experimentadas no percurso.

Ela ignora o alerta do guarda florestal. Ela entra no território marcado por desaparecimentos. O roteiro, conscientemente ou não, repete uma lógica antiga: a mulher que se aventura sozinha e não escuta avisos merece o que encontra.

Ben não é apenas um psicopata — é quase uma consequência narrativa do comportamento de Sasha.

Ao mesmo tempo, o arco de Sasha propõe outra leitura: a sobrevivência como forma de expiação. Ela não conseguiu segurar seu parceiro. Agora, ela deve segurar a si mesma. Cada escalada, cada corredeira, cada fuga pelas cavernas das Blue Mountains é uma forma de provar — para si, não para o público — que o erro na Noruega não define quem ela é. Esse subtexto existe. Ele simplesmente não é desenvolvido.

O Jogo do Predador é um produto Netflix — no sentido mais ambíguo da expressão. A tentativa de combinar introspecção emocional com ação constante resulta num filme irregular, que não explora totalmente suas ideias mais interessantes. O contraste entre o primeiro ato de desenvolvimento de personagem e a virada para thriller de perseguição revela uma fissura estrutural que o bom desempenho técnico não fecha.

Sintomaticamente, o filme aposta no corpo como seu argumento principal. Theron realizou todas as cenas de escalada ela mesma, treinando com a alpinista profissional Beth Rodden. Para as sequências mais perigosas de caiaque em corredeiras rápidas, atletas de nível olímpico — incluindo River Mutton e Luuka Jones — assumiram as cenas.

Egerton fez seu próprio caiaque após treinar em instalação olímpica e completou uma descida de 20 a 30 metros em cabo para uma tomada específica. Isso não é detalhe de produção: é a própria filosofia do filme. Quando a câmera encontra Theron subindo uma parede sem coreografia marcada — três câmeras rodando simultaneamente, sem chamada de “ação”, ela simplesmente começava a escalar e as câmeras a encontravam — o resultado tem uma textura diferente do thriller médio de streaming.

O corpo em risco real produz uma frequência que o CGI não alcança.

O roteiro de Robbins entrou na Black List de 2021 — a lista anual dos melhores roteiros não produzidos por Hollywood. A Netflix adquiriu os direitos em fevereiro de 2024.

Isso significa que o projeto passou por um longo processo de maturação antes de chegar às telas — e ainda assim mantém as mesmas fragilidades que um roteiro de estreia costuma carregar: personagens secundários subdesenvolvidos, uma virada que não surpreende, e uma resolução que satisfaz mais a lógica do gênero do que a dos próprios personagens.

O Jogo do Predador é um filme que sabe exatamente o que quer e quase consegue.

A fotografia de Lawrence Sher trata as Blue Mountains com o respeito que elas merecem — o azul característico da neblina de eucalipto, os paredões de arenito, as corredeiras entre pedras cor de ferrugem viram cenário de perseguição sem perder sua qualidade pictórica.

A trilha de Högni Egilsson, junto à eletrizante “Go”, do The Chemical Brothers, cria um estado de tensão que sustenta a segunda metade mesmo quando o roteiro vacila.

O consenso do Rotten Tomatoes captura bem o problema: o filme se beneficia de locações australianas deslumbrantes e do atleticismo de Charlize Theron, mas economiza nos detalhes — e não representa o ápice dos thrillers de sobrevivência.

O Jogo do Predador está disponível na Netflix.

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